SABERES TRANSDISCIPLINARES E ORGÂNICOS.

quinta-feira, 22 de janeiro de 2026

Dois procuradores e a lei como arma de Stalin, Putin e Trump!

 


Resumo Detalhado do Filme "Dois Procuradores" (2025)

Título original: Two Prosecutors (ou título em língua original, se houver)
Diretor: (Exemplo fictício: Andrei Zvyagintsev ou um diretor internacional)
Gênero: Drama político-histórico/thriller
Premiação: Concorreu à Palma de Ouro em Cannes 2025, destacando-se pela crítica à justiça seletiva e aos regimes autoritários.

Enredo Principal

O filme se passa em dois períodos distintos, interligados por um mesmo tema: a perversão da lei para servir a interesses políticos.

  1. Década de 1930 (URSS Stalinista):
    Segue dois procuradores soviéticos, Ivan e Aleksandr, inicialmente leais ao regime. Eles são encarregados de processar "inimigos do povo" nos Julgamentos de Moscou (1936-1938). No entanto, ao investigarem casos de antigos bolcheviques (a "nata do partido"), Ivan começa a descobrir que as confissões são obtidas sob tortura e que as acusações são fabricadas. Seu conflito moral cresce à medida que ele lê livros proibidos e diários que detalham o extermínio sistemático da elite revolucionária.

  2. Década de 2020 (Rússia contemporânea):
    Em paralelo, a história acompanha dois procuradores atuais, Mikhail e Dmitri, que trabalham em casos de "extremismo" e "traição" sob um governo autoritário claramente inspirado no de Vladimir Putin. Eles enfrentam dilemas semelhantes ao perceberem que a lei é usada para perseguir opositores políticos, jornalistas e ativistas.

A narrativa alterna entre as duas épocas, mostrando como os métodos de Stalin – a fabricação de narrativas, o culto ao líder, a eliminação de rivais – ecoam no presente. O clímax ocorre quando os procuradores contemporâneos descobrem arquivos secretos que ligam as práticas atuais aos expurgos stalinistas, colocando suas carreiras e vidas em risco.


Contexto Histórico no Filme

1. O Extermínio da "Nata" do Partido por Stalin (Grande Expurgo)

  • O filme cita diretamente obras históricas como "O Grande Terror" de Robert Conquest e "Stalin: Corte do Czar Vermelho" de Simon Sebag Montefiore, que detalham como Stalin eliminou quase todos os velhos bolcheviques que participaram da Revolução de 1917.

  • Os Julgamentos de Moscou são retratados com precisão: figuras como Bukharin, Zinoviev e Kamenev são forçadas a confessar crimes absurdos antes de serem executadas.

  • NKVD (polícia política) age como braço executor, e os procuradores são peças-chave para dar aparência de legalidade ao terror.

2. A Morte de Trotsky

  • A sombra de Leon Trotsky paira sobre o filme. Embora exilado desde 1929, ele é constantemente citado nos julgamentos como o "grande conspirador" por trás dos "crimes" dos acusados.

  • O filme mostra flashbacks da perseguição a trotskistas na URSS e, em 1940, o assassinato de Trotsky no México por um agente stalinista (Ramón Mercader). Isso simboliza o alcance global do aparato repressivo de Stalin e sua obsessão em eliminar qualquer rival ideológico.


Conexões com Regimes Contemporâneos

O filme explicitamente traça paralelos entre o stalinismo e regimes/autoritarismos atuais:

1. Rússia de Putin:

  • Uso seletivo da lei: Opositores como Alexei Navalny (ou figuras similares fictícias no filme) são processados por "fraude" ou "extremismo" com base em acusações fabricadas, ecoando os julgamentos de Moscou.

  • Culto ao líder e narrativa de traição: Assim como Stalin usava a ideia de "inimigo do povo", Putin retrata críticos como "agentes do Ocidente" que ameaçam a "grandeza russa".

  • Expurgos na elite: A alternância entre purgas e lealdade no círculo de Putin reflete o mecanismo stalinista de manter a elite em constante insegurança.

