Sobre a Obra
Publicado em 2013 pela Routledge, Making é uma obra em que Tim Ingold, professor de Antropologia Social na Universidade de Aberdeen, propõe uma integração original entre quatro campos do conhecimento que ele denomina como "4As": Antropologia, Arqueologia, Arte e Arquitetura . Com 163 páginas, o livro se estrutura em nove capítulos que vão desde a análise da confecção de ferramentas pré-históricas até a construção de catedrais medievais, passando por reflexões sobre desenho, escrita e corporalidade .
Estrutura da Obra
A tabela abaixo apresenta a organização dos capítulos do livro:
| Capítulo | Título Original |
|---|---|
| 1 | Knowing from the inside |
| 2 | The materials of life |
| 3 | On making a hand axe |
| 4 | On building a house |
| 5 | The sighted watchmaker |
| 6 | Round mound and earth sky |
| 7 | Bodies on the run |
| 8 | Telling by hand |
| 9 | Drawing the line |
Principais Teses e Argumentos Centrais
1. A Ruptura com a Abordagem Convencional
Ingold propõe uma mudança paradigmática radical: em vez de uma antropologia e arqueologia de ou sobre arte e arquitetura (tratando-as como compêndios de objetos a serem analisados), ele defende uma abordagem com a arte e arquitetura . Isso significa que o pesquisador não deve ser um observador distante, mas sim alguém que se engaja ativamente nos processos de criação.
2. "Pensar através do Fazer" (Thinking Through Making)
O conceito central do livro é que o conhecimento não precede a ação, mas emerge através dela. Ingold argumenta que "praticantes sensíveis e materiais ativos continuamente respondem, ou 'correspondem', uns com os outros na geração da forma" . Esta noção de correspondência substitui o modelo tradicional de imposição de formas pré-concebidas sobre uma matéria passiva.
3. Crítica à Dicotomia Forma-Matéria
Ingold critica a abordagem ocidental tradicional que separa forma (ideal, conceitual) e matéria (física, passiva). Para ele, essa separação é artificial. O autor se inspira na construção das catedrais medievais para demonstrar que os construtores não seguiam projetos exatos, mas operavam com base em "regras pré-existentes, prática, escolha subjetiva e habilidade adquirida pela experiência" . O corte das pedras, por exemplo, não seguia medidas precisas pré-determinadas.
Citações e Análise Detalhada por Tema
Sobre Correspondência e Materialidade
Um dos exemplos mais contundentes do livro é a descrição de estudantes aprendendo a tecer cestos com galhos de salgueiro. Ingold observa:
"Então percebemos que era justamente essa resistência, o atrito criado pelos galhos forçados uns contra os outros, que mantinha toda a construção unida. A forma não foi imposta ao material de fora, mas foi gerada neste campo de força, composto pelas relações entre o tecelão e o salgueiro" .
Esta passagem ilustra perfeitamente a tese central: o artesão não é um sujeito soberano que domina uma matéria inerte, mas um participante em um diálogo onde ambos (praticante e material) se transformam mutuamente.
Sobre Corporificação e Movimento
Ingold cita a filósofa da dança Maxine Sheets-Johnstone para criticar o conceito de "embodiment" (corporificação):
"Para os seres vivos e animados que somos, argumenta a filósofa da dança Maxine Sheets-Johnstone, o termo 'corporificação' simplesmente não é apropriado experiencialmente. Não experienciamos a nós mesmos e aos outros como 'embalados', mas como nos movendo e sendo movidos, em resposta contínua – isto é, em correspondência – com as coisas ao nosso redor" .
Esta crítica é fundamental: Ingold rejeita a noção de corpos como recipientes ou conteúdos, propondo em seu lugar uma ontologia do movimento e do devir.
Sobre Redes vs. Meshwork
Uma das contribuições conceituais mais originais de Ingold é a distinção entre network (rede) e meshwork (tecido/malha). Enquanto as redes são compostas por nós e conexões definidas entre pontos pré-existentes, o meshwork é formado por "linhas de movimento ou crescimento... linhas temporais de 'devir'" . Como um leitor sintetiza:
"As linhas de uma rede são conectoras: cada uma é dada como a relação entre pontos, independentemente e antecipadamente a qualquer movimento de um em direção ao outro. Tais linhas, portanto, carecem de duração: a rede é uma construção puramente espacial" .
Sobre Design e Expressão
Ingold utiliza o exemplo da construção de catedrais para problematizar a noção convencional de design. Em vez de um projeto totalmente pré-concebido que seria meramente executado, ele sugere que o processo construtivo envolvia:
Regras e práticas estabelecidas
Escolhas subjetivas no momento da execução
Habilidade tácita adquirida pela experiência
Isto não significa negar a existência de planejamento, mas sim compreendê-lo como um processo aberto e dialógico.
