SABERES TRANSDISCIPLINARES E ORGÂNICOS.

sábado, 28 de fevereiro de 2026

A Metamorfose Econômica: Da Financeirização à Economia da Vida e das Possibilidades por Egidio Guerra



O Curto Prazo: Tensões Inflacionárias, Juros e a Necessidade de uma Gestão Macroeconômica Inteligente 

A inclusão abrupta de 400 milhões de pessoas na economia formal, com uma renda média de US$ 400 mensais, representa um choque de demanda de proporções históricas. Os US$ 1,92 trilhão anuais injetados não aparecerão da noite para o dia, mas o simples anúncio e a implementação gradual dessa política gerarão expectativas e pressões que precisam ser geridas com sofisticação. 

a) Inflação e Juros: 
No curto prazo, o maior risco é a inflação de demanda. Se 400 milhões de novos consumidores passarem a ter poder de compra sem que a oferta de bens e serviços (alimentos, moradia, vestuário) nos territórios esteja preparada, os preços locais dispararão, corroendo o ganho real de renda. Isso poderia forçar os bancos centrais dos países envolvidos a elevarem as taxas de juros para conter a demanda aquecida, encarecendo o crédito justamente para os pequenos negócios que a aliança quer fomentar. 

A solução não é frear a inclusão, mas orquestrar a oferta. É aqui que a aliança com Empresas ESG e cadeias produtivas se torna crucial. A política de "compre local" e o desenvolvimento de cooperativas e pequenos produtores precisam ser acelerados em paralelo à geração de renda. O investimento em logística, armazenamento e processamento local é a vacina contra a inflação. A renda nova deve encontrar prateleiras abastecidas por produção local e regional, criando um circuito econômico de baixa fricção e menor custo de transporte, naturalmente menos inflacionário. 


b) Cadeias Produtivas e o "Milagre da Oferta":
 
A inclusão massiva não é apenas um problema; é a solução para a estagnação. Ao integrar 400 milhões de pessoas, a aliança está, na verdade, recrutando 200 milhões de novos trabalhadores e empreendedores para a economia formal (considerando a população economicamente ativa). Metade deles dedicada a missões climáticas. 

Isso significa: 

  • Descarbonização da Oferta: A criação de uma gigantesca força de trabalho dedicada à regeneração ambiental (reflorestamento, energia limpa, agricultura regenerativa) aumenta a oferta de "serviços ambientais" e produtos verdes. Isso pode conter a inflação de alimentos ao tornar a agricultura mais resiliente e baratear custos energéticos no longo prazo, além de posicionar esses territórios na vanguarda das cadeias globais de valor sustentáveis. 

  • Encurtamento das Cadeias: Ao produzir localmente o que antes era trazido de longe, reduz-se a pressão sobre a logística global e a vulnerabilidade a choques externos. A cadeia produtiva se reorganiza em torno de polos regionais mais autônomos e resilientes. 

2.2. A Revolução Silenciosa: Reduzir a Desigualdade para Estabilizar a Economia 

A redução da desigualdade, objetivo central do projeto, não é apenas uma bandeira social, mas uma condição para a estabilidade macroeconômica de longo prazo. A ciência econômica contemporânea tem demonstrado que sociedades menos desiguais crescem de forma mais sustentável. 

Ao tirar 400 milhões de pessoas da base da pirâmide e colocá-las na classe consumidora e produtora, a aliança: 

  1. Expande a Demanda Agregada de Forma Saudável: O consumo das bases é menos propenso a bolhas especulativas e mais focado em bens de primeira necessidade e habitação, setores com alto efeito multiplicador na economia real. 

  1. Reduz a "Renda de Aluguel" do Topo: Em sociedades muito desiguais, os mais ricos tendem a investir em ativos financeiros e imobiliários (buscando proteção), o que inflaciona esses mercados sem gerar empregos. Com a base fortalecida, o capital é atraído para investimentos produtivos reais. 

  1. Gera um "Círculo Virtuoso Fiscal": A nova massa de trabalhadores formais e empresas locais aumenta a arrecadação tributária sem necessidade de aumentar alíquotas. O estado pode, então, investir ainda mais em infraestrutura e serviços públicos, realimentando o crescimento. 

2.3. A Nova Escola Sueca e o Papel do Sistema Financeiro: Do Cassino à Infraestrutura da Vida 

Para que essa metamorfose ocorra, é imperativo resgatar o sistema financeiro de sua lógica atual de financeirização da vida – onde o objetivo é fazer dinheiro a partir do dinheiro, em um cassino global de apostas de curto prazo, alheio às necessidades reais. 

"Nova Escola Sueca", representada por autores como Lars Calmfors e John Hassler, embora focada em políticas macroeconômicas e fiscais, nos dá pistas sobre a importância do desenho institucional. No entanto, a experiência sueca com a privatização do sistema educacional, documentada por Lisbeth Lundahl , serve como um alerta crucial: a lógica de mercado aplicada sem regulação (com escolas virando negócios lucrativos) gerou segregação e desigualdade . 

