Um romance inspirado em "Protetores – Quando Amar é Proibido" e "Sociedade da Paixão"
PRIMEIRO MOVIMENTO: O REENCONTRO
Capítulo 1 - O Acaso no Shopping
O Shopping Ibirapuera fervia naquela tarde de sábado. Famílias com crianças, casais de mãos dadas, adolescentes rindo nos corredores. Egidio caminhava sem pressa, ainda absorto nas anotações do novo projeto social que apresentaria na Câmara Municipal na segunda-feira. Aos cinquenta anos, mantinha a mesma inquietação dos vinte: os cabelos já grisalhos nas laterais, os olhos castanhos atentos ao mundo, o caderno Moleskine sempre à mão.
Foi quando ouviu uma voz atrás de si:
— Egidio? Egidio Guerra?
Ele virou-se. A mulher à sua frente usava um vestido azul marinho simples, cabelos negros longos presos de lado, os olhos castanhos ligeiramente puxados. Havia nela algo familiar, uma lembrança antiga como cheiro de chuva.
— Marina? — ele perguntou, incrédulo. — Marina Alcântara?
Ela sorriu, e aquele sorriso era exatamente o mesmo do terceiro ano do ensino médio, quando se sentavam juntos na aula de história e discutiam sobre poesia enquanto o professor falava da Revolução Francesa.
— Trinta anos — ela disse, a voz embargada. — Trinta anos, Egidio.
Ficaram ali, parados em meio ao fluxo de pessoas, como duas ilhas no meio de um rio.
— Você não mudou — ele mentiu, porque ela estava ainda mais bonita do que na memória que guardava.
— Você também não — ela retribuiu a mentira, porque ele tinha o mesmo olhar sonhador, mas agora carregava marcas que o tempo havia esculpido.
Sentaram-se num café próximo. Pediram um expresso duplo para ele, um chá de camomila para ela. As primeiras palavras vieram aos tropeços, como quem aprende a andar depois de uma longa doença.
— Morei fora — explicou Marina, mexendo o chá sem beber. — Portugal, depois Espanha. Casei, descasei. Voltei há um ano.
— E agora?
— Agora estou aqui. Tentando entender o que fazer com a vida.
Egidio contou dos livros que escrevera. "Protetores – Quando Amar é Proibido" tinha virado referência em grupos de estudo sobre educação. "Sociedade da Paixão" estava sendo usado em debates sobre feminismo e novas masculinidades.
— Você sempre acreditou que podia mudar o mundo — Marina lembrou. — No colégio, quando todos só queriam saber de festa, você estava organizando grupo de leitura.
— E você estava lá comigo.
Ela desviou o olhar.
— Eu estava.
O silêncio entre eles não era vazio. Era denso, cheio de todas as palavras que ficaram presas por três décadas.
— Por que nunca me procurou? — ele perguntou, finalmente.
Marina levou a xícara aos lábios, bebeu devagar.
— Porque eu tinha medo.
— Medo de quê?
— De você me conhecer de verdade.
SEGUNDO MOVIMENTO: O DESPERTAR
Capítulo 2 - Primeiro Encontro: Fábio Junior e a Música que Atravessa o Peito
Ele foi sozinho ao show do Fábio Junior no Tom Brasil. Não sabia explicar por que escolhera aquele evento — talvez porque as músicas do Fábio fossem as mesmas que a mãe cantava enquanto cozinhava, talvez porque precisasse de algo que o tirasse da seriedade dos relatórios e projetos.
Quando chegou, ela já estava lá. Marina esperava perto da entrada, usando uma blusa branca e calça jeans simples. Parecia nervosa, os dedos entrelaçados.
— Você veio — ela disse, como se não acreditasse.
— Você me convidou.
Dentro da casa de shows, o público era majoritariamente feminino e acima dos quarenta. Casais se abraçavam, amigas cantavam juntas. Quando Fábio Junior subiu ao palco e começou a cantar "Caça e Caçador", Egidio sentiu Marina aproximar-se.
— Posso? — ela perguntou, apontando para o ombro dele.
Ele apenas abriu o braço, e ela aninhou-se ali.
