SABERES TRANSDISCIPLINARES E ORGÂNICOS.

terça-feira, 13 de janeiro de 2026

A Contenda das Escolas: Desenvolvimentismo, Globalização e os Limites do Crescimento - Uma Análise Histórica e Contemporânea

 


Introdução: O Grande Divórcio da Economia

A economia política moderna tem sido palco de uma contenda fundamental entre duas visões de mundo que moldam o destino das nações: de um lado, os economistas desenvolvimentistas, que concebem o desenvolvimento como um processo histórico de transformação estrutural liderado pelo Estado; de outro, os economistas da macroeconomia globalizada, que priorizam a estabilidade de preços, a integração financeira internacional e a alocação eficiente via mercados. Esta disputa não é meramente técnica, mas reflete diferentes concepções sobre o papel do Estado, a soberania nacional e os objetivos últimos da atividade econômica.

Raízes Históricas: A Formação do Paradigma Desenvolvimentista

O desenvolvimentismo emergiu como resposta ao desafio da periferia capitalista, particularmente na América Latina pós-Segunda Guerra Mundial. A Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (CEPAL), sob a liderança intelectual de Raúl Prebisch, formulou a teoria estruturalista que identificava na deterioração dos termos de troca entre centro e periferia a origem do subdesenvolvimento. Celso Furtado, seu mais brilhante discípulo brasileiro, aprofundou esta análise em obras como "Formação Econômica do Brasil" (1959), argumentando que o desenvolvimento exigia uma transformação produtiva que superasse a especialização em produtos primários.

O desenvolvimentismo brasileiro alcançou seu ápice nos anos 1950-1970, materializando-se no Plano de Metas de JK (1956-1960) e no II Plano Nacional de Desenvolvimento (PND) do regime militar (1975-1979). Seus pilares incluíam:

  1. Industrialização por substituição de importações

  2. Planejamento estatal indicativo

  3. Empresas estatais em setores estratégicos (Petrobras, Eletrobras, Vale)

  4. Proteção tarifária e controle de capitais

Como observou Maria da Conceição Tavares, este modelo criou um "núcleo endógeno de decisão" que permitiu ao Brasil realizar, em décadas, transformações que levaram séculos nos países centrais.

A Contrarrevolução Globalizante: O Consenso de Washington

A crise da dívida dos anos 1980 e o colapso do socialismo real criaram condições para o avanço da contra-narrativa. O Consenso de Washington (John Williamson, 1989) sintetizou o receituário que se tornaria hegemônico: disciplina fiscal, liberalização financeira e comercial, privatizações e desregulamentação. A macroeconomia, influenciada pelas expectativas racionais (Robert Lucas) e pela teoria dos ciclos reais, passou a focalizar-se quase exclusivamente no controle da inflação e na credibilidade dos policy makers.

No Brasil, este paradigma triunfou com o Plano Real (1994), que priorizou a estabilização monetária através de âncora cambial e altas taxas de juros, e com as reformas liberalizantes de Fernando Henrique Cardoso. A abertura comercial unilateral (1990-1994) expôs a indústria nacional à competição internacional, enquanto a Lei de Responsabilidade Fiscal (2000) institucionalizou a ortodoxia fiscal.

Diferenças Fundamentais: Abordagens em Conflito

DimensãoDesenvolvimentismoMacroeconomia Globalizada
Objetivo PrimárioTransformação estrutural e soberania nacionalEstabilidade de preços e integração internacional
Papel do EstadoPlanejador e investidor diretoRegulador e garantidor de "boas instituições"
Política IndustrialAtiva e seletivaHorizontal e neutra
Regime CambialAdministrado para competitividadeFlexível ou fixo como âncora nominal
Conta de CapitaisControles seletivosLiberalização plena
Referência TemporalLongo prazo (ciclos de Kuznets)Curto/médio prazo (ciclos de negócios)

Impactos na Vida Cotidiana: Para Além do Capital

O desenvolvimentismo sempre manteve uma tensão entre crescimento e distribuição. Furtado, em sua fase mais crítica, alertava sobre o "subdesenvolvimento desenvolvido" - crescimento sem inclusão social. Programas como o Bolsa Família (2003) e a valorização real do salário mínimo nos governos Lula representaram tentativas de conciliar crescimento com redução da desigualdade, dentro de um marco que Luiz Carlos Bresser-Pereira chamou de "novo desenvolvimentismo social".

