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segunda-feira, 6 de abril de 2026

"Metamodernism: The Future of Theory" de Jason Ananda Josephson Storm

 



Sobre a Obra e o Autor

Publicado em 2021 pela University of Chicago Press, Metamodernism: The Future of Theory é uma obra ambiciosa do Professor Jason Ananda Josephson Storm, que atua como chair do Departamento de Religião e chair de Estudos de Ciência e Tecnologia no Williams College . O autor já havia publicado obras importantes como The Invention of Religion in Japan e The Myth of Disenchantment: Magic, Modernity, and the Birth of the Human Sciences .

O livro se apresenta como "o primeiro trabalho completo a alinhar as várias críticas das categorias disciplinares-mestre (religião, ciência, arte, etc.) e traçar suas afinidades e raízes conceituais compartilhadas" . Com 360 páginas, a obra é estruturada em quatro partes principais, precedidas por uma "Abertura" e seguidas por uma conclusão .

Estrutura da Obra

ParteTítuloCapítulos
AberturaOpening-
Parte IMetarealismo1. How the Real World Became a Fable, or the Realities of Social Construction
Parte IIOntologia Social de Processo2. Concepts in Disintegration & Strategies for Demolition
3. Process Social Ontology
4. Social Kinds
Parte IIIHilossemiótica5. Hylosemiotics: The Discourse of Things
Parte IVConhecimento e Valor6. Zetetic Knowledge
7. The Revaluation of Values
ConclusãoBecoming Metamodern-

Principais Teses e Argumentos Centrais

1. O Diagnóstico: O Impasse Pós-Moderno

Josephson Storm parte de um diagnóstico preciso da situação intelectual contemporânea: "Por décadas, estudiosos têm questionado a universalidade de objetos e categorias disciplinares" . O declínio das metanarrativas e a desconfiança em relação aos universais criaram um impasse que ele resume de forma contundente: "O declínio das metanarrativas mostra uma desconfiança dos universais, enquanto o aprofundamento da particularidade parece não prometer nada além de uma dissolução adicional" .

Para Josephson Storm, esses são becos sem saída. O livro propõe uma via alternativa que "radicaliza e supera esses projetos desconstrutivos para oferecer um caminho a seguir para as humanidades e ciências sociais" .

2. Metarrealismo: Além do Construtivismo Radical

A Parte I estabelece as bases epistemológicas do projeto. Josephson Storm propõe o que ele chama de metarrealismo - uma posição que reconhece a realidade da construção social sem cair no relativismo ou no niilismo. Como indica o título do primeiro capítulo, trata-se de compreender "como o mundo real se tornou uma fábula, ou as realidades da construção social" .

3. Ontologia Social de Processo

O coração teórico do livro está na Parte II, onde Josephson Storm desenvolve sua ontologia social de processo (Process Social Ontology). Inspirando-se em filósofos do processo como Alfred North Whitehead, ele argumenta que:

"O mundo social deve ser visto em termos de uma 'ontologia social de processo' com zonas temporárias de estabilidade chamadas 'tipos sociais' (social kinds)" .

Este conceito é fundamental: ao invés de entender categorias sociais como entidades fixas e estáveis, Josephson Storm as concebe como cristalizações temporárias em um fluxo contínuo de transformação. Os "tipos sociais" (social kinds) são formações contingentes que emergem, se estabilizam por períodos e eventualmente se dissolvem.

4. Hilossemiótica: O Discurso das Coisas

A Parte III introduz um dos conceitos mais originais e controversos do livro: a hilossemiótica (hylosemiotics) - um termo que combina hyle (matéria, em grego) com semeion (signo). Josephson Storm propõe:

"Uma nova abordagem para a filosofia da linguagem ao olhar além da teorização típica que se concentra exclusivamente na produção da linguagem humana, mostrando-nos como nossa própria criação de signos está, na verdade, em um continuum com a comunicação animal e vegetal" .

Esta é uma tentativa audaciosa de superar o que ele vê como o antropocentrismo excessivo da filosofia da linguagem contemporânea, situando a produção humana de significado dentro de um espectro mais amplo de processos semióticos na natureza.

5. Conhecimento Zetético e a Reavaliação dos Valores

A Parte IV trata da relação entre conhecimento e valor. Josephson Storm propõe o que ele chama de zeteticismo (do grego zetein, "buscar, investigar") - uma postura epistemológica que:

"Promove não o ceticismo, mas o zeteticismo - uma postura direcionada ao conhecimento humilde e emancipatório" .

