Em 29 de junho de 2026, no Gillette Stadium, em Boston, o Paraguai protagonizou uma das maiores surpresas da competição. Após um empate em 1 a 1 no tempo regulamentar, a partida foi para os pênaltis. Com atuação decisiva do goleiro Orlando Gill, que defendeu duas cobranças, os paraguaios venceram por 4 a 3, eliminando a tetracampeã mundial.
Para o Paraguai, esta foi a primeira vez que eliminou uma seleção europeia em Copas do Mundo, um feito que vai além do gramado, ressoando com a história de um país que, após a devastadora Guerra da Tríplice Aliança (1864-1870), abriu suas portas para imigrantes europeus em busca de reconstrução.
🏡 A Sombra da História: Colônias Alemãs no Paraguai
A conquista paraguaia adquire um significado ainda mais profundo quando lembramos da presença histórica e atual de comunidades alemãs no país.
Colonização histórica: A imigração alemã para o Paraguai não é recente. No final do século XIX, o governo paraguaio, buscando povoar o território e impulsionar a economia, ofereceu terras e isenções para atrair colonos europeus. Foi nesse contexto que, em 1886, Bernhard Förster, cunhado do filósofo Friedrich Nietzsche, fundou a colônia de Nova Germânia com o ideário racista de criar uma nova pátria para a raça ariana". Embora esse projeto específico tenha fracassado, outras colônias, como as Colônias Unidas (Hohenau, Obligado e Bella Vista), prosperaram e mantêm até hoje a cultura e a língua alemãs.
Nova onda migratória: Atualmente, o Paraguai vive uma nova onda de imigração alemã. Dados da Direção Geral de Migração do Paraguai mostram que, entre junho de 2021 e fevereiro de 2022, foram emitidas 1.324 permissões de residência para cidadãos alemães, tornando-os a segunda maior nacionalidade a obter residência no período. Muitos buscam terras férteis e um "refúgio" das restrições impostas pela pandemia e de outros problemas na Europa.
A vitória do Paraguai sobre a Alemanha, portanto, pode ser vista como uma vitória simbólica do país que recebeu os imigrantes sobre a nação de origem de muitos que hoje detêm terras e influência em seu território. É a "Copa dos pobres humilhados" que se ergue diante de uma potência econômica.
🌍 O Futebol como Espelho da Imigração Global
A imigração compõe as melhores seleções do mundo" é corroborada por dados impressionantes da Copa de 2026. O futebol se tornou um palco onde a migração global é mais visível e celebrada do que em qualquer outro espaço social.
Dados da Copa: Um levantamento indicou que 292 dos 1.248 jogadores (cerca de 23%) participantes do Mundial nasceram fora dos países que representam. Vinte anos antes, em 2006, essa proporção era de apenas 9%.
A Seleção Francesa: A França é o exemplo máximo dessa transformação. Na Copa de 2026, 20 dos 26 convocados (77%) são filhos de imigrantes. A seleção que foi campeã em 2018 já tinha oito titulares de origem estrangeira, e a atual, liderada por Kylian Mbappé e Ousmane Dembélé (ambos filhos de imigrantes), é a "mais africana da história". O futebol, para muitos jovens das periferias pobres da França, onde reside a comunidade de origem africana, representa uma das poucas opções de ascensão social.
A Seleção Holandesa: Na Holanda, metade dos jogadores convocados são descendentes diretos de estrangeiros. A ligação com Marrocos é um exemplo claro: o fluxo migratório de trabalhadores marroquinos para a Holanda, iniciado nos anos 1960 para suprir a falta de mão de obra no pós-guerra resultou em uma comunidade de cerca de 400 mil pessoas. Na Copa de 2026, três jogadores da seleção marroquina nasceram na Holanda, e muitos outros foram formados em clubes holandeses.