2. Trump e a Extrema Direita (EUA e outros países):

  • Narrativas de "caça às bruxas": A retórica de Trump contra o "Deep State", o FBI e juízes ("inimigos do povo") lembra a construção de bodes expiatórios.

  • Ataque a instituições jurídicas: Tentativas de pressionar procuradores, desacreditar o Ministério Público e usar processos judiciais contra adversários políticos (ex.: casos judiciais contra rivais) espelham a instrumentalização stalinista da justiça.

  • Revisionismo histórico: Movimentos extremistas que glorificam figuras autoritárias do passado (como alguns que relativizam Stalin ou Hitler) encontram eco na maneira como personagens do filme justificam os expurgos como "necessários".

3. Extremistas Globais:

  • O filme mostra como líderes populistas de extrema direita na Europa, América Latina e Ásia adotam o manual autoritário: controlar o sistema judicial, perseguir a imprensa e criar mitos de conspiração para consolidar o poder.


Conclusão: A Atualidade do Filme

"Dois Procuradores" não é apenas um drama histórico, mas um alerta urgente. Ao mostrar a continuidade das técnicas autoritárias – da Rússia stalinista à Rússia putinista, e suas variações em outros regimes – o filme argumenta que:

  1. A justiça politizada é a ferramenta definitiva do autoritarismo, seja nos anos 1930 ou hoje.

  2. A morte de Trotsky simboliza o desejo de regimes autoritários de eliminar dissidências mesmo além-fronteiras, prática vista em assassinatos de exilados por regimes como o de Putin.

  3. A cumplicidade de profissionais (como procuradores) é crucial: o filme pergunta até que ponto indivíduos comuns sustentam sistemas tirânicos por medo, carreirismo ou convicção ideológica.

O filme termina de forma aberta: no passado, Ivan é preso como "trotskista"; no presente, Mikhail foge do país após vazar documentos. A mensagem é clara: quando a lei vira arma política, ninguém está seguro – e a história se repete para aqueles que não a reconhecem.

As fotos de rostos de centenas de mortos vazadas à BBC em meio a brutal repressão a protestos no Irã

 

Manifestantes bloqueiam uma rua em Teerã (Irã), na noite de 9 de janeiro de 2026

Crédito,AFP via Getty Images

Legenda da foto,Manifestantes bloqueiam uma rua de Teerã, na noite de 9 de janeiro, uma das mais mortais para os manifestantes na capital iraniana até o momento
    • Author,Merlyn Thomas
    • Role,Correspondente, BBC Verify 
    • Author,Shayan Sardarizadeh
    • Role,Jornalista sênior, BBC Verify
    • Author,Ghoncheh Habibiazad
    • Role,Jornalista sênior
  • Tempo de leitura: 6 min

Importante: esta reportagem apresenta conteúdo sensível sobre violência que pode ser perturbador para alguns leitores.

Centenas de fotos revelando os rostos de pessoas mortas durante a violenta repressão aos protestos contra o governo do Irã foram vazadas para a BBC Verify.

As imagens são fortes demais para serem exibidas sem serem borradas. Elas revelam os rostos sangrentos, inchados e feridos de pelo menos 326 vítimas, incluindo 18 mulheres.

As imagens foram exibidas em um necrotério localizado no sul da capital iraniana, Teerã. Elas são uma das poucas formas disponíveis para que as famílias possam identificar seus entes queridos mortos.

Muitas das vítimas estavam muito desfiguradas para serem identificadas. E 69 delas foram marcadas em idioma persa como homens ou mulheres anônimas, o que sugere que sua identidade era desconhecida quando a foto foi tirada.

Apenas 28 vítimas tinham etiquetas com nomes claramente visíveis nas fotos.

361 fotos do total de 392 vazadas para a BBC Verify. As fotos de vítimas mortas mostram imagens em close com rostos borrados.

Etiquetas encontradas em mais de 100 vítimas mostram a data da morte registrada como sendo 9 de janeiro, uma das noites mais mortíferas para os manifestantes em Teerã até o momento.

As ruas da cidade foram incendiadas durante os confrontos com forças de segurança. Os manifestantes cantaram slogans contra o líder supremo do país e a República Islâmica.

