O Brasil envelheceu antes de enriquecer
O Brasil envelheceu antes de enriquecer
O Brasil vive hoje a mais previsível transformação estrutural das próximas décadas. E, ainda assim, continua tratando esse movimento como se fosse um problema distante. O país envelhece em ritmo acelerado, com baixa produtividade, renda per capita limitada, fortes desigualdades e uma base industrial fragilizada. Envelhecemos antes de enriquecer, o que pode soar ultrajante para a nona maior economia global.
E mais: corremos o risco de envelhecer também antes de desenvolver uma economia mais sofisticada, inovadora e preparada para sustentar esse novo perfil demográfico, já que a posição no top dez mundial vem principalmente de nossa lavoura.
Trata-se aqui não de apenas uma mudança etária, mas de uma mudança econômica, transformada com ainda mais velocidade diante da ascensão da inteligência artificial e seus agentes autônomos.
Em 1980, apenas 6% da população brasileira tinha 60 anos ou mais. Em 2050, esse grupo deve representar cerca de 30% da população, ultrapassando 64 milhões de pessoas, segundo projeções do IBGE. Ao mesmo tempo, a taxa de fecundidade caiu para 1,6 filho por mulher, abaixo do nível de reposição populacional de 2,1.
Isso significa que teremos, progressivamente, menos jovens entrando no mercado de trabalho e mais idosos demandando renda, serviços de saúde, cuidados e políticas públicas adaptadas a uma sociedade longeva.
O problema brasileiro não está no envelhecimento em si. Está no contexto em que ele acontece.
Países como Japão, Alemanha e França envelheceram depois de consolidar renda elevada, sistemas de proteção social robustos, forte capacidade industrial e ganhos sustentados de produtividade. O Brasil faz esse percurso com renda per capita em torno de US$ 10 mil, baixa sofisticação produtiva e contas públicas pressionadas.
Quando um país envelhece sem ter construído uma economia forte o suficiente, o desafio demográfico, além de ser uma questão social, passa também a ser uma preocupação do mercado e um limitador do próprio desenvolvimento econômico.
O envelhecimento já mudou o mercado de trabalho
Esse processo já está em curso. Em dez anos, a população com 60 anos ou mais cresceu 37%, enquanto o número de idosos ocupados aumentou 53%, chegando a 8,7 milhões de pessoas em 2025. Hoje, os trabalhadores com 60 anos ou mais já representam 25% do mercado de trabalho brasileiro, e mais da metade deles está na informalidade.
O dado é eloquente porque mostra que o envelhecimento não está produzindo somente longevidade, mas permanência prolongada no trabalho, muitas vezes por necessidade financeira e em condições frágeis de proteção social e produtividade.
Uma coluna recente de Marcelo Tokarski, publicado na Folha de S.Paulo, resume essa contradição: o Brasil envelhece trabalhando mais e ganhando relativamente menos. Entre 2016 e 2025, a renda dos jovens cresceu 15,4%, enquanto a dos trabalhadores com mais de 60 anos avançou apenas 4,2%. Isso revela um país em que a longevidade não está necessariamente associada a uma vida economicamente mais segura, mas muitas vezes à necessidade de permanecer produtivo em um mercado que ainda não se reorganizou para absorver melhor essa transição demográfica.
O ponto não é defender uma leitura assistencialista do envelhecimento, nem tratar o aumento da participação dos mais velhos no mercado como algo necessariamente negativo. Permanecer ativo pode ser desejável, saudável e economicamente positivo. O problema está quando essa permanência ocorre sem políticas de requalificação, sem combate ao etarismo, sem reorganização do trabalho e sem setores dinâmicos capazes de absorver trabalhadores mais experientes em funções de maior valor agregado.
Envelhecer em uma economia pouco sofisticada custa mais caro
O Brasil chega a essa transição depois de um longo processo de desindustrialização precoce. Em artigo anterior, mostrei que países desenvolvidos começaram a reduzir a participação relativa da indústria quando já tinham alcançado renda per capita entre US$ 20 mil e US$ 25 mil, preservando o comando de setores estratégicos e intensivos em tecnologia. O Brasil iniciou esse processo com renda per capita muito menor, em torno de US$ 10 mil, sem consolidar uma economia de serviços sofisticados nem uma indústria de alta complexidade capaz de sustentar produtividade, inovação e empregos qualificados.