Outras Seleções: O fenômeno se repete em outras potências do futebol:
Alemanha e Inglaterra: Pelo menos um terço de seus elencos é composto por filhos de imigrantes. A Inglaterra chega a ter quase 70% de seus jogadores com origens de imigrantes, principalmente do Caribe e da África.
Bélgica: A diversidade étnica e cultural também é uma marca registrada, com jogadores de origem congolesa, argelina e de outras ex-colônias.
Este cenário cria um contraste brutal: enquanto a Europa endurece suas leis migratórias e a extrema-direita ganha força com discursos anti-imigração, suas seleções nacionais, compostas majoritariamente por descendentes de imigrantes, são os principais símbolos de orgulho e unidade nacional.
⚖️ Justiça Social e Espiritualidade em Campo
A conexão entre futebol, justiça social e espiritualidade é profunda e multifacetada.
Justiça Social e Ascensão: Para inúmeros jovens imigrantes e seus descendentes, o futebol é um caminho para a dignidade e a mobilidade social, um "campo" (em todos os sentidos) onde o mérito pode, ainda que imperfeitamente, superar as barreiras do preconceito e da exclusão social.
Espiritualidade e Identidade: A escolha de um jogador com dupla nacionalidade por uma seleção vai além da tática; é um ato de afirmação de identidade, um resgate de suas raízes e da história de sua família. Quando um jogador nascido na França veste a camisa de Senegal ou Argélia, ou quando um atleta nascido na Holanda defende Marrocos, ele está expressando um pertencimento que é cultural, afetivo e profundamente espiritual.
Rituais e Fé: A espiritualidade também se manifesta nos rituais individuais e coletivos dentro de campo: jogadores que fazem o sinal da cruz antes de uma partida, que apontam para o céu após um gol ou que formam grupos para rezar. Esses gestos são demonstrações públicas de fé e de conexão com algo maior que o próprio jogo, muitas vezes servindo como um pedido de proteção e justiça em um ambiente de alta pressão.
Teologia e Luta Social: A ligação entre espiritualidade e justiça social é um tema presente em diversas tradições religiosas, que entendem a luta por direitos e contra a opressão como uma expressão da própria fé. Nesse sentido, a trajetória de muitos jogadores imigrantes, superando a pobreza e o preconceito para alcançar o estrelato, pode ser vista como uma narrativa de superação que ressoa com valores espirituais de esperança e redenção.
O livro How Soccer Explains the World: An Unlikely Theory of Globalization (2004), de Franklin Foer, é a chave teórica para entender essa complexa teia de relações. Foer argumenta que o futebol é muito mais que um jogo; é uma ferramenta poderosa para analisar as forças da globalização, do nacionalismo e da economia.
Globalização e Tensões Locais: Foer mostra como o futebol, ao mesmo tempo em que se globaliza com marcas e jogadores internacionais, também se torna um palco para tensões tribais e nacionalismos antigos. A Copa do Mundo é o maior exemplo disso.
Migração e Economia: O livro dedica uma parte inteira para discutir as "consequências da migração" no futebol, mostrando como o esporte é um dos setores mais afetados e que melhor ilustra os fluxos migratórios globais. A presença massiva de jogadores imigrantes nas seleções europeias é a confirmação viva dessa tese.
Corrupção e Poder: Foer também analisa como o futebol é um campo de batalha para "oligarcas poderosos" e para a corrupção, refletindo as desigualdades de poder na economia global.
A análise de Foer nos ajuda a ver que a vitória do Paraguai sobre a Alemanha não é apenas um feito esportivo, mas um microcosmo das tensões entre o "norte" e o "sul" global, entre a história de colonização e a realidade da migração, e entre o nacionalismo e a diversidade que define o mundo contemporâneo. E claro! A Copa dos pobres e imigrantes tinha que ser nos EUA de Trump. Outra lição da História e de Deus para a Direita extrema. Viva o Futebol e o talento que não tem raça nem nacionalidade.
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