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quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026

A Voz que Disse Não do Brasil: Wenders e Ben Hania em Berlim



Aos 80 anos, Wim Wenders chegou à 76ª edição do festival com uma visão clássica e, para muitos, controversa. Em entrevista coletiva, ao ser questionado sobre a posição do governo alemão em relação à guerra em Gaza, o diretor de "Asas do Desejo" foi enfático: "Temos que ficar fora da política" . Para Wenders, os cineastas não devem fazer o trabalho dos políticos, mas sim atuar como um "contrapeso", focando em mudar a percepção das pessoas sobre como viver . "Nenhum filme mudou realmente a ideia de qualquer político", argumentou, defendendo que o poder do cinema reside em sua capacidade de gerar empatia e reflexão individual, e não em tomar partido em conflitos imediatos . 

Essa declaração gerou uma onda de críticas e levou até mesmo a romancista indiana Arundhati Roy a cancelar sua participação no evento . A diretora do festival, Tricia Tuttle, precisou pedir "cabeças frias em tempos quentes", reforçando que os artistas são livres para se expressar, mas não podem ser coagidos a falar sobre todas as questões políticas . 

Foi nesse caldo cultural tenso que a diretora Kaouther Ben Hania, indicada ao Oscar por "O Homem que Vendeu Sua Pele", fez a sua escolha. Sua recusa em aceitar o prêmio de "Filme do Ano" no evento "Cinema pela Paz" não foi um ato de indiferença, mas sim de profundo engajamento. Seu filme, "A Voz de Hind Rajab", dá som e forma à história real de uma criança de seis anos morta em Gaza, cujo apelo por socorro ao Crescente Vermelho foi ignorado. Ao recusar a honraria, Ben Hania denunciou o que considera a cumplicidade do silêncio. Se Wenders propõe que o cinema mude o mundo mudando os indivíduos, Ben Hania demonstra que, em contextos de barbárie, a própria omissão é um ato político, e a arte que se cala diante da morte de uma criança falha em seu propósito mais elementar. 


Espelho de 1968: Truffaut e Godard em Cannes

A cena vivida em Berlim encontra um eco poderoso no passado. Em maio de 1968, o Festival de Cannes foi paralisado não por uma crise externa, mas pela força de seus próprios realizadores. Enquanto a França era tomada por greves e protestos estudantis, jovens diretores como Jean-Luc Godard e François Truffaut invadiram a croisette com um objetivo: solidarizar-se com os manifestantes e interromper o festival . 

Godard, com sua radicalidade típica, confrontava a plateia aos gritos, acusando-os de debater "planos e closes" enquanto o país pegava fogo . Truffaut, que sempre negou filiação partidária, naquele momento colocou o cinema a serviço da revolução social, puxando cortinas para impedir exibições e exigindo o fim do evento . O festival foi encerrado antes do previsto, e nenhum prêmio foi entregue . Para Louis Malle, foi um "grande momento" que deveria acontecer a cada quatro anos . 

A comparação é reveladora. Em 1968, Godard e Truffaut acreditavam que parar o cinema era a única forma de fazê-lo relevante. Em 2026, Ben Hania parece acreditar que é preciso usar o cinema para dar voz a quem foi silenciado pela violência. Wenders, por outro lado, representa a visão do cineasta como um cronista da condição humana, que opera em um tempo distinto do tempo da política. A grande questão que separa estes momentos é: pode a arte esperar a poeira baixar para então refletir, ou deve ela gritar junto com as ruas? 


O Cinema Brasileiro: Resgate da Memória e Afirmação da Democracia 

É neste contexto global de debates sobre o papel da arte que o cinema brasileiro contemporâneo oferece respostas concretas e contundentes. Longe de se abster ou de pairar sobre os conflitos, nossa produção tem mergulhado nas fraturas da história para reivindicar a memória como um pilar da democracia. 

O documentário "Agente Secreto" se insere em uma tradição de investigação das feridas abertas pela ditadura militar (1962-1985). Ao revisitar arquivos e testemunhos, a obra cumpre um papel quase judiciário ao qual o Estado por vezes se furtou: dar rosto e contexto aos desaparecidos e aos algozes, impedindo que o esquecimento seja a pá de cal sobre as violações de direitos humanos . Este tipo de produção é herdeira direta do Cinema Novo, que, como Glauber Rocha e seus contemporâneos, já nos anos 1960 acreditava no poder do cinema para "mudar o mundo" unindo arte, utopia e revolução, apresentando novas imagens de um Brasil profundo e desigual . 

Já "Ainda Estou Aqui", dirigido por Walter Salles, transcendeu as fronteiras nacionais ao conquistar o primeiro Oscar de Melhor Filme Internacional para o Brasil. A obra não é apenas um êxito estético, mas um fenômeno político de primeira grandeza. Ao reconstituir a trajetória de Eunice Paiva, cujo marido foi vítima da ditadura, o filme reinseriu o debate sobre o passado autoritário no centro da conversa nacional . Numa época de revisões históricas e ataques às instituições, "Ainda Estou Aqui" usa a comoção e a identificação para lembrar que a democracia brasileira é uma conquista frágil, construída sobre corpos que precisam ser lembrados. 

Conclusão: A Arte como Escudo da Vida 

Se Wim Wenders alerta para o risco de o cinema se perder ao fazer o jogo da política institucional, e se Godard e Truffaut nos ensinaram que o cinema pode ser uma arma de guerra simbólica, os exemplos de Kaouther Ben Hania e do cinema brasileiro apontam para um caminho de síntese. A arte não precisa disputar uma eleição para ser profundamente política. 

Ao recusar um prêmio em nome das crianças de Gaza, Ben Hania coloca a ética acima da vaidade. Ao filmar "Ainda Estou Aqui", Walter Salles prova que resgatar a memória de uma família é também um ato de defesa da democracia. Contra as guerras, contra as violências de Estado e contra o apagamento histórico, o cinema brasileiro e os gestos de coragem como o da diretora tunisiana nos lembram que a principal tarefa da arte é, nas palavras de Wenders, nos fazer pensar sobre como devemos viver . E viver, em tempos de trevas, é também resistir. O cinema, assim, assume seu papel mais nobre: ser um instrumento de amor à vida, um farol de memória que ilumina o caminho para que a história não se repita como tragédia. 

 

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