Uma economia menos industrializada, menos tecnológica e menos intensiva em conhecimento tende a oferecer menos postos qualificados, menor crescimento de produtividade e menor capacidade de financiar políticas públicas robustas no longo prazo.
Esse efeito aparece na fragilidade das cadeias produtivas, na dependência maior de importações tecnológicas, na dificuldade de gerar empregos industriais bem remunerados e na limitação de setores capazes de absorver diferentes perfis de trabalhadores ao longo da vida.
Quando um país perde indústria antes de ficar rico, o prejuízo vai muito além do fechamento de fábricas. Ele perde um dos principais motores de difusão tecnológica, formação de capital humano, ganhos de escala e mobilidade econômica. Isso se torna ainda mais grave quando a base demográfica começa a encolher e o peso relativo dos inativos cresce.
O envelhecimento também pode ser agenda de inovação
Há, porém, um erro recorrente nesse debate: tratar o envelhecimento apenas como custo. Ele é, sem dúvida, um fator de pressão sobre previdência, saúde e finanças públicas. Mas também pode se tornar vetor de inovação, mercado e desenvolvimento.
Países desenvolvidos vêm estruturando aquilo que se convencionou chamar de economia da longevidade, reunindo soluções em saúde, habitação adaptada, turismo, mobilidade, educação continuada, bem-estar, cuidados de longa duração, serviços financeiros e tecnologias assistivas.
O Brasil tem escala para desenvolver esse mercado. Se o país terá mais de 64 milhões de pessoas com 60 anos ou mais em 2050, isso significa demanda crescente por novos serviços, novos produtos, novos modelos de cuidado e novas tecnologias.
Em regiões como Porto Alegre e o eixo de inovação da Região Metropolitana, esse potencial já começa a aparecer com a consolidação de hubs de startups de saúde — as health techs — e de deep techs voltadas para soluções de alto conteúdo tecnológico, especialmente em diagnóstico, monitoramento e cuidados de longa duração.
No Tecnosinos, por exemplo, a Biosens, deep tech da qual sou co‑fundadora, nasceu da necessidade de ampliar o acesso ao diagnóstico laboratorial e simplificar a realização de testes, desenvolvendo biossensores e dispositivos de point‑of‑care capazes de levar exames portáteis, rápidos e de menor custo diretamente ao paciente.
Ao transformar sinais biológicos em dados acionáveis, por meio de tecnologias como biossensores avançados, microfabricação e inteligência artificial, a Biosens ilustra exatamente o tipo de inovação que um país envelhecido precisa: soluções que tornem o cuidado mais acessível, descentralizado e eficiente, conectando desenvolvimento tecnológico à qualidade de vida da população que envelhece.
O que precisa mudar agora
O Brasil não resolverá esse desafio com medidas isoladas. Envelhecimento populacional, produtividade, indústria, educação e inovação precisam deixar de ser agendas tratadas em compartimentos separados. O país precisa de um projeto de desenvolvimento que reconheça a nova composição demográfica e reorganize suas prioridades a partir dela.
Isso começa por cinco frentes.
1ª - Fortalecer a educação técnica e profissional ao longo de toda a vida, aproximando formação, requalificação e demanda produtiva; o chamado long life learning (aprender por toda a vida).
2ª - Criar condições para uma reindustrialização orientada por tecnologia, eficiência e setores de maior valor agregado, para que o país não envelheça preso a uma economia de baixa complexidade.
3ª - Adaptar o mercado de trabalho, combatendo o etarismo e criando modelos que valorizem a permanência produtiva dos trabalhadores mais experientes.
4ª - Incentivar a economia da longevidade como fronteira estratégica de inovação e novos negócios.
5ª - Recuperar capacidade de planejamento de longo prazo, porque uma transição previsível não pode continuar sendo tratada como surpresa.
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