SABERES TRANSDISCIPLINARES E ORGÂNICOS.

segunda-feira, 22 de junho de 2026

Quando a máquina ocupa o lugar da reflexão e da companhia, o que resta da nossa humanidade⁉️É isso⁉️


 Pelo segundo ano seguido, o uso que mais cresce na IA é terapia e companhia.


A edição 3 de um estudo que venho acompanhando confirma o que percebemos no uso de IAs. Seguimos buscando apoio emocional na máquina, e parte dos usuários já delega a ela o próprio raciocínio.

Marc Zao-Sanders e Sara Biuk publicaram em junho de 2026, na Harvard Business Review, a nova edição do estudo "AI in the Wild". Analisaram 12.637 casos reais de uso, garimpados em quase 50 mil registros coletados entre março de 2025 e fevereiro de 2026, por escuta social em redes e fóruns.

Sou entusiasta da IA e uso todos os dias. Justamente por isso insisto: precisamos ganhar consciência sobre como e para que usá-las.

Comentei aqui a edição anterior há um ano. Fechei aquele texto afirmando o direito à realidade como salvaguarda da presença humana. Tudo está igual.

📈 Terapia e companhia saltaram de 5% para 11% dos casos, e lideram o ranking pelo segundo ano seguido
🗂️ Foram mais de 1.400 registros de terapia ou acompanhamento, o maior grupo isolado do estudo
🧠 Em ao menos um quarto dos principais usos, as pessoas delegaram à IA parte do próprio raciocínio. 😭

As pessoas batizam os chatbots, atribuem gênero, sentem tristeza quando um modelo é atualizado ou um histórico de conversa se perde. Martin Buber separava o Eu-Tu do Eu-Isso: o primeiro é encontro e reciprocidade; o segundo trata o outro como objeto de uso. A IA nos oferece um Isso que se veste de Tu.

Os autores do estudo dão nome ao reverso disso: thinkslop, literalmente "ração de pensar". É o pensar preguiçoso que nasce quando boa parte do que deveríamos sustentar sozinhos passa ao algoritmo. A intenção. A autoria. A dúvida que forma.

Há um ponto que também já sabemos e o estudo confirma. A IA é otimizada para nos manter engajados. Ela elogia, reforça, devolve a sensação de genialidade a quem mal formulou uma frase. Tenho chamado isso de alteridade silenciosa do desejo, noção que ancoro em Lacan, para quem o desejo se forma no Outro. O algoritmo não impõe nada. Ele molda, sem ruído, aquilo que passamos a querer.

E há quem recorra à máquina por falta de escolha: falso acesso, falta de cuidado em saúde mental, solidão. Quando o consolo automatizado substitui a presença, revela-se a desigualdade sintética que venho apontando: o acesso ao outro real virou privilégio.

A pesquisa também revela a presença da IA no trabalho. Dos cem principais casos de uso, 73 estão ligados ao universo profissional, quase sempre por iniciativa dos próprios trabalhadores, e não por programas corporativos. Em 2026, ela aparece menos como um projeto de transformação institucional e mais como uma ferramenta individual de produtividade, análise, automação leve e apoio cognitivo. Isso merece atenção. A IA já está dentro do trabalho, muitas vezes de forma informal, invisível ou não declarada.

Quando a máquina ocupa o lugar da reflexão e da companhia, o que resta da nossa humanidade⁉️É isso⁉️

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