Escrevo esta carta não para celebrar títulos ou reconhecimentos, mas para compartilhar uma jornada que começou no chão do Brasil e se estendeu por continentes, construindo pontes onde muitos viam muros. Como Deputado Federal com mandato proponho dedicar como missão criar pontes com Cooperação Internacional e o Brasil como microcosmo do Mundo– uma honraria como compromisso. E é desse lugar de fala e de escuta que quero contar a história de uma rede que hoje chamo de Terra da Sabedoria.
1. O começo: Teia de Luz e a USAID
Tudo começou com a Rede Profissionalizante de Jovens Teia de Luz, um projeto que desenvolvi em parceria com a USAID (Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional). A ideia era simples e ousada: tirar jovens das margens e colocá-los no centro de suas próprias histórias, com formação técnica, acesso ao mercado de trabalho e, acima de tudo, com a certeza de que o futuro se constrói com as próprias mãos. Foram mais de 5.000 jovens atendidos em comunidades de alta vulnerabilidade social, com uma taxa de empregabilidade que superou os 70% nos dois primeiros anos. A Teia de Luz mostrou que a cooperação internacional não precisa ser uma via de mão única – ela pode (e deve) ser um fio que tece redes locais, fortalecendo cada nó.
2. Inovação social no Banco Mundial
Dessa experiência, nasceu o desejo de levar a inovação social para o centro das decisões globais. Foi então que atuei junto à sociedade civil no Banco Mundial, criando uma área de inovação social dentro da instituição. O objetivo era garantir que as vozes das comunidades, dos movimentos populares e dos agentes locais não fossem apenas ouvidas, mas protagonistas na formulação de políticas. Essa área se tornou um espaço permanente de diálogo, influenciando diretamente projetos em mais de 15 países da América Latina e África.
3. Rede Nós e o Banco do Nordeste
No Brasil, articulei com o Banco do Nordeste a Rede Nós, um programa de redução da pobreza que visava sinergias entre vários setores e as comunidades. Com foco no semiárido, a Rede Nós apoiou famílias e projetos em 80 municípios, em rede gerando renda e dignidade onde a seca parecia ter a última palavra. Os números falam por si: redução de 35% nos índices de pobreza extrema nas comunidades atendidas nos primeiros anos de projeto.
4. A Primeira Feira do Conhecimento da ONU no Brasil
Em Barbalha, no Ceará, tive a honra de trazer ao Brasil a Primeira Feira do Conhecimento da ONU – um evento que reuniu mais de 10 mil participantes entre gestores públicos, empreendedores sociais, acadêmicos e lideranças comunitárias. Realizada em parceria com o PNUD, a feira teve como eixos temáticos o turismo, a erradicação da pobreza, a inclusão produtiva sustentável e o fortalecimento institucional. Foi ali que lançamos o Pacto da Erradicação da Pobreza do Ceará, com a presença do representante-residente do PNUD, Jorge Chediek. Barbalha, com seus 52 mil habitantes, tornou-se um símbolo de que o conhecimento pode florescer em qualquer lugar.
5. Cartão da Juventude no Chile
A experiência com jovens no Brasil me levou a contribuir com o Cartão da Juventude no Chile – uma política pública que garantiu a mais de 200 mil jovens chilenos acesso a transporte, cultura, educação e saúde com descontos e benefícios. Foi um aprendizado profundo sobre como as políticas de juventude podem ser desenhadas a partir da escuta ativa e da participação direta dos jovens.
6. Sarajevo, pós-guerra
Em Sarajevo, no período imediato ao pós-guerra dos Bálcãs, atuei em projetos de reconstrução do tecido social, com foco em jovens e mulheres. Atuamos com as comunidades, promovendo diálogo interétnico e programas de direitos humanos. A experiência me ensinou que a cooperação internacional, em contextos de conflito, é antes de tudo um exercício de humanidade.
7. África Líderes e o Prêmio na Espanha
Da Bósnia à África, criei o programa África Líderes, que formou mais de 30 jovens lideranças de 12 países africanos oriundos da UNILAB e outras Universidades em Fortaleza em áreas como governança, empreendedorismo e tecnologias sociais.
