Minha trajetória na educação começou muito antes de eu pisar em uma sala de aula como professor. Começou na infância, quando, com 5 anos escrevi meu primeiro livro para dar de presente a minha mãe, como um dos melhores alunos da turma, descobri que escrever, ensinar e viver era a forma mais profunda de aprender. Ajudei colegas na escola, vizinhos na comunidade e fiéis na igreja fundada por minha avó — ali, entre bancos de madeira e cadernos rabiscados, entendi que o conhecimento não se guarda, se compartilha.
Essa vocação me levou a ensinar no Colégio Batista, em escolas públicas, em cursinhos comunitários para jovens que, como eu, acreditavam que a educação era a chave para transformar suas vidas. Paralelamente, atuei como empresário júnior, Fellow Ashoka, Empreendedor de Sonhos, consultor do Banco Mundial, cineasta e pesquisador. Palestrei em universidades de todos os estados brasileiros por mais de 15 anos, até a pandemia me fazer recolher, repensar e, sobretudo, retornar à escola pública — desta vez, como professor.
Hoje, sou professor da rede pública, formado pela UFC, onde formamos no CA Paulo Freire uma tarefa de apoio aos mais de 50 professores concursados. Nosso objetivo sempre foi claro: levar para a sala de aula as vozes de Freire, Vygotsky, Wallon, Edgar Morin, Ranciére, Deleuze, Foucault, Bergson e tantos outros que nos ensinam que o pensamento crítico, criativo, interdisciplinar, complexo e sistêmico não é luxo teórico — é ferramenta de sobrevivência e emancipação. Trabalhamos para que o letramento em português, matemática, ciências, história e espacialidade aconteça brincando, com as cem linguagens da criança, com ética e estética na educação infantil
A pesquisa e a produção acadêmica são pilares da minha atuação como professor da rede pública, especialmente por minha vinculação à Universidade Federal do Ceará (UFC). È lá que mantenho minha conexão com a produção de conhecimento crítico sobre a educação, onde me formei em Cinema, Pedagogia, estudo Economia Ecológica, Biologia na UFRJ, e Ciência de dados na USP.
Como membro do Grupo de Estudos e Pesquisas em Didática e Formação Docente (DOCA/UFC), tenho a oportunidade de investigar, junto a outros pesquisadores, as relações didático-pedagógicas presentes na formação docente. Este grupo estuda a formação da identidade e a profissionalização do professor, bem como os elementos sociais imbricados na formação dos sujeitos, temas que dialogam diretamente com a prática em sala de aula e com a proposta de uma Educação Integral para a Vida. Além disso, minha integração com a pesquisa da Dra, Sindy Gabrielly Holanda Oliveira — cujo trabalho "Estudar para ser gente": trajetórias educacionais de pessoas negras é fundamental para compreender os desafios enfrentados por jovens como Marcus — reforça o compromisso do grupo com a produção científica que impacta a realidade escolar.
Essa imersão no ambiente acadêmico se reflete na publicação de artigos e na participação em eventos científicos, onde compartilho experiências e reflito sobre práticas pedagógicas inovadoras. A produção acadêmica, aliada à atuação direta na escola pública, me permite construir pontes entre a teoria e a prática, entre a universidade e a comunidade.
Em poucos meses, organizamos uma audiência no Ministério Público para denunciar a situação das escolas públicas: salas sem espaços para brincar, falta de material pedagógico, analfabetismo estrutural, salas de aula quentes e insalubres. Sistematizamos essas formações com apoio de Professores, UFC, nos filiamos ao SINDIUTE e fui eleito representante da escola, lutamos nas ruas, em assembleias e nas redes sociais — denunciando e propondo. Porque acredito que a educação não se faz só dentro dos muros da escola, mas na rua, na comunidade, na política.
Ao longo dessa jornada, apoiei a criação de bibliotecas comunitárias. A minha tem mais de 2 mil livros — e cada um deles me formou. Li tudo o que pude: livros de todas as áreas, assisti a filmes, vivi experiências nos mais diversos setores da sociedade — no esporte, na arte, no meio ambiente, nas tecnologias, nas espiritualidades, com amigos e com minha família, ao lado do meu filho. Foi pesquisando, aprendendo e propondo que construí uma visão de Educação Integral para a Vida, que agora apresento trechos deste livro que ora compartilho com vocês.
A Educação Integral para a Vida que proponho não é um manual. É uma jornada de reconexão como mostra a pesquisa de Sindy Holanda, jovens como Marcus, negro de Viamão, abandonam a escola porque ela não dialoga com seu mundo. A escola tradicional não vê o aluno como um universo, mas como uma categoria — e a categoria "negro" é carregada de estigmas. Eu desde jovem convivo com comunidades indígenas e quilombolas onde a escola é a própria vida e outras fôrmas de existências, existências, de viver com a Terra
Por isso, defendo práticas como a Caixa de Papelão: construir uma cidade com caixas, onde a criança não é um estereótipo, mas arquiteta, designer, escriba. Uma prática que resgata a potência criativa, a alegria spinoziana e a interação social. Defendo o Boletim da Vida Inteira — não notas de disciplinas, mas dimensões como Resiliência, Criatividade, Amorosidade, Cidadania Ativa. Um boletim que avalie a resiliência de quem chega à escola depois de "pular a roleta" do ônibus, que enxergue o aluno não pelo que lhe falta, mas pelo que ele desenvolve para sobreviver e resistir.
