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quinta-feira, 25 de junho de 2026

O novo e importante relatório da UNESCO mostra uma arquitetura institucional ampla, mas mal financiada e mal medida


 A política cultural global cresceu sobre recursos frágeis e desertos de dados. Diante da IA, falta-lhe uma teoria do real.


O novo e importante relatório da
UNESCO mostra uma arquitetura institucional ampla, mas mal financiada e mal medida, que registra os sintomas da IA sem desenvolver sua dimensão ontológica.

A quarta edição do Re|Shaping Policies for Creativity, publicada pela UNESCO em 2026 sob edição de Jordi Baltà Portolés, reúne respostas de mais de 120 países (121 Partes da Convenção de 2005), em 133 relatórios e 3.908 políticas e medidas, para avaliar duas décadas da Convenção. O diagnóstico é desconfortável: a arquitetura pública da cultura se espalhou pelo mundo, mas se apoia em orçamentos minguados e nos "data deserts" que o próprio relatório admite.

Existência não é efeito. Ministério, lei e conselho podem existir sem orçamento, equipe ou poder de execução, e o relatório mede melhor a presença das estruturas que a distribuição de seus resultados.

✅ Estruturas e recursos:

📊 100% dos países relatores têm órgão de cultura; 92%, cooperação interministerial; 81%, instituição de estatística

🔎 61% têm escritórios estatísticos ou organismos de pesquisa que avaliam políticas, contra 46% no ciclo anterior

💼 85% das Partes relatam medidas de geração de emprego no setor

💰 O financiamento público direto à cultura segue abaixo de 0,6% do PIB global

🌍 Em 2022, só 0,15% da Ajuda Programável por País foi para cultura e recreação

✅ Direitos, desigualdade e IA:

🎭 O comércio de bens culturais somou US$254 bilhões em 2023, concentrado no Norte Global

⚖️ Mais de 90% das Partes garantem em lei a liberdade artística, mas as violações crescem

👥 Mulheres ocupam quase metade dos cargos de liderança, com fortes disparidades regionais, e são apenas 26% das fontes do noticiário

📶 Nos países desenvolvidos, 67% têm competências digitais básicas, contra 28% nos em desenvolvimento

🤖 Dos 148 projetos de lei sobre IA em 128 países entre 2016 e 2023, só um teve a cultura como tema principal

A IA atravessa o relatório como força transversal. Ele examina direitos autorais, transparência, remuneração e descobribilidade, e chega a tocar o ponto sensível: conteúdo sintético que ameaça identidades, valores e sentidos da criação humana, indistinção entre o humano e o automatizado, risco de colapso de modelos. Realmente relevante🎯

Falta o passo seguinte. O relatório registra esses sintomas sem oferecer uma linguagem conceitual para a pergunta que eles abrem: o que passa a contar como real quando sistemas algorítmicos participam da produção do visível e do provável.

Chamo isso de direito à realidade. Conhecer a origem, o contexto e as mediações dos conteúdos, e preservar as experiências que sustentam um mundo comum. As estruturas estão montadas. A pergunta que o relatório deixa aberta é o que protegemos quando o próprio real se torna disputado.

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