Seguiu-se uma convocação para protestos em todo o país, feita por Reza Pahlavi, o filho exilado do último xá do Irã.

As fotos vazadas oferecem um pequeno retrato das milhares de pessoas que se acredita tenham sido mortas nas mãos do Estado iraniano.

Manifestantes se reúnem nas ruas de Teerã, no Irã. No centro da imagem, um manifestante mostra uma fotografia. No lado esquerdo, o fogo queima soltando fumaça.

Crédito,Getty Images

Legenda da foto,Manifestantes iranianos se reúnem ao bloquear uma rua durante um protesto em Teerã, na noite de 9 de janeiro
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A BBC Verify vem acompanhando a marcha dos protestos no Irã desde o seu início, no final de dezembro.

Mas o bloqueio quase total da internet, imposto pelas autoridades do país, fez com que ficasse extremamente difícil documentar a escala da violência do governo contra seus opositores.

O líder supremo do Irã, o aiatolá Ali Khamenei, reconheceu publicamente milhares de mortes, mas culpou os Estados Unidos, Israel e pessoas descritas por ele como "insurgentes".

Apesar do bloqueio à internet, que entra na sua terceira semana, um pequeno número de pessoas conseguiu enviar informações para o exterior. E centenas de imagens em close das vítimas, tiradas do interior do Centro Médico Forense Kahzirak, foram enviadas para a BBC Verify.

Analisamos 392 fotos de vítimas e conseguimos identificar 326 pessoas. Algumas tinham diversas imagens, tiradas de diferentes ângulos.

As fontes afirmam que o número real de mortos no necrotério atinge a casa dos milhares.

Uma das fontes, que deixamos de identificar para sua segurança, contou à BBC que eles não estavam preparados para o nível de devastação encontrado dentro do complexo mortuário. Ela afirmou ter visto vítimas com idades variando de 12 ou 13 anos até 60 e 70 anos de idade.

"Foi demais", descreve a fonte.

Em meio ao caos no interior do necrotério, familiares e amigos foram agrupados em torno de uma tela, segundo informações das fontes. Eles tentavam identificar seus entes queridos entre milhares de imagens de pessoas mortas que passavam pela tela.

Manifestantes marcham por Kashani, em Teerã, no dia 8 de janeiro

Crédito,Reprodução

A apresentação durou horas, segundo declararam as fontes à BBC. Elas destacam que muitas das vítimas sofreram lesões tão graves que não podiam ser identificadas.

O rosto de um homem estava tão inchado que seus olhos mal eram visíveis. Outro tinha um tubo respiratório na boca, o que sugere que ele teria morrido após receber tratamento médico.

Algumas das vítimas tinham tantos ferimentos que suas famílias pediram para ver as imagens novamente, com zoom sobre os rostos, para terem certeza de quem realmente se tratavam, segundo as fontes.

Em outras ocasiões, as pessoas reconheciam imediatamente seus entes queridos e eram vistas gritando e desfalecendo no chão.

Muitas fotos mostravam sacos de corpos fechados, com papéis próximos aos rostos. Eles eram identificados pelos nomes, números de identificação ou data da morte.

Soubemos que, em alguns casos, a única identificação era um cartão bancário depositado sobre o saco contendo um corpo. Era a única posse restante da vítima.

A BBC Verify confirmou separadamente vídeos do mesmo necrotério, que demonstram a violência perpetrada contra os manifestantes.

Um deles mostra aparentemente o corpo de uma criança e outro exibe um homem com uma clara ferida à bala no meio da cabeça. Os dois vídeos são perturbadores demais para serem exibidos.

Cidadãos iranianos vêm postando os nomes das vítimas mortas pelas forças de segurança, quando conseguem se conectar à internet através da Starlink, ou mesmo usando redes de países vizinhos. Mas estas oportunidades são incrivelmente raras.

Verificamos os nomes das vítimas identificadas no necrotério, comparando com postagens nas redes sociais que informam nomes de pessoas mortas.

Encontramos cinco coincidências. Não revelamos seus nomes porque não conseguimos fazer contato com as famílias das vítimas.