No meio de "Alma Gêmea", Marina começou a chorar baixinho. Egidio fingiu que não percebia, mas apertou levemente seu ombro. Quando a música acabou, ela enxugou os olhos disfarçadamente.
— Desculpa — murmurou.
— Não precisa se desculpar por sentir.
Ela olhou para ele, os olhos ainda úmidos.
— É que eu nunca pensei que pudesse... que alguém pudesse...
— Que alguém pudesse o quê?
— Me aceitar. Inteira.
Capítulo 3 - A Primeira Viagem à Serra
O final de semana na Serra da Mantiqueira foi ideia dele. Uma pousada simples num vilarejo chamado Santo Antônio do Pinhal, com lareira nos quartos e café da manhã caseiro.
Chegaram numa sexta à noite. A estrada era estreita, cheia de curvas, e Marina dirigia em silêncio, concentrada. Egidio observava as montanhas recortadas contra o céu estrelado.
— É lindo — ela disse, estacionando em frente à pousada.
— É.
Mas ele não olhava para as montanhas.
No sábado, caminharam por trilhas, pararam numa cachoeira pequena e escondida. Ela entrou na água fria primeiro, rindo como adolescente. Ele a seguiu, e ficaram ali, boiando em silêncio, olhando as copas das árvores recortarem o céu.
À noite, na lareira do quarto, o clima mudou. Egidio sentou-se na poltrona, lendo um livro de Eduardo Galeano. Marina deitou no tapete, a cabeça próxima aos pés dele.
— Egidio?
— Hum?
— Eu preciso te contar uma coisa.
Ele fechou o livro, colocou-o de lado.
— Pode contar.
Ela sentou-se, puxou os joelhos contra o peito. O fogo da lareira dançava em seu rosto.
— Eu tenho... uma condição. Um transtorno.
Ele não disse nada. Apenas esperou.
— Eu não consigo... controlar alguns impulsos. Já fiz coisas que me envergonham profundamente. Já magoei pessoas que amava. Já tentei parar, já fiz terapia, já tomei remédios. Às vezes funciona, às vezes não. — A voz dela falhou. — E eu preciso que você saiba. Antes que a gente... antes que isso aqui...
Ela apontou para o espaço entre eles.
Egidio levantou-se, ajoelhou-se ao lado dela.
— Marina, olha pra mim.
Ela ergueu os olhos.
— Eu escrevi um livro inteiro sobre como as pessoas são mais do que os rótulos que a sociedade coloca nelas. Sobre como somos todos Franksteins sociais, costurados com pedaços que não escolhemos. Você não é o seu transtorno. Você é a mulher que eu estou aprendendo a conhecer. A mesma que discutia poesia comigo no colégio. A que chora com Fábio Junior. A que mergulhou na cachoeira gelada como se não houvesse amanhã.
— Mas eu posso te machucar — ela sussurrou.
— E eu posso te machucar também. Todos podemos. Amor não é sobre não machucar. É sobre estar presente quando a dor vier.
Ela beijou-o então. Um beijo molhado de lágrimas, salgado de medo e esperança.
Mais tarde, deitados na cama, ela afastou-se quando as mãos dele começaram a percorrer seu corpo.
— Não — ela pediu. — Não hoje.
— Tudo bem.
— Não é por que eu não quero. É porque... com você é diferente. E eu tenho medo de estragar.
Ele apertou sua mão.
— A gente vai no nosso tempo.
TERCEIRO MOVIMENTO: A VIDA COMPARTILHADA
Capítulo 4 - Praias, Oração e Silêncios
Ela o levou a Guarujá, mas não às praias badaladas. Foram a uma pequena enseada perto do Pernambuco, onde as pedras formavam uma piscina natural.
— Minha avó me trazia aqui — explicou Marina. — Ela dizia que esse era um lugar sagrado. Que a gente podia orar aqui.
— Você ora?
— Às vezes. Não sei bem pra quem. Mas sinto que tem algo maior.
Egidio sentou-se numa pedra, observou o mar. Ela entrou na água até a cintura, fechou os olhos, moveu os lábios em silêncio.
Quando voltou, estava diferente. Mais calma. Como se tivesse deixado algo na água.