Sobre Transdutores
Um conceito técnico relevante introduzido por Ingold é o de transdutor – um elemento que media a correspondência entre a cinestesia do praticante e os fluxos materiais. Exemplos incluem a pipa que conecta o movimento do corpo do piloto às correntes de vento, ou a pedra lascada que traduz o gesto do artesão na fratura controlada do sílex .
Críticas e Debates
Críticas Positivas
O livro tem sido amplamente elogiado por sua capacidade de integrar disciplinas tradicionalmente separadas. Trevor Marchand, da SOAS, afirma: "O foco de Ingold no trabalho manual em arte, construção e fabricação de ferramentas ilustra lindamente 'pensar através do fazer' e aprender fazendo" . Lars Spuybroek, do Georgia Institute of Technology, é ainda mais enfático: "Para arquitetos, é absolutamente essencial descobrir e absorver o trabalho deste outsider amigável cujas ideias tocam o coração do que fazemos" .
Críticas e Limitações Apontadas por Leitores
1. Leveza Argumentativa: Uma crítica recorrente, expressada por um leitor na Amazon UK, é que o livro parece "leve em comparação com seu melhor trabalho" do período pré-2000. O mesmo crítico acusa Ingold de publicar demais e pensar de menos, sugerindo que o livro por vezes se aproxima desconfortavelmente de uma mera promoção do programa interdisciplinar "4As" da Universidade de Aberdeen .
2. Dependência Excessiva de Citações: Um revisor no Goodreads observa que, na segunda metade do livro, "as citações se tornam tão frequentes que fico querendo mais de Ingold... anedotas de ensino de estudantes e descrições de atividades, em vez de referências aos suspeitos habituais dos quais me cansei ao longo dos anos (e.g., Heidegger's ready-to-hand)" .
3. Aplicabilidade Questionável: Uma leitora na Amazon US expressa ceticismo sobre a aplicabilidade prática das ideias de Ingold: "Não tenho certeza de quão aplicáveis suas ideias são à realidade" .
4. Tom Didático e "Preguiça Intelectual": Um comentário no豆瓣 (Douban) chinês critica a "maneira de discussão tutorial como se fosse para estudantes de graduação", enquanto outro leitor aponta que Ingold parece se posicionar como "um pequeno Heidegger" .
5. Questões de Originalidade: Um revisor brasileiro no Goodreads argumenta que o capítulo "Telling by hand" sobrepõe-se significativamente ao conceito de metis de James Scott, mas de forma menos clara e concisa que este .
Ausências e Silêncios Significativos
Uma crítica contundente, embora de um único revisor, aponta que Ingold "descarta como 'malsucedidas' as poucas 'colaborações entre antropólogos e profissionais das artes que ocorreram'" – com exceção do trabalho de Schneider e Wright –, mas falha em reconhecer a importância de Kandinsky como "o primeiro pintor modernista a fazer uma contribuição real para a Antropologia" com base em seu próprio trabalho de campo etnográfico .
A Proposta Metodológica: Aprender com, não sobre
Uma das formulações mais citadas e apreciadas do livro é a distinção entre "aprender sobre" e "aprender com". Como sintetiza um leitor: "o ponto que mais me tocou... foi: aprender com/em vez de aprender sobre" . Esta distinção encapsula a virada epistemológica proposta por Ingold: o conhecimento não é aquisição de informações sobre um mundo exterior, mas engajamento participativo em um mundo do qual fazemos parte.
Conclusão e Avaliação Geral
Making representa uma contribuição significativa para o pensamento contemporâneo sobre materialidade, prática e conhecimento. Sua força reside na capacidade de articular criticamente tradições filosóficas (especialmente fenomenologia e pós-estruturalismo) com exemplos concretos extraídos da prática artesanal, arquitetônica e artística.
Pontos fortes:
Originalidade na integração disciplinar
Prosa acessível e envolvente
Exemplificação concreta de conceitos abstratos
Amplo espectro de referências interdisciplinares
Limitações:
A segunda metade do livro apresenta densidade excessiva de citações
Alguns conceitos-chave (como meshwork) poderiam ser mais desenvolvidos
O tom por vezes didático pode soar condescendente para leitores mais avançados
A aplicabilidade em contextos históricos e sociais específicos demanda cautela
O livro é particularmente recomendado para estudantes e profissionais de antropologia, arquitetura, design, artes visuais e estudos de cultura material, oferecendo um vocabulário conceitual renovado para pensar a relação entre pensamento e ação, teoria e prática, mente e matéria
Nenhum comentário:
Postar um comentário