SABERES TRANSDISCIPLINARES E ORGÂNICOS.

terça-feira, 21 de julho de 2026

Viver entre a Mística, a Moral, a Liberdade, a Escuridão, o Tempo, as Coisas Materiais e a Imaginação. Por Egidio Guerra.




Vivemos tempos de fragmentação. O sujeito moderno, proclamado soberano pela doutrina liberal, encontra-se, na prática, aprisionado num labirinto de abstrações: ora reduzido a um feixe de preferências subjetivas, ora sufocado pela acumulação de objetos inertes, ora cego pela claridade excessiva de uma razão que já não distingue a árvore da floresta. Para habitar verdadeiramente o mundo — e não apenas geri-lo — somos convocados a uma tarefa hercúlea: tecer uma existência que reconcilie o apelo da mística com o rigor da moral, a ânsia de liberdade com a espessura do tempo, a opacidade da matéria com a potência visionária da imaginação. Os pensadores que nos guiam neste percurso não nos oferecem consolos fáceis, mas sim ferramentas para escavar a complexidade do real. 

A primeira armadilha que se ergue diante de nós é o primado das coisas materiais. Iain McGilchrist, em The Matter With Things, diagnostica o mal-estar contemporâneo como uma hegemonia do hemisfério esquerdo do cérebro: uma visão que despedaça o mundo em partículas manipuláveis, reduzindo a realidade a meros correlatos utilitários. A matéria, assim, deixa de ser o solo fértil da experiência para se tornar um estoque de recursos. Esta lógica da fragmentação estende-se à própria liberdade. Patrick Deneen, em Why Liberalism Failed, demonstra como o ideal liberal de autonomia negativa, ao desenraizar o indivíduo de tradições e comunidades, não o libertou, mas o entregou à tirania do mercado e do Estado. A liberdade tornou-se um direito vazio, desprovido de qualquer telos substantivo, gerando solidão e servidão voluntária sob o manto do consumo. 

Esta perda de orientação é o cerne da crise moral dissecada por Alasdair MacIntyre em After Virtue. Sem uma narrativa coerente que conecte o passado, o presente e o futuro, a linguagem ética degenera em emotivismo — meras exclamações de gosto e aversão. Perdemos o conceito de virtude como hábito que nos conduz à eudaimonia, o florescimento humano, porque abandonamos a noção de que a vida é uma unidade narrativa. MacIntyre nos recorda que a moral não é um código intemporal, mas uma prática enraizada em comunidades que partilham uma história. A resposta a esta crise, no entanto, não pode ser um retorno nostálgico a um passado idealizado, mas exige uma reinvenção radical do nosso enraizamento no tempo. 

James K. A. Smith, em How to Inhabit Time, confronta a nossa ansiedade existencial perante o fluxo cronológico. A modernidade tenta domesticar o tempo, transformando-o numa linha reta e mensurável — um recurso a ser otimizado. Porém, habitar o tempo autenticamente é abraçar a sua espessura litúrgica: é carregar o peso das memórias que nos constituem (a tradição) e estender-se em direção a um futuro que não controlamos, mas que esperamos. É neste intervalo, nesta espera ativa, que a escuridão se revela não como ausência, mas como condição de possibilidade para o encontro com o transcendente. 

É precisamente aí que a mística e a escuridão irrompem como antídotos contra a soberba da razão analítica. Simon Critchley, em Mysticism, e James K. A. Smith, em Make Your Home in This Luminous Dark, convergem ao apontar a via negativa como o caminho para o real. A mística não é uma fuga irracional, mas a coragem de encarar o "não saber" — o agnosia — como a única postura adequada diante do mistério que sustenta o ser. A escuridão luminosa de que fala Smith não é o caos, mas o útero gerador de sentido, onde as certezas do hemisfério esquerdo se dissolvem para que a totalidade viva do mundo (o hemisfério direito, segundo McGilchrist) possa ser novamente intuída. É nas bordas do indizível, onde a linguagem titubeia, que a mística resgata a dimensão poética e sacrificial da existência, oferecendo um escape à lógica estéril da utilidade. 

Contudo, como transpor este abismo entre a fragmentação material e a unidade mística? A ponte é a imaginação teológica, tal como formulada por Judith Wolfe em The Theological Imagination. Longe de ser mero devaneio estéril, a imaginação é a faculdade primária da percepção — o órgão que nos permite interpretar a realidade como um dom, e não como um dado bruto. Wolfe mostra que a fé e a arte partilham esta estrutura hermenêutica: ambas moldam o que vemos ao nos ensinarem como ver. A imaginação não foge da matéria; pelo contrário, ela a satura de significado, revelando que as coisas não são apenas objetos físicos, mas portadoras de glória e de sofrimento. É ela que resgata a narrativa moral que MacIntyre considera perdida, ao reconfigurar o passado e o futuro num presente denso de vocação. 

Assim, viver entre estes polos é aceitar a tensão constitutiva da condição humana. Não podemos abandonar a matéria, pois somos corpóreos; mas devemos recusar o materialismo que a coisifica, utilizando antes a imaginação para ver nela o eco de algo maior. Não podemos descartar a moral, mas precisamos recuperá-la das garras do emotivismo, ancorando-a na tradição e na virtude, sem cair no tradicionalismo rígido. A liberdade exige a crítica de Deneen para despir-se do individualismo tóxico e reencontrar-se na dependência mútua da comunidade. O tempo deve ser habitado com a paciência de quem espera na escuridão, confiando que a noite é o véu da proximidade divina, enquanto a mística nos ensina a linguagem do silêncio e do espanto. 

O resultado não é uma síntese pacífica, mas um equilíbrio instável e criativo. Como bem sintetiza a obra de McGilchrist, a sabedoria está em atender à totalidade sem desprezar as partes, em usar a precisão analítica a serviço da visão compreensiva. Ao integrarmos a crítica de MacIntyre, a denúncia de Deneen, a fenomenologia temporal e mística de Smith, a neuro-filosofia de McGilchrist e a hermenêutica visionária de Wolfe, descobrimos que a existência autêntica é um ato de alquimia espiritual: transformamos a opacidade do mundo material em ícone, a solidão da liberdade em comunhão, a ansiedade do tempo em esperança, e a rigidez da moral em compaixão. 

Viver, afinal, é navegar entre a claridade cegante do conceito e a escuridão fecunda do mistério, sabendo que a imaginação é a bússola, a virtude é o leme, o tempo é o mar, e a mística é o horizonte que nunca alcançamos, mas que confere direção à viagem. Nas palavras de Smith, a casa que construímos na escuridão luminosa é a única morada possível para uma alma que recusa ser aprisionada pelas coisas, mas que insiste em ver nelas o reflexo de uma beleza que a razão, sozinha, jamais poderá domesticar. 

 

Nenhum comentário:

Postar um comentário