O zeteticismo se distingue do ceticismo porque, enquanto este tende à suspensão do juízo, aquele é ativamente orientado para a busca e construção de conhecimento, embora mantendo uma consciência aguda das limitações e contingências de qualquer pretensão de saber.

O capítulo sobre "A Reavaliação dos Valores" (The Revaluation of Values) - uma clara referência nietzschiana - propõe uma virada em direção a uma "ética das virtudes críticas" (critical virtue ethics) que se estende a múltiplas espécies . Isto envolve, nas palavras do autor, "abraçar uma vida de processo e mudança" .

6. Metamodernismo como Manifesto

O livro se apresenta explicitamente como um manifesto para as ciências humanas. Como afirmam os sumários institucionais:

"Metamodernism é um manifesto revolucionário para a pesquisa nas ciências humanas que oferece um novo caminho através do ceticismo pós-moderno para envisionar um futuro mais inclusivo da teoria, no qual novas formas tanto de progresso quanto de conhecimento podem ser realizadas" .

A obra também conecta o metamodernismo a uma pedagogia da revolução, inspirando-se em Paulo Freire e sua Pedagogia do Oprimido .

Citações e Análise Detalhada

Sobre o Diagnóstico da Condição Pós-Moderna

O diagnóstico de Josephson Storm sobre a situação intelectual contemporânea é ecoado por estudiosos como Rita Felski, que descreve o livro como:

"Não apenas um diagnóstico astuto das confusões e contradições do pensamento contemporâneo; ele também oferece alternativas convincentes" .

Sobre a Necessidade de Superação

Um leitor atento do livro (Richard Thompson, no Goodreads) resume o apelo do projeto:

"Qualquer pessoa que lê romances ou que lê livros com intenção intelectual nas humanidades ou ciências sociais na América hoje foi necessariamente afetada pelo pós-modernismo... Estou maduro para um homem inteligente como o Sr. Josephson-Storm vir e apontar o caminho para a próxima fase da nossa história intelectual além do pós-modernismo" .

Sobre a Centralidade do Processo

O mesmo leitor identifica um dos insights fundamentais do livro:

"Sempre pensei que foi um erro fetichizar nomes e definições... Termos e categorias são coisas vivas que precisam ser capazes de mudar ao longo do tempo. Devemos abraçar viver em um mundo de processo e mudança" .

Sobre a Abrangência Ético-Política

Andrea Bardin e Marco Ferrari, em um comentário acadêmico publicado na revista Method & Theory in the Study of Religion, elogiam:

"A destilação interdisciplinar integrada de Josephson Storm e sua perspectiva ético-política ambiciosa" .

Críticas e Debates

Críticas Positivas

1. Ambição e Integração Interdisciplinar: A obra é amplamente reconhecida por sua tentativa genuína de construir uma ponte entre tradições filosóficas frequentemente em conflito. Como observa Bardin e Ferrari, há uma "necessidade de ir além no esforço teórico interdisciplinar para reconstruir uma academia pós-pós-modernista" .

2. Clareza Relativa: Um aspecto notável da obra é sua acessibilidade em comparação com a tradição pós-moderna que critica. Como um revisor nota, ao contrário de Derrida - "tão difícil de ler que a maioria de seus intérpretes faz pouco mais sentido que o mestre" - Josephson-Storm se esforça para ser compreensível, embora com resultados mistos .

Críticas e Limitações

1. Jargão Excessivo e Neologismos Desnecessários: Esta é a crítica mais frequente e contundente. Richard Thompson observa:

"Eu não entendi por que ele precisava falar sobre 'Hilossemiótica' ou 'Conhecimento Zetético' ou 'Felicidade Revolucionária'. Havia algumas boas ideias escondidas dentro de cada um desses termos que poderiam ter sido melhor expressas sem o vocabulário jargão" .

Esta crítica aponta para uma tensão fundamental no projeto: o livro critica o obscurantismo pós-moderno, mas recorre a um neologismo denso que pode alienar os mesmos leitores que busca conquistar.

2. "Polidez" Excessiva com o Pós-Modernismo: O mesmo revisor aponta que Josephson-Storm é "muito educado" com as tradições que busca superar:

"Ele demonstra a estupidez de alguns exercícios pós-modernistas... mas então, em vez de simplesmente seguir adiante a partir dessas coisas, ele tenta encontrar valor e mostrar como suas ideias são um próximo passo natural. Ele é educado demais" .

