SABERES TRANSDISCIPLINARES E ORGÂNICOS.

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026

¿Por qué preferimos la desigualdad?: (aunque digamos lo contrario) por François Dubet




1. A Tese Central: A Preferência pela Desigualdade 

O ponto de partida de Dubet é que, paradoxalmente, "nossas sociedades 'escolhem' a desigualdade" . Não se trata apenas de uma imposição da lógica cruel do capitalismo financeiro, mas de um fenômeno que é reproduzido nas práticas cotidianas de todos os grupos sociais, inclusive das classes médias e dos mais desfavorecidos . 

2. O Diagnóstico: A Crise dos Pilares da Solidariedade 

Para explicar esse fenômeno, Dubet analisa a crise que, desde os anos 1980, desmantelou os três grandes pilares tradicionais da solidariedade e da integração social: 

  • O Trabalho: Fragmentado e precarizado, deixou de ser o principal vetor de integração e identidade coletiva. 

  • As Instituições: As grandes instituições (escola, justiça, saúde) perderam sua capacidade de moldar indivíduos e produzir coesão social, tornando-se mais técnicas e burocráticas. 

  • A Nação: A ideia de uma nação homogênea e unificada foi corroída pela globalização e pelo multiculturalismo . 

Com o colapso desse modelo de "integração", passamos a um modelo frágil de "coesão social", onde a solidariedade não é mais um dado estrutural, mas uma produção contínua e instável da vida social, baseada no capital social e na confiança interpessoal . 

3. O Mecanismo da Desigualdade: O Mérito e a Culpabilização da Vítima 

Dubet argumenta que, na ausência de grandes relatos solidários, o princípio da "igualdade de oportunidades meritocrática" tornou-se a ideologia dominante. No entanto, este modelo produz efeitos perversos: 

  • Responsabilização Individual: O sucesso e o fracasso são vistos como responsabilidade exclusiva do indivíduo. "Se todos têm as mesmas chances", aqueles que falham são os únicos culpados por seu destino. 

  • Estigmatização: Esta lógica leva à culpabilização das vítimas, que são percebidas como "preguiçosas" ou "incompetentes". Os mais favorecidos passam a ver os pobres, desempregados e imigrantes como uma ameaça ou um fardo, justificando a retirada do apoio e da solidariedade . 

  • Estratégias de Distinção: Todos que podem (as classes médias e altas) preferem viver em bairros socialmente homogêneos e escolher escolas para seus filhos onde não se misturem com as "classes perigosas", reproduzindo a desigualdade espacial e educacional enquanto declamam princípios igualitários . 


"Em uma palavra: quanto mais favorecido o meio do qual o aluno se origina, maior sua probabilidade de ser um bom aluno, quanto mais ele for um bom aluno, maior será sua possibilidade de aceder a uma educação melhor, mais diplomas ele obterá e mais ele será favorecido." (Trecho adaptado de "O que é uma escola justa?", que reflete o pensamento de Dubet sobre a falácia da meritocracia pura) . 

4. A Proposta: Reconstruir a Fraternidade 

Diante desse quadro, Dubet não defende uma nostalgia reacionária, mas sim a construção de uma nova "política da fraternidade" . Para ele, a igualdade só será possível se for reativado o sentimento de que dependemos uns dos outros. 

  • Princípios Modestos e Realistas: Em vez de grandes narrativas, a solidariedade deve ser construída por meio de ações concretas, políticas públicas eficazes e espaços de convivência que gerem confiança e sentido de sociedade . 

  • A Escola como Espaço-Chave: Dubet, um grande teórico da educação, defende uma escola que, em vez de apenas selecionar os "melhores" pela meritocracia, preocupe-se em garantir um mínimo de conhecimentos para todos e em revalorizar os percursos técnicos e profissionais, evitando a exclusão total dos mais fracos e diminuindo a influência da desigualdade escolar na manutenção das desigualdades sociais . 


"A escola cria suas próprias desigualdades, a economia cria suas próprias desigualdades, a cultura cria suas desigualdades, a política cria suas desigualdades... Mas há desigualdade e injustiça novas quando as desigualdades produzidas por uma esfera de justiça provocam automaticamente desigualdades em outra esfera." . 

5. Conclusão da Obra 

Dubet conclui que, para combater a desigualdade, é imperativo "construir espaços e cenas que permitam dizer o que temos em comum, a fim de aceitar nossas diferenças" . A fraternidade não é um sentimento espontâneo, mas um trabalho político e social contínuo que deve ser exercido na democracia, nas instituições e no cotidiano, para que possamos nos reconhecer como solidários antes mesmo de nos aceitarmos como iguais . 