8. Docência e palestras internacionais
Minha trajetória também me levou às salas de aula. Fui professor de estudantes de universidades americanas e belgas, compartilhando experiências sobre cooperação internacional e desenvolvimento. Realizei palestras para jovens líderes europeus de 14 países na República Tcheca, onde discutimos os desafios e as oportunidades de uma governança global mais justa e participativa.
Em Washington, palestrei no Banco Mundial e, em Nova York, visitei a ONU e palestrei na Universidade de Columbia, onde dialoguei com estudantes e pesquisadores sobre o papel do Brasil na cooperação internacional. Na Alemanha, realizei palestras e reuniões em universidades, fortalecendo parcerias institucionais.
9. Projetos culturais e redes latino-americanas
A cultura também é ponte. Desenvolvi projetos com uma artista da Sérvia, criando intercâmbios artísticos que uniram Brasil e Bálcãs. Indiquei Fellows do Equador para programas de liderança global, e participei de encontros com líderes latino-americanos na Argentina, onde construímos agendas comuns para o desenvolvimento regional.
10. O Blog e a rede de 21 países
Para conectar todas essas experiências, criei um blog voltado para jovens, que hoje reúne leitores de 21 países. Nele, compartilho reflexões, casos de sucesso e convites para ação. É um espaço de troca, onde as fronteiras se dissolvem e o que importa é a força das ideias.
A Terra da Sabedoria
Todos esses fios – da USAID ao Banco Mundial, do Banco do Nordeste à ONU, de Barbalha a Sarajevo, do Chile à África, das universidades americanas às europeias – se entrelaçam em uma única rede: a Terra da Sabedoria.
Não se trata de uma organização, nem de um programa. É um movimento, uma comunidade de prática, uma aliança global que articula, a partir do Brasil, embaixadores em diversos setores – juventude, cultura, educação, governança, inovação social e paz. São pessoas que, como eu, acreditam que é possível construir outras formas de ser, viver e governar na civilização que chamamos de Terra da Sabedoria.
Essa civilização não está no futuro. Ela está sendo tecida agora, em cada encontro, em cada projeto, em cada ponte que construímos. Ela está nos jovens da Teia de Luz, nas famílias da Rede Nós, nos líderes africanos, nos estudantes de Columbia, nos artistas da Sérvia, nos fellows do Equador. Ela está em cada um de vocês que leem esta carta.
Sigo acreditando que a cooperação internacional não é um fim em si mesma, mas um meio – um meio para que possamos, juntos, redesenhar os contornos da nossa humanidade. E que, do Brasil, possamos continuar semeando sabedoria pelo mundo.
PROPOSTAS DE PROJETOS DE LEI — AGENDA LEGISLATIVA DA COOPERAÇÃO INTERNACIONAL
PL 1/2027 — Estatuto da Cooperação Técnica Internacional para Cidades Pobres
Ementa: Institui o Programa Cidades Globais, destinado a captar recursos de cooperação técnica e financeira internacional para municípios com menor Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), e estabelece a figura do Agente de Cooperação Municipal.
Justificativa: As cidades pobres brasileiras são excluídas dos fluxos de cooperação internacional por falta de capacidade técnica para acessar editais e fundos. Este projeto cria uma estrutura nacional de apoio, com escritórios de captação em cada estado e uma plataforma digital que conecta prefeituras a doadores internacionais (USAID, União Europeia, bancos de desenvolvimento, fundos bilaterais).
Principais dispositivos:
Criação do Fundo Brasil-Cooperação, com contrapartida do governo federal para alavancar recursos internacionais.
Instituição do Cadastro Nacional de Projetos Prioritários, com análise prévia de viabilidade técnica e ambiental, reduzindo o tempo entre a captação e a execução.
Autorização para que municípios com até 50 mil habitantes contratem consultorias especializadas em cooperação internacional com recursos do fundo.
Previsão de metas de redução da pobreza vinculadas aos projetos, com monitoramento por indicadores da ONU (ODS).
PL 2/2027 — Marco Legal do Financiamento Internacional para ONGs e Organizações da Sociedade Civil
Ementa: Estabelece um regime jurídico diferenciado para o recebimento de recursos de cooperação internacional por organizações da sociedade civil, garantindo transparência, eficiência e segurança jurídica.
