O livro "Las trampas de la investigación" (As Armadilhas da Pesquisa), de Pierre Bourdieu, aborda um dos conceitos mais fundamentais e inovadores de sua obra: a reflexividade. Longe de ser um manual de metodologia tradicional, a obra é um convite para que pesquisadores das ciências sociais desenvolvam uma postura de constante vigilância sobre os próprios instrumentos de conhecimento e sobre si mesmos como produtores de ciência.
O que é a Reflexividade para Bourdieu?
A gênese da reflexividade em Bourdieu está diretamente ligada às suas experiências de pesquisa na Argélia durante a guerra de independência e em sua região natal, o Béarn, na França. Confrontado com a inadequação dos métodos filosóficos e das ferramentas estatísticas e etnográficas que aprendera, ele percebeu a necessidade de uma ferramenta que permitisse ao observador "revelar o social no coração do indivíduo, o impessoal oculto sob o íntimo" .
Inicialmente chamada de "vigilância epistemológica", a reflexividade, a partir dos anos 1980, torna-se o nome dessa atitude científica. Para Bourdieu, ela não é um exercício de introspecção narcísica, mas sim "uma forma de aplicar as ferramentas da sociologia a si mesmo" . O objetivo é tornar explícitos e controlar os efeitos dos pressupostos, pontos de vista e disposições que o pesquisador carrega . Trata-se de "objetivar o sujeito da objetivação" , ou seja, submeter à análise científica a própria posição do pesquisador no campo acadêmico e no mundo social, pois são essas condições sociais que moldam o seu olhar.
A obra aprofunda os diferentes aspectos da prática reflexiva, insistindo na sua necessidade constante. O livro compila textos que vão desde os anos 1960 até o final de sua vida, mostrando a evolução e a persistência dessa preocupação central. Conforme a descrição do livro, o volume oferece ao leitor a possibilidade de aprender a que talvez seja a principal contribuição teórico-prática de Pierre Bourdieu para o exercício das ciências humanas.
Os Ensinamentos Sobre Suas Próprias Obras e Conceitos
Mais do que um conceito abstrato, a reflexividade é a chave para compreender a totalidade do projeto intelectual de Bourdieu. Eis o que Las trampas de la investigación nos ensina sobre sua própria obra:
1. A Superação da "Ilusão Biográfica"
Bourdieu sempre foi crítico do gênero autobiográfico tradicional, que pressupõe uma vida como uma história coerente e linear . Em vez de autobiografia, ele propõe o que chama de "confissões impessoais" ou "auto- análise" . Em seu último curso no Collège de France, que deu origem ao livro Science de la science et réflexivité , e no texto póstumo Esquisse pour une auto-analyse , ele aplica a si mesmo o mesmo trabalho de objetivação que dedicou a outros criadores. O objetivo não é contar a sua vida, mas usar o capital científico acumulado para verificar em seu próprio caso a validade de seus métodos e teorias . Como ele mesmo afirma, nada o deixaria mais feliz do que permitir que seus leitores "reconheçam suas próprias experiências, dificuldades, questões, tristezas, etc., nas minhas, para que possam derivar dessa identificação realista [...] alguns meios de agir e viver um pouco melhor em como vivem e se comportam" .
2. A Objetivação dos Conceitos Centrais: Habitus e Campo
Ao se auto-analisar, Bourdieu demonstra na prática como seus conceitos-chave operam. Ele mostra, por exemplo, como o seu próprio habitus (o sistema de disposições duráveis e transponíveis) foi forjado na disjunção entre a cultura rural do Béarn e a cultura escolar parisiense da École Normale Supérieure . A reflexividade permite entender que seu percurso intelectual é fruto de uma tensão entre afetividade e intelectualidade, entre suas origens provincianas e sua posição no campo intelectual francês . Assim, ele nos ensina que suas teorias não são construções abstratas, mas sim ferramentas forjadas na e para a análise de realidades sociais concretas, inclusive a sua própria.
3. Os Três Tipos de Limitações a Serem Interrogadas
A obra deixa claro que a reflexividade, para Bourdieu, é uma interrogação sobre três tipos de limitações que constituem o próprio conhecimento :
A posição social do pesquisador no espaço social mais amplo.
A posição do pesquisador no campo acadêmico (suas hierarquias, disputas e interesses).
O "ponto de vista escolástico" , ou seja, a tendência a ver o mundo como um espetáculo a ser interpretado, esquecendo que o pesquisador está isento das urgências e necessidades práticas da vida comum.
Ao identificar essas armadilhas, Bourdieu nos ensina que a ciência social só pode aspirar à objetividade se incorporar permanentemente a análise dessas condições sociais de produção do conhecimento.
Em suma, Las trampas de la investigación funciona como uma espécie de "manual" da postura reflexiva que atravessa toda a obra de Bourdieu. Ele nos ensina que seus conceitos (como habitus, campo, capital simbólico) não devem ser aplicados mecanicamente, mas sim utilizados como instrumentos para uma constante vigilância sobre o ato de pesquisar, começando pelo próprio pesquisador. É uma demonstração prática de que "o inconsciente é a história" e que conhecer o mundo social exige, antes de tudo, conhecer as estruturas históricas e sociais que nos constituem como sujeitos cognoscentes.
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