— O que você pediu? — ele perguntou.
— Não se pede. Se agradece.
— E agradeceu pelo quê?
Ela sentou-se ao lado dele, a cabeça em seu ombro.
— Por você ter me encontrado de novo.
Capítulo 5 - Cinema, França e Itália em São Paulo
Descobriram que ambos amavam cinema europeu. Nos sábados à noite, iam à Cinemateca Brasileira assistir a filmes antigos. Fellini, Truffaut, Antonioni.
Ela adorava "Oito e Meio". Ele preferia "A Doce Vida". Discutiam por horas depois das sessões, num barzinho perto da Vila Madalena.
— Mastroianni é o retrato do homem moderno — ele argumentava. — Perdido, buscando sentido.
— Mas a mulher do "Oito e Meio" é mais forte — ela rebatia. — Claudia Cardinale segura o filme inteiro.
— Você é a minha Claudia Cardinale.
Ela ria, envergonhada.
— Não, Egidio. Claudia Cardinale era luminosa. Eu sou cheia de sombras.
— A luz só existe por causa das sombras.
Capítulo 6 - Periferias e Universidades
Ele a levou para conhecer seus projetos. Primeiro, uma comunidade em Paraisópolis, onde adolescentes participavam de oficinas de cinema. Marina ficou encantada com uma menina de treze anos, negra, cabelos crespos, que escrevia poemas.
— Isso é lindo — Marina disse, lendo um dos textos. — Você é muito talentosa.
A menina sorriu, envergonhada.
— O tio Egidio que me ensinou.
Depois, foram à USP, onde ele dava palestras sobre educação. Marina sentou na última fileira, observando-o falar. Via como seus olhos brilhavam, como gesticulava, como os alunos prestavam atenção.
No carro, voltando para casa, ela comentou:
— Você é feliz fazendo isso, não é?
— Sou. É o que dá sentido.
— Eu nunca tive isso. Um propósito.
— Talvez você ainda encontre.
Ela ficou em silêncio.
Capítulo 7 - O Cirque du Soleil
Ela conseguiu ingressos para o Cirque du Soleil, numa turnê rara em São Paulo. Sentaram-se na primeira fila, e Marina assistiu ao espetáculo como uma criança, os olhos arregalados, as mãos apertando o braço dele nas cenas de maior tensão.
Na saída, ela disse:
— Eles voam, Egidio. Voam de verdade.
— É isso que a arte faz. Nos faz voar.
— Você acha que um dia eu vou conseguir voar?
Ele parou no meio da calçada, segurou o rosto dela com ambas as mãos.
— Você já voa, Marina. Só não percebe.
Capítulo 8 - Curitiba, Flores e Amizades Verdadeiras
Ela tinha uma amiga em Curitiba, a Dolores. Uma mulher morena, olhos amendoados, que morava num apartamento repleto de plantas no bairro Batel.
— Dolores é minha âncora — explicou Marina no avião. — Ela me conhece como ninguém.
Dolores os recebeu com um abraço apertado em Marina e um olhar avaliador em Egidio.
— Então você é o famoso escritor — disse, meio provocadora.
— E você é a famosa amiga.
Dolores sorriu, aprovando.
Durante o jantar, Marina foi ao banheiro, e Dolores aproveitou para falar sério:
— Ela já te contou?
— Contou.
— E você ainda está aqui?
— Estou.
— Sabe que ela já destruiu relacionamentos, não sabe? Que já magoou gente que amava?
— Sei.
— E não tem medo?
Egidio bebeu um gole de vinho.
— Tenho. Mas medo não é desculpa para não amar.
Dolores ficou em silêncio por um instante.
— Você é diferente dos outros.
— Ou talvez ela seja diferente comigo.
Quando Marina voltou, percebeu que haviam conversado. Olhou para Dolores, que fez um sinal positivo com a cabeça.
Naquela noite, no quarto, Marina deitou-se no peito de Egidio.
— Dolores gostou de você.
— Ela é sua protetora.
— É. Desde a faculdade. Quando eu surtava, era ela quem me trazia de volta.
— Você surta?
