SABERES TRANSDISCIPLINARES E ORGÂNICOS.

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026

PQP! O Carnaval e a República Acabou! Mas Máfias, Ela Existiu? Por Egidio Guerra.

 


O Baile de Máscaras da Elite Brasileira 

PQP! Acordei hoje e me perguntei: que República é essa que nos vendem nas escolas, nos livros de história, nos discursos de posse? Uma República que deveria ser a coisa pública, a res publica, reduzida a um balcão de negócios onde tudo se negocia — cargos, sentenças, contratos bilionários, e o sangue e o suor do povo brasileiro viram combustível para a farra dos espertos. 

O Carnaval acabou, dizem. Mas será mesmo? Porque se Carnaval é essa festa onde tudo se permite, onde as máscaras caem e as fantasias revelam verdades ocultas, então o Brasil vive um Carnaval permanente. E a elite — banqueiros, ministros do STF, governadores, autoridades do Banco Central, figurões do Mercado Financeiro, delegados da Polícia Federal, auditores da Receita Federal, pastores de igrejas — todo mundo fantasiado de "autoridade constituída", mas por baixo da fantasia, o que se vê? 

O que se vê são as engrenagens expostas de uma máfia organizada, com tentáculos em todos os Poderes da República. Sobrou alguém? Alguém está me ouvindo? 

O Caso Master: A República Desnuda 

Vejamos o Caso Master, essa operação bilionária que escancarou aquilo que sempre sussurramos nos bares, mas que agora está estampado nos relatórios da Polícia Federal e nas manchetes da imprensa internacional. A revista The Economist, aquela que costuma olhar o Brasil de cima, publicou uma reportagem dizendo que as ligações entre ministros do Supremo Tribunal Federal e pessoas relacionadas ao caso do Banco Master "reforçam a impressão entre os eleitores brasileiros de que a Suprema Corte do país carece de imparcialidade" . 

Não é impressão, não, cara pálida. É fato. O que a Economist constatou é o que nós, pobres mortais, sentimos na pele: o STF virou extensão do balcão de negócios. Ministros que viajam no avião particular de advogados ligados ao banqueiro investigado . Esposas de ministros com contratos milionários com o banco em crise . Parentes de magistrados envolvidos em negócios imobiliários com o cunhado do dono do Master . E o ministro relator do caso, Dias Toffoli, determinando sigilo máximo e centralizando todas as investigações em suas mãos . 

Raymundo Faoro, em sua obra monumental Os Donos do Poder, já nos alertava: o Brasil nunca conheceu uma burguesia autônoma, mas sim um estamento burocrático — uma elite que domina o Estado e transforma a administração pública em propriedade privada . É o patrimonialismo travestido de modernidade. O que Faoro descreveu nos anos 1950 é o que vemos hoje: o público virado negócio de família, o cargo público virando trampolim para enriquecimento privado. 

E o Banco Central? Ah, o Banco Central... que deveria ser o guardião da higidez do sistema financeiro, assistiu a tudo. O ex-presidente do BRB, banco público controlado pelo governo do Distrito Federal, pediu à Polícia Federal para prestar novo depoimento, num inquérito que apura suposta fraude bilionária de carteiras de crédito transacionadas entre as duas instituições . A tentativa de compra do Master pelo BRB — defendida pelo governador Ibaneis Rocha — foi vetada pelo BC, mas só depois que o estrago já estava feito . 

O Voto, a Festa e o Dinheiro dos Aposentados 

Mas não começa agora. Essa máfia tem método e história. Victor Nunes Leal, em Coronelismo, Enxada e Voto, mostrou como a República brasileira se assentou num sistema de reciprocidade perverso: os coronéis locais entregavam votos de cabresto em troca de favores do governo estadual, que por sua vez negociava com o governo federal . O sistema representativo foi capturado pela estrutura agrária arcaica. 

Hoje os coronéis usam terno e gravata, mas o método é o mesmo. Nas eleições, as doações tomavam decisões sobre o dinheiro público. O cunhado do dono do Master, pastor da Igreja Lagoinha, foi o maior doador da campanha de Jair Bolsonaro em 2022 . Os acordos são fechados em festas, em resorts, em viagens de jatinho particular para finais de Libertadores . O dinheiro público — inclusive o dinheiro suado dos aposentados, dos fundos previdenciários — vira moeda de troca nesse grande cassino. 

E as delações? Ah, as delações... são o oxigênio que mantém esse sistema vivo. Funcionam como válvula de escape seletiva: alguns são sacrificados para que o sistema continue operando. As delações são a prova de que a máfia existe, mas também são o instrumento que a perpetua. 