 Diálogos Intelectuais: Autores Base e Contemporâneos 

O pensamento de François Dubet é construído a partir de um sólido diálogo com a tradição sociológica e com debates contemporâneos. 

Autores que Baseiam seu Pensamento 

  • Émile Durkheim: A análise de Dubet sobre a crise das instituições e a passagem da "solidariedade mecânica" para a "orgânica" é uma releitura direta de Durkheim. Dubet atualiza o conceito de anomia para explicar a fragmentação dos laços sociais e a perda de capacidade integradora das instituições como a escola e o trabalho. 

  • John Rawls: A discussão sobre justiça social, equidade e a crítica à meritocracia pura dialoga profundamente com a obra de Rawls, especialmente com sua ideia de que as desigualdades só são aceitáveis se beneficiarem os mais desfavorecidos (princípio da diferença). 

  • Alain Touraine: Como seu mentor, Dubet herda a centralidade da ação social e dos movimentos sociais. A ênfase na capacidade dos atores sociais de produzirem a sociedade e a experiência social é uma marca tourainiana em sua obra. 

Diálogo com Pensadores Atuais 

  • Didier Fassin: A noção de "culpabilização da vítima" e a análise das políticas de segurança e imigração que distinguem entre "vidas que merecem ser vividas" e aquelas que não merecem ecoa diretamente nas pesquisas de Fassin sobre a "razão humanitária". 

  • Pierre Rosanvallon: A preocupação de Dubet com a crise da representação política, a desconfiança nas instituições e a necessidade de refundar a democracia e a solidariedade social coloca-o em um diálogo constante com as teses de Rosanvallon sobre a "sociedade da desconfiança" e a "igualdade como vínculo". 

  • Thomas Piketty: Embora Dubet foque mais nos mecanismos sociais e simbólicos da desigualdade, seu diagnóstico sobre o aumento das desigualdades contemporâneas corre em paralelo com as análises econômicas de Piketty sobre a concentração de capital e renda. Ambos partem da premissa de que a desigualdade não é um acidente, mas uma característica estrutural do capitalismo contemporâneo que precisa ser enfrentada política e socialmente. 

 

Resumo da Obra Completa de François Dubet 

François Dubet é um sociólogo francês cuja trajetória intelectual pode ser resumida em três grandes eixos temáticos, sempre focados na experiência social dos indivíduos e na crise das instituições. 

1. A Sociologia da Experiência Social 

Em obras fundadoras como "Sociologia da Experiência" (1994), Dubet rompe com a visão clássica que via o ator social como totalmente determinado pelo sistema. Ele propõe que os indivíduos são atores que constroem sua própria experiência combinando, de forma muitas vezes contraditória, diferentes lógicas de ação (integração, estratégia, subjetivação). O mundo social é visto como um conjunto de sistemas em crise, e é nessa crise que o ator deve construir a si mesmo. 

2. O Declínio das Instituições 

Em "O Declínio da Instituição" (2002) e trabalhos posteriores, Dubet analisa a transformação das grandes instituições disciplinadoras (escola, hospital, serviço social). Ele argumenta que o modelo clássico de "instituição" (baseado em valores sagrados e na autoridade do mestre) foi substituído por um modelo de "organização" ou "serviço", focado na eficácia, na satisfação do usuário e na gestão de recursos. Isso gera um sofrimento nos profissionais (professores, assistentes sociais), que perdem sua missão transcendente e se tornam meros gestores de desigualdades. 

3. A Crítica à Meritocracia e a Defesa da Justiça Social 

Esta é a face mais pública e engajada de sua obra, onde se insere o livro resumido. Em "O que é uma escola justa?" (2004) e "Por que preferimos a desigualdade?" (2014), Dubet desconstrói o mito da igualdade de oportunidades, mostrando que a meritocracia, na prática, legitima e reproduz os privilégios. Sua proposta é a construção de uma sociedade mais justa, que não se limite a dar chances iguais no ponto de partida, mas que se organize para reduzir as desigualdades ao longo de toda a trajetória dos indivíduos, baseando-se na fraternidade e na solidariedade como valores políticos ativos. 

Em suma, a obra de Dubet é uma longa reflexão sobre como os indivíduos podem viver juntos em sociedades que perderam seus referenciais tradicionais, defendendo um modelo de socialização que combine a autonomia do ator com a necessidade de reconstruir vínculos sociais e institucionais justos e solidários. 




 

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