O que propomos é o oposto: trazer o mercado para servir à vida, e não a vida para servir ao mercado. Isso significa uma reorientação profunda do sistema financeiro, onde ele deixa de ser um fim em si mesmo e passa a ser a infraestrutura que viabiliza a Economia da Vida e das Possibilidades. 

Neste novo modelo, o crédito e o investimento são direcionados por métricas de impacto socioambiental, não apenas por risco-retorno financeiro. É o que autores como Robert Shiller (Prêmio Nobel de 2013) chamam de "Finanças para o Bem Comum" e Mariana Mazzucato (não Nobel, mas influente) denomina "Missão-Orientação" – onde o Estado e o financeiro se organizam para resolver grandes problemas coletivos, como a inclusão de 400 milhões de pessoas. 

2.4. A Nova Economia que Emerge: Poética, Criativa e Sustentável – A Base dos Futuros Prêmios Nobel 

A inclusão desses 400 milhões não criará apenas uma economia maior; criará uma economia qualitativamente diferente. Estamos diante do embrião da "Economia Poética", onde o valor não está apenas no que se produz, mas no que se preserva: cultura, laços comunitários, saberes tradicionais e biodiversidade. 

Essa nova economia, que emerge da necessidade e da criatividade dos territórios, já é objeto de estudo dos pensadores que estão redesenhando o pensamento econômico do século XXI. São essas as perspectivas que, acredita-se, serão a base dos futuros Prêmios Nobel de Economia. 

a) Amartya Sen (Nobel 1998) e a Expansão das Capacidades: 
A obra de Sen é a espinha dorsal filosófica deste projeto. Para ele, o desenvolvimento não é crescimento do PIB, mas o processo de expansão das liberdades substantivas das pessoas – a liberdade de ser e fazer aquilo que se tem razão para valorizar . Nosso projeto é a materialização dessa visão: ao gerar renda (liberdade econômica), educação integral (liberdade intelectual) e ação climática (liberdade de viver em um ambiente saudável), estamos desobstruindo as "des-libertdades" que aprisionam essas populações . Como Sen argumenta, a privação de liberdade econômica gera privação social e vice-versa . O círculo vicioso só se rompe com uma ação integrada que ataque todas as frentes simultaneamente. 

b) Joseph Stiglitz (Nobel 2001) e a Crítica ao PIB: 
Stiglitz tem dedicado sua carreira a mostrar que o PIB é uma medida falha de progresso. O que medimos (crescimento) não reflete o que importa (bem-estar). Nosso projeto gera um novo tipo de riqueza que não aparece nas métricas tradicionais, mas que Stiglitz e a Comissão para a Medição do Desempenho Econômico e do Progresso Social recomendam medir: 

  • Capital Social: A confiança e a cooperação geradas nos ecossistemas educativos. 

  • Sustentabilidade: O valor econômico do carbono sequestrado e da biodiversidade preservada. 

  • Segurança: A economia gerada com a não-construção de presídios e hospitais de trauma. 

c) Elinor Ostrom (Nobel 2009) e a Governança dos Comuns: 
Ostrom demonstrou que comunidades são perfeitamente capazes de gerir recursos compartilhados (como florestas ou sistemas de irrigação) de forma sustentável e democrática, sem necessidade de privatização ou controle estatal total. Os territórios do nosso projeto, organizados em cooperativas de coleta de resíduos, manejo florestal comunitário ou hortas urbanas, são exemplos vivos da "governança policêntrica" que Ostrom descreveu. 

d) Esther Duflo e Abhijit Banerjee (Nobel 2019) e a Economia da Pobreza: 
O casal de economistas mostrou, através de experimentos de campo, que a pobreza não é uma falta de capacidade, mas um conjunto de armadilhas estruturais. Nosso projeto é uma aplicação em escala macro de suas descobertas: acesso a creches e escolas em tempo integral libera as mães para o trabalho; a oferta de serviços financeiros adaptados (microcrédito) permite o empreendedorismo; a mentoria e o suporte técnico (fornecidos por universidades e empresas) aumentam a produtividade. 

2.5. Conclusão: A Convergência para uma Civilização Economicamente Sustentável 

A inclusão de 400 milhões de pessoas, portanto, não é apenas um programa de redistribuição de renda. É um projeto de recivilização. No curto prazo, exige gestão cuidadosa de juros e inflação. No médio prazo, reconfigura cadeias produtivas e gera um imenso dividendo fiscal e social. No longo prazo, forja as bases de uma nova economia – uma economia que é competitiva porque é inovadora, sustentável porque é regenerativa, e poética porque coloca a existência humana boa, bela e justa no centro de todas as decisões. 

É a passagem do "cassino financeiro", que aposta contra o futuro, para uma "economia da vida", que investe no futuro ao apostar nas pessoas e no planeta. Esta é a revolução silenciosa que ecoará nos debates econômicos das próximas décadas e que, muito provavelmente, consagrará os pensadores que a descreverem e validarem. 

 

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