A Qualificação da Máfia nos Estados e Municípios 

Se em Brasília — onde há mais olhos, mais imprensa, mais controles institucionais — a máfia age tão à vontade, imaginem nos Estados e Prefeituras. Lá o controle é menor, a imprensa local é frágil, o Ministério Público muitas vezes é capturado pelas oligarquias locais. 

O fenômeno do coronelismo ainda perdura no Brasil. Estudos mostram que as práticas dos antigos coronéis ainda existem, reformuladas e enraizadas em nossa cultura política, ocasionando o verdadeiro caos nos serviços públicos . A diferença é que hoje o coronel é "qualificado": entende de contratos administrativos, de emendas parlamentares, de operações estruturadas no mercado financeiro. Mas o método é o mesmo: usar o público em benefício privado. 

A autonomia municipal, que deveria ser garantida constitucionalmente, muitas vezes vira instrumento de barganha. Como mostrou Victor Nunes Leal, "com a autonomia legal cerceada de diversas formas, já não será um direito da maioria do eleitorado, será uma dádiva do poder" . As prefeituras viram feudos, as câmaras municipais viram balcões de negócios, e o povo — entregue à própria sorte — continua trocando votos por favores, por uma cesta básica, por uma vaga no hospital. 

O Silêncio Cúmplice e as Mãos Manchadas de Sangue 

E as igrejas? Estão aí, abençoando tudo. Pastores que voam em jatinhos de banqueiros investigados, que recebem doações generosas em troca de silêncio ou de apoio político. O pastor da Igreja Lagoinha, cunhado de Vorcaro, foi o maior doador da campanha de Bolsonaro . A fé virou mercadoria, o púlpito virou palanque, e os fiéis — esses continuam dizimando seus salários miseráveis enquanto veem seus pastores nadando em dinheiro sujo. 

Sobrou alguém? Alguém está me ouvindo? 

A Polícia Federal investiga, sim. Prendeu Vorcaro, depois soltou. Ele agora usa tornozeleira eletrônica . Mas e os outros? E os ministros que viajaram no avião do advogado? E o governador que defendia a compra do banco podre pelo banco público? E os políticos que receberam doações? E os auditores da Receita que nada viram? E os técnicos do Banco Central que demoraram a agir? 

Yanis Varoufakis, em Tecnofeudalismo, argumenta que o capitalismo morreu e deu lugar a um novo sistema onde os donos da infraestrutura digital operam como senhores feudais, extraindo valor sem mediação de mercados livres . No Brasil, esse tecnofeudalismo se casa perfeitamente com nosso velho patrimonialismo. Os novos senhores feudais — banqueiros, ministros, governadores, pastores — controlam não só a terra, mas os dados, o dinheiro, a informação, as decisões judiciais. 

A Sentença de Fim da República do Brasil 

Por isso eu pergunto: que República é essa? Não há República onde o bem público é tratado como butim privado. Não há República onde ministros do STF viajam no avião de advogados de investigados. Não há República onde o maior doador de campanha é um pastor ligado a banqueiro preso. Não há República onde aposentados têm seus fundos de previdência dilapidados enquanto a elite festeja em resorts. 

O que temos é uma oligarquia travestida de democracia. Um estamento burocrático-financeiro-judicial-eclesial que se perpetua no poder através do controle do Estado, das nomeações, das decisões judiciais, das delações seletivas, do dinheiro público. 

A República acabou, sim. Se é que algum dia existiu. O que temos é uma máfia organizada, com ramificações em todos os Poderes, em todos os níveis da federação, abençoada por igrejas cúmplices e fiscalizada por instituições que ora são cegas, ora são coniventes. 

E o povo brasileiro? Esse continua morrendo. Morre na fila do hospital, morre na bala perdida, morre de fome, morre de desesperança. Enquanto isso, nos gabinetes climatizados de Brasília, nos jatinhos que cruzam o país, nos resorts paradisíacos, os "donos do poder" brindam à sua própria impunidade. 

Alguém está me ouvindo? 

 

Peças desculpas, bilionários, corruptos, oligarquias. Em resumo: criem um coral afinado para pedir perdão pelas milhões de mortes do povo brasileiro. Suas mãos estão sujas de sangue, roubo e privilégios. Vocês mataram a República. Mataram a esperança. Mataram o futuro. E ainda têm a cara de pau de posar para fotos com Bíblias na mão, discursos patrióticos na boca e contratos fraudulentos no bolso. 

Que a história — essa que vocês tentam comprar, manipular, silenciar — lhes cobre o preço. Que o povo — esse que vocês exploram, humilham, assassinam — um dia acorde e cobre. E que, se houver justiça neste país, ela comece por vocês. 

 

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