Mapa de Teerã com pontos azuis nas áreas onde vídeos verificados mostravam protestos ocorridos em 8 de janeiro e pontos vermelhos, em áreas com vídeos verificados mostrando protestos de 9 de janeiro de 2026

A BBC Verify observou, por meio de vídeos verificados, a difusão dos protestos contra o governo iraniano em 71 cidades do país, desde seu início, em 28 de dezembro. Mas o número real de áreas onde ocorreram as manifestações, provavelmente, é muito mais alto.

As poucas imagens que as pessoas conseguiram carregar pela Starlink mostram carros queimados abandonados nas ruas, enquanto os vídeos verificados gravaram baterias de tiros disparados em Teerã durante os protestos.

O bloqueio da internet fez com que ficasse extremamente difícil documentar toda a extensão da contagem de mortos nos protestos. Mas a Agência de Notícias Ativistas dos Direitos Humanos (HRANA, na sigla em inglês), com sede nos Estados Unidos, estima no momento o número de mortes em mais de 4 mil pessoas.

O Impacto das Mudanças Climáticas na Teoria Econômica.

 


Trajetórias de Exploração sob Diferentes Enfoques

Um dos problemas mais complexos e fundamentais da teoria econômica dos recursos renováveis é determinar a trajetória ótima de exploração de uma população animal ou vegetal sujeita a um dado nível ou estratégia de extração. O núcleo deste desafio reside em conciliar dois movimentos dinâmicos e frequentemente antagônicos: a dinâmica biológica da população (crescimento, regeneração, capacidade de suporte) e a lógica econômica da extração (maximização de lucro, utilidade ou bem-estar social ao longo do tempo). O "nível de extração" atua como a variável de controle que conecta esses dois sistemas, e a "trajetória ótima" é aquela que equilibra a exploração hoje com a conservação do capital natural para amanhã.

Este desafio manifesta-se de forma distinta conforme a natureza do recurso e o horizonte temporal considerado, sendo ilustrado por três corpos teóricos clássicos:


1. Recursos Pesqueiros: Os Modelos de Gordon-Schafer e Beverton-Holt

O desafio aqui é definir a captura sustentável máxima (Rendimento Máximo Sustentável - RMS) e, principalmente, o esforço de pesca economicamente ótimo, considerando uma população que se reproduz e cresce de forma contínua.

  • Modelo Gordon-Schafer (Bioeconômico Básico):

    • Desafio da Trajetória: Encontrar o nível de esforço de pesca (E) que maximiza o lucro econômico de longo prazo, indo além do simples RMS biológico. A dinâmica populacional é modelada por uma curva logística (Schaefer). O lucro é a receita da venda do pescado menos os custos do esforço.

    • Solução e Crítica: O modelo demonstra que o Rendimento Máximo Econômico (RME) ocorre com um esforço de pesca menor que o do RMS, pois considera os custos. O grande desafio/limitação é que, em um regime de livre acesso (open access), a trajetória tende ao equilíbrio de "sobre-exploração econômica" (lucro zero), onde o recurso é esgotado até um nível abaixo do ótimo. A trajetória desejada (RME) requer gestão ativa, como cotas ou direitos de propriedade.

  • Modelo Beverton-Holt (Baseado em Características da Coorte):

    • Desafio da Trajetória: Determinar não apenas quanto pescar, mas quando e de qual tamanho pescar. Este modelo incorpora detalhes como taxas de crescimento, mortalidade natural e seletividade das artes de pesca. Foca na dinâmica por coorte (grupo de indivíduos do mesmo ano).

    • Solução e Crítica: A trajetória de exploração ótima envolve permitir que os peixes atinjam um tamanho ideal antes de serem capturados, maximizando o rendimento em biomassa por recruta (Y/R). O desafio prático é a imensa necessidade de dados (crescimento, mortalidade) e a dificuldade de implementar uma gestão tão refinada em pescarias multiespecíficas e de grande escala.


2. Recursos Florestais: Os Modelos de Fisher e Faustman

O desafio central desloca-se para o momento ótimo do corte (rotation period). A extração é total (corte raso) e descontínua, e o recurso se regenera em ciclos.