— Às vezes. Ainda. A compulsão... ela vem como uma onda. Me leva. Depois eu volto, vejo o estrago, e me odeio.
— E como é quando a onda vem?
— Eu sinto um vazio. Um buraco no peito. E aí qualquer coisa pode desencadear... um olhar, uma carência, uma noite sozinha. Eu procuro ficar com alguem como quem procura remédio. Mas não cura. Só anestesia. Depois passa, e a dor volta pior.
— E agora? Comigo?
— Com você é diferente. A onda ainda vem, mas... você é como um farol. Eu vejo você e consigo nadar de volta.
Capítulo 9 - Dança e Corpos que se Entendem
Ela o inscreveu num curso de dança de salão, contra a vontade dele.
— Eu não sei dançar! — protestou.
— Por isso mesmo. Vai aprender.
Foram a um salão no centro, com piso de madeira e luzes coloridas. O professor era um senhor de setenta anos, ágil e elegante.
— O segredo — explicou o velho — é a condução. O homem conduz, mas precisa sentir a mulher. É diálogo, não monólogo.
Egidio era desajeitado no início. Pisava nos pés dela, perdia o ritmo. Mas Marina ria, paciente.
— Relaxa — ela sussurrava. — Sente a música. Me sente.
Aos poucos, ele foi aprendendo. No meio da terceira aula, aconteceu. Eles dançaram um tango, e pela primeira vez os corpos se entenderam sem palavras.
Depois, no carro, ela disse:
— Foi assim que eu comecei.
— Como assim?
— Minha primeira atração. Foi dançando. Eu tinha treze anos, dançava com um primo mais velho. Senti algo que não entendia. Depois veio a vergonha. Depois a busca por repetir aquela sensação.
Egidio segurou sua mão.
— E hoje?
— Hoje foi diferente. Hoje foi só dança. Só nós dois.
Ela o arrastou para o carnaval de rua. Foram ao bloco "Acadêmicos do Baixo Augusta", e Marina se transformou. Colocou um macacão colorido, purpurina no rosto, dançou como se ninguém estivesse olhando.
Egidio a observava, fascinado. Via nela a menina que nunca pôde ser, a adolescente que aprendeu cedo demais sobre desejo, a mulher que tentava, a cada passo, recuperar algo perdido.
No meio da multidão, ela sumiu.
Ele procurou por dez minutos, o coração disparado. Quando a encontrou, ela estava encostada num poste, o olhar perdido.
— Marina?
Ela estremeceu.
— Eu tive um... um momento. Vi um cara, ele me olhou, e por um segundo... eu esqueci que você existia. Esqueci tudo. Só queria...
Ela começou a chorar.
— Me leva pra casa, por favor.
No caminho, ela não falou. Dentro do apartamento, trancou-se no banheiro. Ele ouviu o choro abafado, os soluços.
Quando ela saiu, os olhos inchados, ele estava na cozinha, preparando chá.
— Você devia ir embora — ela disse. — Devia me deixar.
— Por que eu faria isso?
— Porque eu sou uma bomba relógio. Porque uma hora eu vou explodir e vou te machucar de verdade.
— Então eu fico e ajudo a desarmar a bomba.
— Não é assim que funciona.
— Então me ensina como funciona.
Ela sentou-se à mesa, a cabeça entre as mãos.
— Funciona que eu tenho que querer mudar. E às vezes eu não tenho certeza se quero.
— Por quê?
— Porque... a busca... é a única hora que eu me sinto viva. Inteira. Depois vem o vazio, mas na hora, por alguns segundos, eu existo. Eu sou alguém.
Egidio sentou-se à frente dela.
— Você existe agora. Aqui. Comigo. Você não precisa daquilo para existir.
— E se não for suficiente?
— A gente descobre junto.
QUARTO MOVIMENTO: O MUNDO LÁ FORA
Capítulo 11 - Brasília, Corredores do Poder
Ele foi convidado para uma audiência pública na Câmara dos Deputados, sobre políticas de educação. Marina foi junto, meio deslocada nos corredores de Brasília.
Enquanto ele discursava para uma plateia de políticos e assessores, ela caminhou pelo Congresso. Viu as esculturas, os vitrais, os rostos apressados. Sentou-se num banco do lado de fora e observou as pessoas.