Justificativa: O Brasil carece de um marco legal claro que facilite, em vez de burocratizar, o acesso de ONGs a recursos internacionais. O PL 5198/2023, que tramita na Câmara, trata do tema sob a ótica da transparência, mas é necessário avançar para um modelo que estimule a captação de recursos para projetos de impacto social, especialmente em áreas como erradicação da pobreza, mudanças climáticas e inovação social — exatamente as frentes em que atuei com a Rede Nós e o Banco do Nordeste.
Principais dispositivos:
Criação do Selo Cooperação Transparente, que confere às ONGs certificadas tramitação prioritária em convênios com o poder público e isenção de taxas em processos de registro de projetos.
Estabelecimento de prazos máximos para análise de projetos por órgãos de controle (60 dias para pareceres técnicos, 30 dias para análise jurídica).
Autorização para que ONGs atuem como executoras diretas de projetos de cooperação descentralizada, sem a necessidade de intermediação obrigatória por entes públicos.
Criação de um Portal Único da Cooperação, reunindo todos os editais internacionais abertos para o Brasil, com tradução e suporte técnico para submissão de propostas.
PL 3/2027 — Programa Nacional de Turismo Acadêmico e Social
Ementa: Institui o Programa Pontes do Saber, voltado ao intercâmbio acadêmico, científico e cultural entre instituições brasileiras e estrangeiras, com ênfase em estudantes de baixa renda e comunidades periféricas.
Justificativa: O PL 2849/24 já institui o turismo educacional para estudantes do ensino público. Este projeto amplia esse conceito para o âmbito internacional, criando um programa de intercâmbio receptivo e emissivo que coloca o Brasil como destino de conhecimento e como país que envia seus jovens para o mundo. Minha experiência como professor de estudantes americanos e belgas, e as palestras para jovens líderes europeus em 14 países, mostram o poder transformador do turismo acadêmico.
Principais dispositivos:
Criação do Fundo Pontes do Saber, com recursos do orçamento federal e de parcerias com universidades estrangeiras, para financiar bolsas de intercâmbio para estudantes de escolas públicas e universidades federais.
Estabelecimento de convênios com universidades americanas, europeias e latino-americanas para recepção de estudantes estrangeiros em programas de imersão no Brasil, com foco em língua portuguesa, cultura afro-brasileira, sustentabilidade e inovação social.
Instituição do Visto Acadêmico Humanitário, com tramitação simplificada para estudantes e pesquisadores em projetos de cooperação.
Previsão de intercâmbios virtuais (programas híbridos) para ampliar o acesso de jovens de regiões remotas.
PL 4/2027 — Política Nacional de Cooperação Internacional em Pesquisa, Ciência e Tecnologia
Ementa: Estabelece diretrizes para a captação de recursos internacionais para pesquisa científica e tecnológica no Brasil, com prioridade para áreas estratégicas: mudanças climáticas, transição energética, saúde global, inteligência artificial e bio economia.
Justificativa: O Brasil é um ator relevante na ciência global, mas ainda capta menos de 10% dos recursos internacionais disponíveis para pesquisa em países em desenvolvimento. Minhas palestras em Columbia, nas universidades alemãs e no Banco Mundial demonstraram o enorme interesse da comunidade acadêmica internacional em parcerias com o Brasil — falta um marco legal que facilite essas parcerias.
Principais dispositivos:
Criação do Programa Brasil-Ciência sem Fronteiras 2.0, com foco em pesquisas aplicadas à transição energética, à agricultura de baixo carbono e à conservação da Amazônia, captando recursos do Fundo Verde para o Clima, do Banco Mundial e da União Europeia.
Instituição do Fundo de Equalização Tecnológica, que oferece contrapartida nacional para projetos aprovados em editais internacionais, garantindo que instituições brasileiras não percam oportunidades por falta de recursos locais.
Criação de Núcleos de Cooperação Internacional em cada universidade federal, com equipes dedicadas à captação e gestão de projetos com agências estrangeiras.
Estabelecimento de regras claras para propriedade intelectual em projetos de cooperação, garantindo que o Brasil retenha parcela dos benefícios gerados.
PL 5/2027 — Lei da Cooperação Climática Internacional
Ementa: Institui o Sistema Brasileiro de Cooperação Internacional para Mitigação e Adaptação às Mudanças Climáticas, integrando recursos de fundos climáticos internacionais com políticas públicas nacionais.