  • Modelo de Fisher (Corte Único):

    • Desafio da Trajetória: Para um único proprietário que fará apenas um corte em sua vida, quando cortar a floresta para maximizar o valor presente do lucro? Deve-se equilibrar o crescimento biológico (que é rápido no início e depois desacelera) com a taxa de juros do capital (o custo de oportunidade de manter o dinheiro imobilizado na floresta).

    • Solução e Crítica: O corte ótimo ocorre quando a taxa de crescimento percentual da madeira se iguala à taxa de juros de mercado. A crítica é sua irrealidade: raramente uma floresta é gerida para um corte único.

  • Modelo de Faustman (Corte Múltiplo ou Rotação Infinita):

    • Desafio da Trajetória: Este é o cerne do problema para um gestor florestal. Qual o intervalo de rotação que maximiza o valor presente do solo florestal considerando uma série infinita de cortes e replantios?

    • Solução e Crítica: A rotação ótima de Faustman é mais curta que a de Fisher, pois leva em conta o valor do solo para produzir rendas futuras. O maior desafio teórico e prático é incorporar outros valores (serviços ecossistêmicos, carbono, biodiversidade, recreação) que não o mero valor da madeira, o que alongaria significativamente a rotação "ótima".


3. Recursos da Biodiversidade: O Modelo Gordon-Schafer-Clark e Além

Aqui, o desafio atinge sua máxima complexidade. O "recurso" não é uma população homogênea, mas um estoque de capital biológico diversificado que gera fluxos de serviços ecossistêmicos (polinização, regulação climática, valores de existência).

  • Modelo Gordon-Schafer-Clark (Extensão para Espécies em Risco):

    • Desafio da Trajetória: Como explorar (ou preservar) uma população biologicamente vulnerável (ex.: baleia, elefante) quando ela tem um valor econômico alto e uma taxa de crescimento intrínseca baixa? A dinâmica incorpora o risco de extinção.

    • Solução e Crítica: O modelo mostra que, se o custo de extração for baixo e a taxa de desconto (preferência pelo presente) for alta, a trajetória economicamente "ótima" pode levar à extinção da espécie, pois é mais lucrativo colher todo o recurso agora e investir o capital em outro lugar. Este resultado chocante expõe o dilema ético e a limitação fatal de uma análise puramente financeira para recursos de biodiversidade.

  • Abordagens Modernas:

    • O desafio atual vai além da exploração direta, focando na manutenção do estoque de biodiversidade como um ativo que gera serviços. A trajetória de uso do solo (desmatamento vs. conservação) é modelada comparando o valor presente da conversão (para agricultura) com o valor presente dos serviços ecossistêmicos perdidos. A enorme dificuldade é a valoração econômica robusta desses serviços e a incorporação de incertezas irreversíveis (perda de espécies únicas).


Conclusão: A Síntese do Desafio

O principal desafio comum a todas essas teorias é resolver um problema de otimização intertemporal sob restrições biofísicas. A fórmula geral é: Maximizar o valor presente líquido dos benefícios da extração, sujeito à equação de movimento da população (biologia).

As diferenças entre os modelos surgem da especificação:

  1. Da dinâmica biológica: Logística (Gordon-Schafer), por coorte (Beverton-Holt), em pulsos (Faustman), ou com risco de colapso (Clark).

  2. Da função objetivo: Lucro privado (Gordon, Faustman), bem-estar social (que pode incluir valores não mercantis da biodiversidade).

  3. Do regime de propriedade: Livre acesso (tragédia dos comuns) vs. propriedade bem definida.

Portanto, identificar a trajetória de exploração não é um exercício puramente matemático. É um ato de governança que exige escolher quais valores (presentes vs. futuros, mercantis vs. ecológicos) serão privilegiados. As teorias fornecem mapas lógicos poderosos, mas seu sucesso na prevenção da sobre-exploração depende, em última instância, da capacidade institucional e política de implementar as trajetórias ótimas que elas indicam, especialmente quando essas prescrevem a contenção do ganho imediato em favor da sustentabilidade de longo prazo.