Um homem aproximou-se. Bem vestido, uns cinquenta anos, aliança no dedo.
— Bonito dia, não?
Ela sentiu o velho alarme disparar. O olhar do homem, o jeito como se inclinava.
— Está esperando alguém? — ele perguntou.
— Meu marido — ela respondeu, surpreendendo a si mesma. — Está numa reunião.
O homem deu meia-volta, educado.
Quando Egidio saiu, encontrou-a pensativa.
— Tudo bem?
— Tudo. — Ela hesitou. — Um cara abordou. Mas eu falei que estava com meu marido.
— E como se sentiu?
— Estranha. Diferente. Escolhi não. Pela primeira vez, eu escolhi não.
Ele sorriu, beijou sua testa.
— Isso é enorme, Marina. Você sabe, né?
— Sei. Mas também sei que amanhã pode ser diferente.
— A gente lida com amanhã quando amanhã chegar.
Capítulo 12 - As Viagens que Não Aconteceram
Paris, Washington, Madri. Eles planejaram, sonharam, mas nunca foram.
— Um dia a gente vai — ele prometia.
— Um dia — ela repetia, sabendo que talvez não fosse verdade.
No lugar das viagens reais, criaram viagens imaginárias. Noites em que ficavam na cama, ele descrevendo os cafés de Paris, ela falando dos museus de Madri.
— O Prado tem um quadro do Bosch que eu queria te mostrar — ela dizia. — "O Jardim das Delícias". É sobre desejo, pecado, prazer.
— E o que você vê nele?
— Vejo a confusão humana. A gente querendo ser feliz e se perdendo no caminho.
Ele a puxava para perto.
— A gente não está perdido.
— Não?
— Não. A gente está se encontrando.
QUINTO MOVIMENTO: AS ESCRITAS DELE
Capítulo 13 - "Quando Amar é Proibido"
Egidio estava lançando uma nova edição do livro, revista e ampliada. Na noite de autógrafos, numa livraria da Vila Madalena, Marina sentou-se na plateia enquanto ele falava.
— Escrevi este livro pensando nas amarras que nos impedem de amar — ele explicou. — Amarras sociais, econômicas, culturais. Mas também as amarras internas. Os medos que carregamos. Os traumas que nos habitam.
Alguém perguntou:
— E o amor é possível, apesar de tudo?
Egidio olhou para Marina, que desviou o olhar, envergonhada.
— O amor é possível. Mas não é fácil. Amor de verdade não é fácil. É luta diária. É escolha. É acordar todo dia e decidir continuar.
Depois, na fila de autógrafos, uma moça jovem aproximou-se de Marina.
— Você é a musa dele, né?
Marina sorriu, sem jeito.
— Eu não sei se sou musa de alguém.
— Sou fã do trabalho dele. E quando ele fala de amor, parece que tá falando de você.
Marina não respondeu. Mas guardou aquilo.
Capítulo 14 - "Sociedade da Paixão"
O segundo livro foi lançado num evento maior, no Sesc Pinheiros. Dessa vez, Egidio dedicou um capítulo inteiro a ela, disfarçado de personagem.
"Ela era feita de fogo e água. Incendiada por desejos que não pedia, e lavada por lágrimas que não continha. Quem a via de fora pensava: que mulher intensa. Quem a conhecia de dentro sabia: que mulher cansada de si mesma."
Marina leu o trecho na cama, enquanto ele dormia. Chorou em silêncio, as páginas manchadas de lágrimas.
No dia seguinte, confrontou-o:
— Você me expôs.
Ele sentou na cama, preocupado.
— Ficou ruim? Quis dizer que não, eu mudo na próxima edição...
— Não. — Ela segurou a mão dele. — Não é ruim. É que você me vê. De verdade. Ninguém nunca me viu assim.
— Como eu não veria? Eu te amo.
— Mas me amar assim... sabendo tudo... é loucura.
— É a única sanidade que conheço.
SEXTO MOVIMENTO: A QUEDA
Capítulo 15 - A Onda
Aconteceu numa noite comum. Ele estava no Rio, numa reunião sobre um projeto nacional de educação. Ela ficou em São Paulo, sozinha no apartamento.
