SABERES TRANSDISCIPLINARES E ORGÂNICOS.

sexta-feira, 20 de março de 2026

Alguns amores são tão grandes que precisam habitar o silêncio para nunca deixarem de soar.



Eu quero todos os sons não capturados que não viraram nostalgia, nem luto: se a gente não tivesse se conhecido, eu conseguiria escutar esse som? essa falta que me preencheu profundamente em momentos que evaporaram?

Essa pergunta é um fonógrafo sem agulha, um cilindro de cera onde nenhuma gravação foi jamais inscrita, mas onde a ausência vibra. Pois o que é o som não capturado senão o fantasma da própria possibilidade? Ben Shattuck, em The History of Sound, sabe que os verdadeiros registros do amor não estão nas canções folclóricas coletadas na floresta do Maine, nem nos cilindros de cera que um dia revelam segredos enterrados em sótãos poeirentos. O som que persigo — o som que nós perseguimos — é aquele que escapa entre as notas, o silêncio que se instala após a última melodia, tendo caminhado juntos sobre as praias e a lua, descobrem que a odisseia os marcou para sempre, mas que a verdadeira medida do que viveram reside exatamente no que não ousaram dizer.

Existe uma memória que não é lembrança, mas ressonância. Os contos de Shattuck são construídos em pares, como canções que se respondem através dos séculos: uma história revela os segredos da outra, um objeto — uma pintura de um pássaro, um cilindro gravado — viaja no tempo carregando consigo o peso de um amor mal compreendido, um gesto que não se concretizou. Esses artefatos são os ecos palpáveis do que não pôde ser vivido em sua plenitude. O amor que não conhecemos, assim, não é um vazio, mas uma presença negativa. Ele se manifesta na forma dessa "falta que preenche", como se a ausência de um som criasse uma câmara de ressonância dentro do peito.

E se a eternidade não fosse um tempo sem fim, mas um eco? Livros que tratam de memórias eternas — como Eternal Echoes ou Lost Passions — nos falam de amores que atravessam séculos, de almas que se reencontram em diferentes encarnações, de uma melodia que persiste mesmo quando os músicos já viraram pó. O diarista imortal de Eternal Echoes testemunha o coração partido que acompanha o amor que desafia o tempo, pois cada mulher amada lhe é arrancada pelo "marcha inexorável do tempo". É aí que reside a beleza terrível da memória: ela transforma o amor em uma canção que não termina, mas que também não se realiza plenamente. Assim como Orfeu, que desceu ao submundo em busca de Eurídice e a perdeu ao olhar para trás, nós passamos a vida tentando capturar um som que só existe no momento exato em que deixamos de procurá-lo.

O som do amor que não conhecemos é, talvez, a melodia que Pan inventou ao soprar nas canas — um lamento pela beleza que foge, um assombro que a memória "nunca captura ou mata". É uma abstração final, uma perseguição que reside em seu próprio deleite. Se não tivéssemos nos conhecido, eu não saberia que esse silêncio existe. A falta que sinto agora, essa vibração de algo que esteve ali por um instante e depois evaporou, é a prova de que o amor não precisa de duração para ser eterno. Ele se tornou um som gravado não na cera, mas na curva do meu próprio osso, na acústica secreta da minha casa interior.

Um crítico escreveu que as histórias de Shattuck nos lembram que o passado é frequentemente mal compreendido, e que o desejo pode ecoar por séculos, "revelando os segredos, mal-entendidos e o amor que perduram através dos séculos". Assim, carrego comigo os sons que não ousamos gravar. Não como nostalgia — que é a prisão do que foi —, nem como luto — que é o lamento pelo que se perdeu. Mas como uma nota sustentada, que vibra no intervalo entre o que aconteceu e o que poderia ter acontecido. 

Se a gente não tivesse se conhecido, eu seria apenas uma sala vazia. Agora, sou uma catedral de ecos. E esse som — essa falta que me preenche — é a prova de que, mesmo no que evaporou, ficou o registro de uma verdade: a de que alguns amores são tão grandes que precisam habitar o silêncio para nunca deixarem de soar.


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