Defendo o Currículo Vivo: a praça abandonada do bairro vira aula de matemática, português e ciências. O aluno para de perguntar "para que serve a fração?" porque usa a fração para um problema real do seu território. Defendo a Aula-Tribunal, inspirada na cultura persa e na Cabala (Tikkun Olam — reparar o mundo), para que a comunidade aprenda a investigar, ouvir testemunhas e basear acusações em provas, não em estereótipos raciais. Defendo o Diário do Professor como Pista, o olhar do detetive que busca no caderno, no desenho, na fala do aluno não o que falta, mas o que ele tem a nos ensinar.
Defendo a Tapeçaria Global: o trabalho de capinar se transforma em ciência, estética e ética. A caneta e a enxada deixam de ser opostas e se tornam ferramentas complementares de transformação. Defendo os Verbos da Semana — reparar o mundo, lembrar, não ficar indiferente — para que o aluno não apenas "aguente" as piadas racistas, mas a turma toda aprenda a mediar conflitos e apoiar a vítima. Defendo a Avaliação como Órbita: ver o crescimento não como linha reta de acertos, mas como espiral, onde a cada volta retornamos aos mesmos problemas de um ângulo diferente, com mais ferramentas.
Defendo o Professor-Cineasta, a sala de aula como série de filmes existenciais e ecológicos, onde o trabalho se torna expressão de si. Defendo Pensar Antes de "Googlar" — para que o aluno seja produtor de perguntas, não consumidor de respostas. Defendo o Letramento Ecológico, onde o aluno não aprende sobre o mundo, mas ele é parte da natureza, e vive um microcosmo dele. Defendo a Dança do Mundo e o Arquivo Vivo do Solo, onde o conhecimento não é um instantâneo, mas duração, memória, criação e autonomia.
E defendo, acima de tudo, a Hora do Shabat Escolar: 60 minutos por semana sem produtividade, apenas presença. Um espaço para o luto, para a partilha, para a pergunta que não tem resposta pronta: "Como ser feliz mesmo com tanta injustiça?" A escola se torna, então, um espaço de esperança informada pelo trauma, onde o aluno aprende que agir imperfeitamente é mais humano do que a pureza paralisante.
Concluo com projetos de lei que traduzem essa visão em políticas públicas:
1. Projeto de Lei do Currículo Vivo e Territorial — que institui que cada escola pública elabore, com a participação da comunidade, um currículo que integre o território, a família e os saberes locais às disciplinas obrigatórias, garantindo que o aprendizado esteja conectado à vida real dos alunos.
2. Projeto de Lei do Boletim Integral — que substitui, progressivamente, o boletim tradicional por um documento que avalie dimensões como resiliência, criatividade, cidadania ativa e colaboração, em diálogo com as famílias e com a comunidade, reconhecendo as múltiplas inteligências e trajetórias dos estudantes.
3. Projeto de Lei das Cem Linguagens e dos Espaços Lúdicos — que garante a todas as escolas públicas espaços adequados para brincar, criar e expressar, com materiais pedagógicos diversificados, e que inclui no currículo as linguagens artísticas, corporais e digitais como partes integrantes do processo de alfabetização e letramento.
4. Projeto de Lei da Biblioteca Comunitária e Rede de Saberes — que fomenta a criação e manutenção de bibliotecas comunitárias em cada escola, em parceria com os setores da sociedade, e institui programas de leitura, cinema e troca de saberes intergeracionais, conectando crianças, jovens, adultos e idosos.
5. Projeto de Lei da Formação Docente em Pensamento Complexo — que estabelece a formação continuada de professores em uma abordagem interdisciplinar e sistêmica, com base em Freire, Vygotsky, Wallon, Morin, Rancière, Deleuze, Foucault, Bergson e outros, para que a escola pública seja, de fato, um espaço de criação de si e de transformação social.
Esses projetos não são fórmulas prontas. São convites. Convites para que a escola deixe de ser uma máquina de produzir desigualdade e se torne um território de criação de si. Convites para que o professor seja um diretor de cinema, o currículo um rio, o boletim um espelho de potências.
Que este texto não seja apenas lido. Que seja vivido. E que, ao final da jornada, nenhum jovem precise mais se perguntar "quem sou eu perto de fulano?", mas possa afirmar, com a cabeça erguida: "Eu sou alguém. Meu suor regou essa terra. Minha escrita vai mudar esse mundo. E eu, finalmente, sou gente."


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