A sugestão é que, ao invés de romper decisivamente, Josephson-Storm tenta uma reconciliação que pode acabar "permitindo nova vida a velhas ideias ruins que precisam ser enviadas para a pilha de lixo da história intelectual" .

3. Questões de Originalidade e Novidade: Uma crítica mais fundamental diz respeito à pretensão de novidade. O mesmo revisor levanta a questão provocativa:

"Apesar de concordar com tanto do livro, não tenho certeza se a maior parte do que o Sr. Josephson-Storm está defendendo é tão novo assim. Sabemos desde Heráclito que você não pode entrar no mesmo rio duas vezes, desde Sócrates que os sábios são pessoas que sabem que não sabem e desde Aristóteles que as virtudes fornecem uma base forte para a ética" .

Esta crítica sugere que o metamodernismo pode ser menos uma inovação teórica do que um retorno a insights clássicos - talvez um "novo Renascimento, uma nova maneira de retornar a um passado clássico mais do que um passo adiante além do pós-modernismo" .

4. A Dialética Moderno/Pós-Moderno como Problemática: Bardin e Ferrari, em seu comentário acadêmico, identificam uma limitação mais estrutural:

"Identificamos a própria dialética moderno/pós-moderno como problemática, e sustentamos que uma filosofia materialista capaz de repensar a política e a agência não-humana através de todas as ciências serviria melhor ao projeto" .

Esta é uma crítica sofisticada: ao enquadrar seu projeto em termos da própria dialética que busca superar, Josephson-Storm pode estar perpetuando as categorias que deseja transcender.

5. A Necessidade de uma Abordagem Simondoniana: Os mesmos autores sugerem que o projeto metamodernista poderia se beneficiar da adoção de uma abordagem simondoniana (referindo-se ao filósofo da tecnologia Gilbert Simondon) no que diz respeito à conceituação tanto da biologia quanto da tecnologia .

6. Condições Materiais da Pesquisa Interdisciplinar: Bardin e Ferrari concluem com uma nota importante sobre as condições de possibilidade do próprio projeto:

"Terminamos com um apelo por uma vigilância contínua das condições materiais de possibilidade que sustentam a pesquisa interdisciplinar e interdisciplinar de ponta, pois elas são frágeis e precisam de apoio institucional e social" .

Ausências e Silêncios

Uma crítica implícita na leitura de Bardin e Ferrari é a relativa ausência de uma consideração sistemática das condições materiais e institucionais que tornam possível - ou impossível - o tipo de pesquisa interdisciplinar que o metamodernismo defende.

Avaliação Geral e Conclusão

Metamodernism: The Future of Theory é uma obra que divide opiniões precisamente por sua ambição. É um livro que tenta fazer muitas coisas simultaneamente: diagnosticar o impasse do pós-modernismo, oferecer uma alternativa sistemática, construir pontes entre tradições rivais e propor uma agenda de pesquisa para as próximas décadas.

Pontos fortes:

  • Diagnóstico lúcido e oportuno das limitações do pós-modernismo

  • Ambição genuinamente construtiva e propositiva

  • Reconhecimento da necessidade de integrar agência não-humana (animais, plantas, coisas)

  • Conexão entre teoria e uma política emancipatória

  • Engajamento sério com tradições filosóficas diversas

Limitações:

  • Jargão excessivo que pode minar a acessibilidade pretendida

  • Tensão entre crítica radical ao pós-modernismo e tentativa de reconciliação

  • Originalidade questionável de alguns insights centrais

  • Dependência da própria dialética moderno/pós-moderno que critica

  • Falta de atenção às condições materiais da produção teórica interdisciplinar

Público-alvo: Acadêmicos e estudantes avançados nas humanidades e ciências sociais, particularmente aqueles que estão insatisfeitos tanto com as ortodoxias pós-modernas quanto com os revivalismos pré-modernos ou modernistas.

O livro representa um esforço corajoso e necessário para "sair do impasse" teórico contemporâneo. Como conclui um revisor: "O simples fato de eu ter tido essa reação significa que o livro me fez pensar, e isso por si só é suficiente para dar ao livro uma classificação de quatro estrelas" . A pergunta que permanece em aberto é se o metamodernismo representa efetivamente o futuro da teoria ou, como sugerem alguns críticos, um retorno elegantemente embalado a insights que já conhecíamos.

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