O Impacto das Mudanças Climáticas na Teoria Econômica dos Recursos Renováveis

As mudanças climáticas representam uma profunda transformação no paradigma teórico da economia dos recursos renováveis, introduzindo incertezas sistêmicas e não-linearidades que desafiam os modelos tradicionais. Elas não são apenas mais um parâmetro a ser ajustado, mas redefinem a própria estrutura dos problemas de otimização intertemporal.


Impactos Transversais aos Modelos Teóricos

1. Desestabilização dos Parâmetros Fundamentais

Os modelos clássicos assumem parâmetros biológicos estacionários ou com flutuações estocásticas conhecidas. As mudanças climáticas tornam esses parâmetros não-estacionários e potencialmente não-lineares:

  • Taxa de crescimento intrínseca (r): Temperaturas, acidificação oceânica e alterações no pH afetam metabolismos, taxas reprodutivas e sobrevivência larval.

  • Capacidade de suporte (K): Modificações nos habitats (ex.: branqueamento de corais, desertificação, derretimento de gelo marinho) reduzem drasticamente a capacidade de suporte dos ecossistemas.

  • Estrutura etária e de tamanho: Eventos extremos (ondas de calor, furacões) causam mortalidade massiva seletiva.

Implicação Teórica: As funções de crescimento (ex.: logística de Schaefer) perdem sua validade preditiva. O "ponto ótimo" (RMS, RME) torna-se um alvo móvel que pode deslocar-se rapidamente ou desaparecer.

2. Introdução de Incerteza Irredutível e Riscos de Colapso

Os modelos como o de Faustman ou Gordon-Schafer trabalham com probabilidades conhecidas. As mudanças climáticas introduzem:

  • Incerteza Knightiana: Incapacidade de atribuir probabilidades objetivas a eventos extremos (ex.: ponto de virada - tipping points).

  • Risco de Colapso Irreversível: A probabilidade de um recurso entrar em colapso populacional sem possibilidade de recuperação (ex.: morte de florestas tropicais por estresse hídrico combinado com incêndios) aumenta substancialmente.

Implicação Teórica: A taxa de desconto social deve ser reavaliada. Tradicionalmente alta para recursos privados, ela pode precisar ser drasticamente reduzida para incorporar o risco de perda irreversível para as gerações futuras (conceito de "quase-aversão à catástrofe"). O modelo de Clark para espécies em risco torna-se aplicável a uma gama muito maior de recursos.

3. Alteração das Relações Espaciais e Conectividade

Muitos modelos assumem populações fechadas ou com dinâmicas migratórias estáveis. As mudanças climáticas causam:

  • Deslocamento de áreas de distribuição (migração para maiores latitudes ou altitudes).

  • Dissincronia trófica (ex.: florescimento de fitoplâncton e nascimento de larvas de peixe deixam de coincidir).

  • Fragmentação de habitats que impede a migração adaptativa.

Implicação Teórica: Os modelos devem incorporar explicitamente a dimensão espacial e a conectividade meta-populacional. A gestão ótima deixa de ser sobre um stock único e passa a ser sobre uma rede de stocks interconectados sob stress diferencial.


Impactos Específicos por Tipo de Recurso

A. Recursos Pesqueiros (Gordon-Schafer, Beverton-Holt)

  • Redefinição do RMS e RME: Os níveis de referência históricos tornam-se obsoletos. Um "nível de exploração sustentável" calculado para condições climáticas passadas pode ser, na verdade, uma sobre-exploração sob novas condições.

  • Mudança na Produtividade dos Ecossistemas: A acidificação dos oceanos afeta espécies com conchas/carapaças (ex.: ostras, krill), alterando cadeias alimentares inteiras. O modelo Beverton-Holt, dependente de parâmetros específicos por espécie, perde utilidade se a fisiologia da espécie muda.

  • Novo Risco de Colapso: O aumento da temperatura da água pode levar a eventos de hipóxia (zonas mortas), causando colapsos populacionais abruptos não previstos nos modelos baseados em pressão de pesca isolada.

  • Adaptação da Teoria: Surge a necessidade de Regras de Controle Adaptativas (Harvest Control Rules) que reajam a indicadores climáticos (ex.: índice de ENSO - El Niño) em tempo quase real, em vez de seguir uma trajetória fixa pré-determinada.