A solidão apertou. O vazio veio. Ela tentou distrair-se com um filme, com música, com uma ligação para Dolores. Nada funcionava.
Baixou um aplicativo de relacionamentos. Só para ver, disse a si mesma. Só para sentir que existia.
Duas horas depois, estava num encontro na Zona Sul, com um desconhecido.
No dia seguinte, acordou com o gosto amargo na boca. Olhou para o homem ao lado, que nem nome sabia. Levantou-se, vestiu-se, foi embora sem dizer nada.
Egidio voltou dois dias depois. Encontrou-a encolhida no sofá, os olhos vazios.
— Marina? O que houve?
Ela não conseguiu olhar para ele.
— Eu falhei. De novo.
Ele sentou ao lado dela.
— Me conta.
— Eu tive um... um episódio. Enquanto você estava fora.
— Você se machucou?
— Machuquei a gente. Machuquei você.
Ele ficou em silêncio por um longo tempo.
— Você quer terminar? — ela perguntou, a voz falhando.
— Não.
— Por que não? Eu traí você. Eu fiz exatamente o que eu disse que faria.
— Você não fez porque quis. Fez porque estava doente. Porque a onda veio e você não conseguiu segurar.
— Isso não é desculpa.
— Não é desculpa. É explicação. Desculpa é outra coisa. Desculpa é pedir perdão sem mudar. Você quer mudar?
— Quero. Mas não sei se consigo.
— Então a gente tenta. De novo. Quantas vezes precisar.
Ela caiu no choro, nos braços dele.
— Eu não mereço você.
— Quem disse que amor é sobre merecer?
Capítulo 16 - Terapia, Juntos
Ela já fazia terapia havia anos. Mas nunca o incluira. Agora, o terapeuta sugeriu sessões conjuntas.
Na primeira, Marina mal conseguia falar. Egidio segurou sua mão.
— Dói — ela disse. — Dói muito saber que machuco quem amo.
— E você, Egidio? — perguntou o terapeuta. — Como lida com isso?
— Lido tentando entender. Tentando separar a pessoa do transtorno. Tentando lembrar que ela não escolheu isso.
— Mas isso te machuca?
— Machuca. Claro que machuca. Mas eu também já machuquei pessoas. Talvez de formas diferentes, mas machuquei. Ninguém é santo.
O terapeuta anotou algo.
— Marina, o que você sente quando ele diz isso?
— Sinto que ele é bom demais. E que uma hora ele vai cansar.
— E você, Egidio, vai cansar?
Ele olhou nos olhos dela.
— Não. Vou continuar aqui. Enquanto você me quiser aqui.
No aniversário dela, ele encheu o apartamento de flores. Não rosas vermelhas, mas as favoritas dela: girassóis, lírios, margaridas.
— Por que Tulipas? — ela perguntou.
— Porque você é como eles. Busca a luz. Mesmo quando está escuro.
Ela abraçou-o.
— Eu não sei se vou conseguir, Egidio. Não sei se um dia vou estar curada.
— Talvez não exista cura. Talvez exista cuidado. Gerenciamento. Dias bons e dias ruins.
— E você aguenta os dias ruins?
— Aguentei até agora.
— Mas por quê?
Ele afastou-se, segurou seu rosto.
— Porque nos dias bons, você é a mulher mais incrível que eu já conheci. E nos dias ruins, você ainda é ela. Só que doente. E a gente não abandona quem a gente ama só porque está doente.
Capítulo 18 - Um Diálogo de Gerações
Ele foi convidado para dar uma palestra na Espanha. Dessa vez, ela foi junto.
Em Madri, num auditório cheio, ele repetiu palavras que escrevera anos antes:
"Debemos construir entre nosotros un diálogo de generaciones. Mi generación recibió un planeta destruido, la mayor concentración de ingresos de la historia de la humanidad, el aumento de la violencia, las drogas y el crimen en la misma proporción que la soledad y el distanciamiento de las familias en nuestros hogares. De esta manera nos han prohibido amar."
