O Ártico de Tamara Klink não é um útero. É uma matriz gelada, um não-lugar para a vida orgânica que conhecemos. E, no entanto, é ali, no silêncio absoluto da invernagem, que ela gesta algo muito mais potente do que um novo ser humano: ela gesta uma nova forma de existir no mundo.
A sociedade patriarcal sempre definiu o destino feminino a partir da biologia. O útero, nessa lógica, seria o cativeiro sagrado — o lugar onde se gestam os corpos que manterão a engrenagem da sociedade atual em funcionamento. Mas Tamara, como outras mulheres que desbravaram seus caminhos — de Cheryl Strayed às navegadoras solitárias, de Virginia Woolf às cientistas que desafiaram o gelo —, subverte esse lugar-comum. O útero deixa de ser o símbolo do confinamento doméstico para se tornar o epicentro da criação de outras sociedades possíveis.
Uma das passagens mais cortantes de Bom dia, inverno é quando Tamara confessa que, na imensidão branca, preferia deparar com um urso polar a encontrar um homem. Quando uma mulher coloca a ferocidade da natureza selvagem abaixo da ameaça de um desconhecido, somos obrigados a encarar o óbvio: o maior perigo para as mulheres não ronda nas montanhas ou nos oceanos, mas nas estruturas que construímos para abrigá-las. A sociedade que insiste em colocar o destino feminino dentro de casa é a mesma que a devora quando ela ousa sair. Preferir o urso é preferir o risco honesto da natureza ao risco perverso da cultura. É dizer: "Antes o gelo que me queima do que o olhar que me aprisiona."
E aqui entra a genialidade silenciosa de Amir Klink. Muitos imaginariam que o pai navegador lhe abriria os mares com mapas e atalhos. Ele fez o contrário. Recusou-se a pavimentar o caminho da filha, não por negligência, mas por uma confiança radical. Ensinou-lhe a construir a própria bússola errando. Ao não entregar o destino a ela de mão beijada, ele a obrigou a cavar o próprio chão. E ao cavar, Tamara não encontrou o legado do pai; encontrou a argila fértil de sua própria voz. Esse é o verdadeiro ato de nutrir uma nova sociedade: não proteger a mulher do mundo, mas devolvê-la a si mesma para que ela decida que mundo quer habitar.
Lendo Tamara, percebo que sua jornada não é sobre provar nada a ninguém. Essa é a armadilha que muitas mulheres caem — a de performar a força para ser aceitas. Tamara vai ao Ártico porque sua curiosidade e sua ambição a chamam. Ponto. Ela não escala montanhas para calar misóginos; escala porque a montanha (ou o gelo) faz parte de seu direito inalienável de sonhar. E é exatamente essa liberdade de agir por desejo, e não por reação, que nutre as futuras sociedades. Quando uma mulher ocupa um espaço simplesmente porque ele lhe pertence por direito de existência, ela rasga o contrato social antigo e costura um novo, onde a autonomia feminina não precisa de justificativa.
Ainda há quem estranhe uma mulher sozinha atravessando oceanos ou passando um inverno inteiro no Ártico. Mas eu estranho é o nosso espanto diante da liberdade feminina. Estranho é acharmos que o útero só serve para gerar filhos para a nação, quando ele pode — metaforicamente — gerar coragem, literatura, ciência e novos paradigmas. Tamara, em sua cabana congelada, gestou a si mesma. E ao narrar essa gestação, ela nos oferece um colo simbólico para todas as mulheres que ainda tremem diante do "não pertenço".
O destino de uma mulher, quando confiado a ela mesma, transborda os limites do lar e vai alimentar, com histórias de coragem, a alma coletiva da humanidade. Nutrir outras sociedades não é, portanto, um ato passivo de cuidado com o que já existe; é um ato revolucionário de imaginar o que ainda não é. E para isso, às vezes, é preciso atravessar o gelo, preferir o urso ao homem e escrever, com a própria mão, o mapa de um mundo onde o espanto diante da mulher livre finalmente se extingue.
Nenhum comentário:
Postar um comentário