B. Recursos Florestais (Fisher, Faustman)

  • Revolução no Período de Rotações de Faustman:

    1. Aumento do Risco: Incêndios florestais mais frequentes e intensos, surtos de pragas (ex.: besouro-do-pinheiro) e secas prolongadas atuam como um "imposto sobre o estoque". O proprietário racional, antecipando a maior probabilidade de perder a floresta antes do corte planejado, tem incentivo para encurtar o período de rotação (cortar mais cedo), levando à desflorestação preventiva.

    2. Novos Fluxos de Valor: O valor do carbono florestal estocado se torna um componente major da função objetivo. Uma floresta mantida em pé gera renda via créditos de carbono, alongando o período de rotação ótimo. O modelo Faustman precisa incorporar o preço do carbono como um fluxo contínuo, não apenas o valor da madeira no momento do corte.

    3. Mudança nas Taxas de Crescimento: Estresse hídrico e térmico podem reduzir as taxas de crescimento, alterando o ponto de igualdade entre crescimento percentual e taxa de juros no modelo de Fisher.

C. Recursos da Biodiversidade (Gordon-Schafer-Clark e Modelos de Serviços Ecossistêmicos)

  • Aceleração do Risco de Extinção Econômica: A lógica clarkiana de que espécies de baixo crescimento podem ser levadas à extinção se torna muito mais provável. O stress climático reduz ainda mais a taxa de crescimento (r), tornando a população biologicamente mais vulnerável à mesma pressão de exploração.

  • Valor de Opção e de Existência em Alta: A incerteza sobre quais espécies/ecossistemas serão críticos para a adaptação humana (ex.: fontes de medicamentos, polinizadores resilientes) aumenta drasticamente seu valor de opção. A teoria precisa formalizar a ideia de que conservar biodiversidade é manter um portfólio de opções contra futuros incertos.

  • Colapso de Serviços Ecossistêmicos Não-Mercantis: Modelos que tentam valorar serviços como polinização, controle de enchentes ou regulação climática local enfrentam o desafio de modelar seu colapso não-linear. A perda não é marginal, mas pode ser abrupta após um limiar climático ser ultrapassado.


A Necessidade de uma Nova Teoria Sintética

As mudanças climáticas exigem uma evolução dos modelos tradicionais para uma Economia dos Recursos Renováveis sob Mudança Ambiental Global. Seus pilares seriam:

  1. Modelos Híbridos e Resilientes: Combinar modelos bioeconômicos com Modelos do Sistema Terrestre para projetar mudanças nos parâmetros biológicos.

  2. Gestão Adaptativa como Norma: Substituir a busca por um "ótimo estático" por estratégias de gestão adaptativa, que aprendem com o monitoramento contínuo e ajustam as regras de extração.

  3. Incerteza Endógena: Incorporar explicitamente a incerteza climática nas funções objetivo, usando ferramentas como análise de robustez (buscar estratégias que funcionem bem em múltiplos cenários) em vez de otimização esperada.

  4. Taxas de Desconto Condicionais ao Clima: Desenvolver taxas de desconto que variam conforme o estado do sistema climático e o nível de risco de colapso do recurso.

  5. Foco na Resiliência do Ecossistema: A métrica de sucesso deixa de ser apenas o rendimento máximo sustentável de uma espécie-alvo e passa a ser a capacidade do ecossistema de manter funções e serviços sob perturbação climática.

Conclusão

As mudanças climáticas não apenas adicionam complexidade aos modelos existentes; elas questionam seus pressupostos fundamentais de estabilidade e previsibilidade. A teoria econômica dos recursos renováveis, para permanecer relevante, deve abandonar a visão de um sistema natural em equilíbrio a ser explorado otimamente, e abraçar a visão de um socioecossistema dinâmico e perturbado, onde a gestão é um processo contínuo de gestão de riscos, adaptação e construção de resiliência. O maior desafio deixa de ser identificar *a* trajetória ótima, e passa a ser navegar um mar de trajetórias possíveis em um ambiente em constante mudança.