O Futuro em Risco: Juventude, Vulnerabilidade e a Urgência de Políticas Baseadas em Empatia e Evidência
As estatísticas sobre mortes violentas, doenças evitáveis, evasão escolar e perpetuação da pobreza entre três grupos específicos – jovens mães, jovens encarcerados e usuários de drogas – não são apenas números frios. São biografias interrompidas, trajetórias desviadas de um potencial humano que poderia florescer. Elas revelam uma verdade brutal: nossas políticas públicas, muitas vezes, falham em criar redes de proteção e, pior, podem agravar ciclos de exclusão. Por trás dos dados, há um processo social insidioso, apontado por pensadores como o filósofo coreano-alemão Byung-Chul Han: a perda da sensibilidade para a dor do outro. A sociedade do desempenho e da hipervisibilidade, paradoxalmente, anestesia nossa capacidade de compaixão por vidas consideradas "fracassadas" ou "desviantes". Na literatura, a obra "O Cortiço", de Aluísio Azevedo, já nos mostrava no século XIX como a miséria e a falta de perspectivas deformam caracteres e destinos, um retrato cruel que ainda ecoa.
Os números são claros. Jovens no sistema prisional estão expostos a níveis elevadíssimos de violência e doenças infecciosas, com taxas de reincidência que ultrapassam 70% no Brasil, indicando o fracasso do encarceramento massivo como ferramenta de ressocialização. Jovens mães, especialmente as mais pobres, veem suas chances educacionais e profissionais despencarem, perpetuando a pobreza intergeracional. Usuários de drogas, criminalizados e estigmatizados, têm acesso negado a saúde e são lançados a uma espiral de vulnerabilidade, com altas taxas de mortalidade por overdose, violência e doenças como HIV e hepatites.
A mudança desse cenário exige uma revolução na sensibilidade coletiva, traduzida em mudanças estruturais na educação e no exemplo das elites e políticos. É preciso:
Educação para a Empatia e Cidadania Crítica: A educação formal deve ir além do treinamento para o mercado. Precisa incluir, desde cedo, educação emocional, justiça restaurativa, estudo da desigualdade social e contato orientado com realidades diversas (como propõem autores como Bell Hooks em "Ensinando a Transgredir"). Isso combate a anestesia moral e forma cidadãos que veem a vulnerabilidade não como um mérito, mas como um desafio coletivo.
Elites e Políticos como Modelos de Priorização: Quando elites econômicas e políticas vivem em bolhas de privilégio e defendem agendas de encarceramento em massa, austeridade em gastos sociais e medicalização punitiva das drogas, enviam uma mensagem clara: algumas vidas são descartáveis. O exemplo deve vir de cima: políticos visitando e priorizando em seus orçamentos habitação social digna, saúde mental pública, educação integral e programas de justiça juvenil restaurativa.
Felizmente, não partimos do zero. Podemos nos inspirar em políticas públicas de sucesso de outros países:
Para Jovens Mães: Os Lares de Apoio na França. A rede de "Maisons des Adolescents" e outras instituições oferecem acolhimento integral – moradia, apoio psicológico, creche, orientação profissional e educacional – para jovens grávidas ou mães em situação de vulnerabilidade. Isso não é assistencialismo, mas um investimento para quebrar o ciclo da pobreza e garantir o desenvolvimento saudável de duas gerações.
Para Habitação e Reinserção: A Holanda e o Modelo "Housing First". Aplicado também a ex-detentos e usuários de drogas em recuperação, o princípio é simples: a estabilidade de um lar é o primeiro passo para qualquer outra mudança. Oferecer moradia digna e permanente, com suporte psicossocial, demonstra resultados superiores em redução de reincidência e de uso problemático de drogas do que abordagens punitivas ou condicionais.
Para Educação e Prevenção: O Sistema Finlandês. Focado na equidade, na formação de professores de alto nível e no apoio individualizado, o modelo finlandês reduz drasticamente as chances de um jovem ser "deixado para trás". Escolas compreensivas, com refeições, saúde mental e orientação garantidas, são antídotos potentes contra a evasão que leva à marginalização.
Para Trabalho e Qualificação: O Sistema Dual Alemão. Para jovens egressos do sistema socioeducativo ou em situação de risco, programas inspirados no modelo dual – que combina aprendizagem teórica em escolas profissionalizantes com prática remunerada em empresas – são uma ponte crucial para a autonomia econômica e o sentimento de pertencimento social.
Concluindo, o futuro desses jovens não é uma sentença determinada pelas estatísticas atuais. Ele será definido por nossas escolhas políticas coletivas, que refletem nosso grau de sensibilidade humana. Parafraseando Dostoiévski, o grau de civilização de uma sociedade pode ser julgado visitando suas prisões e seus bairros mais pobres. Deixar de tratar jovens mães, encarcerados e usuários de drogas como "casos perdidos" e passar a vê-los como cidadãos em situação de extrema vulnerabilidade, dignos de investimento e de uma segunda chance, é o imperativo ético e social do nosso tempo. As ferramentas existem, os exemplos internacionais brilham como faróis. O que falta é a vontade política, alimentada por uma empatia reeducada, que entenda que salvar essas vidas é, em última instância, salvar o tecido social de todos nós.
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