Justificativa: A Lei 14.904/24 já fixou diretrizes para planos de adaptação, e a Política Nacional sobre Mudança do Clima (Lei 12.187/09) estabelece os instrumentos básicos. Contudo, o Brasil ainda não possui um mecanismo específico para captar e gerir recursos de cooperação internacional para ações climáticas em escala municipal e comunitária — exatamente as frentes em que atuei na USAID e no Banco Mundial, e que estarão no centro da COP 30, que o Brasil sediará em 2025.
Principais dispositivos:
Criação da Agência Brasileira de Cooperação Climática (ABCC), vinculada ao Ministério do Meio Ambiente, com autonomia para negociar e gerir recursos do Fundo Verde para o Clima, do Fundo de Adaptação e de outros mecanismos multilaterais.
Instituição do Programa Territórios Resilientes, destinado a municípios e comunidades tradicionais, com recursos para projetos de adaptação — como sistemas de alerta de desastres, recuperação de nascentes, agricultura resiliente e moradias seguras.
Criação de um Selo Clima Brasil para projetos de cooperação que integrem mitigação, adaptação e inovação social, garantindo prioridade na alocação de recursos.
Estabelecimento de metas anuais de captação por estado, com incentivos fiscais para municípios que superarem as metas.
Criação do Fundo de Inovação Climática Comunitária, com recursos de cooperação internacional, para financiar projetos de base comunitária em energias renováveis, manejo florestal e economia circular, com gestão compartilhada entre governo, ONGs e comunidades.
PL 6/2027 — Programa de Articulação Global Brasil-Terra da Sabedoria
Ementa: Institui a Rede Terra da Sabedoria como política pública de cooperação internacional descentralizada, reconhecendo e apoiando embaixadores setoriais em juventude, cultura, educação, inovação social, ciência e paz.
Justificativa: A Rede Terra da Sabedoria, que articulo há anos com embaixadores em diversos setores e países, já é uma realidade viva. Falta reconhecimento legal e apoio institucional para que essa rede se expanda e se consolide como um instrumento de política externa brasileira, gerando oportunidades de cooperação que partem da sociedade civil e chegam aos governos.
Principais dispositivos:
Reconhecimento da Rede Terra da Sabedoria como programa de interesse nacional para a cooperação internacional.
Criação do Prêmio Terra da Sabedoria, concedido anualmente a brasileiros e estrangeiros que contribuam para a articulação de redes de cooperação com o Brasil.
Instituição do Programa Jovens Embaixadores da Cooperação, selecionando jovens de cada estado para representar o Brasil em fóruns internacionais, com bolsas e mentoria.
Criação de um Fundo de Apoio a Projetos da Rede, com recursos de cooperação internacional, para financiar iniciativas dos embaixadores da rede em suas comunidades.
Estabelecimento de parcerias com universidades e centros de pesquisa para documentar e disseminar as práticas da rede, transformando-as em conhecimento aplicável a outras realidades.
Considerações Finais
Esses projetos de lei não são peças isoladas. Eles formam um sistema integrado que transforma a cooperação internacional em um eixo estruturante do desenvolvimento brasileiro. Cada proposta dialoga com as demais: o PL das Cidades Globais se conecta ao PL da Cooperação Climática; o PL do Turismo Acadêmico se articula com o PL da Pesquisa; e todos se alimentam da Rede Terra da Sabedoria, que é o tecido vivo que conecta pessoas, instituições e países.
Minha jornada — da Teia de Luz com a USAID à articulação no Banco Mundial, da Rede Nós no semiárido à Feira do Conhecimento da ONU em Barbalha, de Sarajevo à África, das universidades americanas às europeias, dos encontros na Argentina ao blog para 21 países — me ensinou que a cooperação internacional não é um fim, mas um meio para construir outras formas de ser, viver e governar.
Estes projetos de lei são a expressão legal dessa visão. Eles criam as condições institucionais para que o Brasil, a partir de sua diversidade e de sua sabedoria, se consolide como articulador global de uma nova civilização — a Civilização Terra da Sabedoria.
Apresento essas propostas com a certeza de que a cooperação internacional não é concessão de poucos, mas direito de todos. E com a convicção de que o Brasil tem muito a ensinar — e muito a aprender — com o mundo.
Com a força da Rede e a esperança de quem nunca deixou de acreditar que pontes são mais importantes que muros,
Deputado Federal da Cooperação Internacional
Articulador da Rede Terra da Sabedoria

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