Já o paradigma globalizado tende a dissociar bem-estar social de políticas macroeconômicas, delegando a proteção social a programas focalizados de transferência de renda, enquanto a política econômica se concentra em criar "condições de mercado" favoráveis. A financeirização da vida cotidiana - crédito ao consumo substituindo aumento real de renda - é um fenômeno intimamente ligado a esta visão.

A Economia Ecológica: O Desafio Radical às Duas Visões

Aqui surge uma terceira perspectiva que questiona os fundamentos de ambos os paradigmas: a Economia Ecológica, cujos precursores incluem Nicholas Georgescu-Roegen ("A Lei da Entropia e o Processo Econômico", 1971) e Herman Daly. Seus postulados desafiam tanto desenvolvimentistas quanto globalistas:

  1. Limites Biofísicos Absolutos: A economia é um subsistema da biosfera, não algo independente. O crescimento contínuo (PIB) é impossível num planeta finito - a tese do decrescimento (Serge Latouche) e do estado estacionário (Daly).

  2. Incomensurabilidade de Valores: Serviços ecossistêmicos e biodiversidade não podem ser adequadamente precificados. Como argumenta Joan Martínez-Alier, existe uma incomensurabilidade de valores entre lógicas econômicas, ecológicas e culturais.

  3. Justiça Intergeracional: Ambos os paradigmas ignoram o custo imposto às futuras gerações pelo esgotamento de recursos não-renováveis. O economista brasileiro José Eli da Veiga tem destacado como o "capital natural" precisa ser incorporado às contas nacionais.

  4. Crítica ao Produtivismo: Desenvolvimentistas e globalistas compartilham a fé no crescimento como solução. A Economia Ecológica questiona esta métrica, propondo indicadores alternativos como o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) ou o Felicidade Interna Bruta (FIB) do Butão.

Momentos de Conflito no Brasil e no Mundo

No Brasil:

  • 1950-1964: O projeto nacional-desenvolvimentista enfrenta a oposição liberal, culminando no golpe de 1964.

  • Década de 1990: As privatizações e a abertura comercial geram o "manifesto dos economistas" em defesa da indústria nacional.

  • Governos do PT (2003-2016): Tentativa de conciliar ortodoxia macroeconômica com políticas sociais ativas, gerando a crítica dos dois lados.

No Mundo:

  • Crise Asiática (1997): Expôs os riscos da liberalização financeira prematura, reacendendo debates sobre controles de capital.

  • Crise de 2008: Questionou a eficácia dos modelos macroeconômicos dominantes e reviveu keynesianismos.

  • Acordo de Paris (2015): Colocou a questão ecológica no centro, desafiando modelos de crescimento tradicionais.

Conclusão: A Síntese Necessária?

O século XXI exige uma síntese que nem o desenvolvimentismo tradicional nem a macroeconomia globalizada oferecem. Como observa a economista indiana Jayati Ghosh, precisamos de um "desenvolvimentismo ecológico" que reconheça:

  1. A necessidade de transformação estrutural verde, com investimento massivo em energias renováveis e economia circular.

  2. A urgência de justiça socioambiental, reconhecendo que os mais pobres são os mais vulneráveis às mudanças climáticas.

  3. A importância de controles democráticos sobre os fluxos financeiros, como propõem economistas pós-keynesianos como Thomas Piketty e sua proposta de imposto global sobre o capital.

A contribuição brasileira pode ser decisiva, resgatando a tradição estruturalista da CEPAL para pensar não apenas centro-periferia, mas também a relação humanidade-natureza. Como alertou Celso Furtado já em seus últimos escritos, o verdadeiro desenvolvimento não é o que maximiza produção, mas o que "cria as condições para a realização do potencial humano". Nesta definição, talvez encontremos o ponto de partida para uma economia que sirva à vida, e não apenas ao capital.

Nenhum comentário:

Postar um comentário