Ela, na plateia, sentiu cada palavra como um punhal e um bálsamo.
Depois, no hotel, ela disse:
— Você tem razão. Nos proibiram de amar. Mas não do jeito que você pensa.
— Como então?
— Me proibiram de amar direito. Me ensinaram que amor é posse, é controle, é ciúme. Me ensinaram que meu corpo não era meu. Me ensinaram que desejo é pecado. E quando eu descobri que desejo não era pecado, já era tarde demais. Já tinha aprendido a usar o corpo como arma, como defesa, como auto-destruição.
— E agora?
— Agora estou tentando desaprender. Tentando aprender com você.
— O que eu posso ensinar?
— A amar sem medo. A estar presente. A não desistir.
Hoje, Marina e Egidio vivem num apartamento em Pinheiros, com livros nas paredes e plantas nas janelas. Ela ainda tem dias ruins, ainda luta contra ondas que vêm sem avisar. Mas agora tem ferramentas. Tem Dolores. Tem terapia. Tem grupos de apoio.
E tem ele.
Ele continua com seus projetos, seus livros, suas palestras. Às vezes viaja, e ela fica. Mas agora, quando fica, tem estratégias. Ligações programadas. Listas de coisas para fazer quando a solidão apertar.
Nem sempre funciona. Às vezes falha. Mas falham menos.
— Você ainda tem medo? — ele perguntou outro dia.
— Sempre terei. Mas aprendi que medo e amor podem coexistir.
— Como assim?
— Posso ter medo e ainda assim escolher amar. Posso ter medo e ainda assim ficar. O medo não precisa ser o fim.
Ele beijou sua testa.
— Você é minha maior professora.
— De quê?
— De coragem.
No terceiro livro de Egidio, dedicado a "todos que amam contra a corrente", há uma página só para ela:
"Para M., que me ensinou que o amor não é ausência de escuridão, mas a decisão de acender uma vela juntos no meio dela. Para M., que cai e levanta, cai e levanta, e em cada queda descobre uma força que não sabia ter. Para M., que é feita de paixão e vergonha, de desejo e arrependimento, de carne e alma. Para M., que me escolheu todos os dias, mesmo quando escolher era difícil. Este livro é seu. Como eu sou seu. Como somos nossos."
Marina leu e chorou. Depois, pegou o telefone e ligou para Dolores.
— Li a dedicatória.
— E então?
— Então que talvez... talvez eu consiga. Talvez a gente consiga.
— Você já conseguiu, menina. Todo dia que você acorda e escolhe continuar, você já conseguiu.
Do outro lado da sala, Egidio a observava. Ela sorriu para ele, um sorriso trêmulo, verdadeiro.
— Vem cá — ela pediu.
Ele foi.
Sentaram-se na varanda, viram o sol se pôr sobre os prédios de Pinheiros. Ela apoiou a cabeça em seu ombro.
— O que você está pensando? — ele perguntou.
— Que a vida é isso. Não os grandes momentos. Não Paris, não os prêmios, não os livros. É isso aqui. Agora. Você e eu.
— É suficiente?
— É mais do que eu jamais sonhei.
Ele beijou seu cabelo.
— E amanhã?
— Amanhã a gente descobre junto.
O sol se pôs. A noite chegou. Lá dentro, o telefone tocou. Algum projeto, alguma demanda, algum chamado do mundo. Mas eles ficaram mais um minuto. Depois mais um. Depois mais um.
O amor, descobriram, é isso. Ficar mais um minuto. Escolher, a cada minuto, ficar.
FIM
NOTA DO AUTOR
Este romance é inspirado em histórias reais de pessoas que vivem com transtorno e seus parceiros, que escolhem amar contra todas as probabilidades. As referências aos livros "Protetores – Quando Amar é Proibido" e "Sociedade da Paixão" são homenagens à capacidade humana de transformar dor em arte e sofrimento em sabedoria.
Como escreveu Egidio em seus manuscritos: "O amor não é para os fortes. O amor é para os que cansam, caem, e mesmo assim levantam. Para os que têm medo e amam apesar do medo. Para os que erram e tentam de novo. O amor é para os humanos, exatamente porque são humanos."
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