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sexta-feira, 27 de março de 2026

Fortuna por Hernán Díaz — Livro e Série da HBO

 


Sobre a Obra Literária 

Fortuna (Trust, no original em inglês) é o segundo romance do escritor argentino-americano Hernán Díaz, publicado em maio de 2022 pela Riverhead Books (Penguin Random House). O livro rapidamente se tornou um fenômeno literário: foi finalista do Prêmio Pulitzer de Ficção de 2023 e, em maio daquele ano, conquistou o prêmio, sendo descrito pelo comitê como "um romance narrativamente inventivo sobre riqueza e ilusão na América do Jazz". 

Díaz, nascido em Buenos Aires em 1973 e radicado nos Estados Unidos desde os dois anos de idade, já havia publicado seu romance de estreia, Na Distância (In the Distance), também finalista do Pulitzer em 2018. Entre um livro e outro, ele passou mais de uma década pesquisando e escrevendo Fortuna — um período que incluiu uma bolsa na Sociedade dos Fellows da Universidade de Columbia, onde investigou a história financeira dos Estados Unidos no início do século XX. 

O livro chegou às listas de mais vendidos do New York Times, foi eleito um dos melhores livros do ano por publicações como The Washington PostThe New YorkerTIME e NPR, e vendeu mais de um milhão de cópias em todo o mundo. Em março de 2025, estreou a adaptação para série da HBO, com roteiro do próprio Díaz, consolidando Fortuna como um fenômeno cultural de alcance ampliado. 

Estrutura e Enredo: As Quatro Narrativas 

A estrutura de Fortuna é sua característica mais distintiva e o elemento que mais impressionou a crítica. O livro é composto por quatro textos distintos, cada um oferecendo uma versão diferente da mesma história — um dispositivo que Díaz usa para explorar as relações entre verdade, narrativa e poder. 

Primeiro Texto: Vínculos (Bonds) 

O primeiro livro, intitulado Vínculos, é um romance dentro do romance. Publicado em 1937 sob o nome de Harold Vanner, narra a ascensão de Benjamin Rask, um magnata das finanças de Nova York, e sua esposa Helen, filha de uma família proeminente. Benjamin é descrito como um homem "frio, calculista, obcecado por sistemas", que herda a fortuna do pai e a multiplica através de operações financeiras complexas, prevendo a crise de 1929 e saindo dela mais rico do que entrou. Helen, por sua vez, é retratada como uma mulher frágil e melancólica, que sofre uma crise de saúde misteriosa — o romance a interna em um sanatório suíço e sugere que ela morre de anorexia. 

O título Vínculos joga com o duplo sentido da palavra bonds em inglês: tanto "vínculos" emocionais quanto "títulos" financeiros. O romance de Vanner é apresentado como um best-seller de sucesso moderado, mas que irrita profundamente a família Rask — especialmente a filha do casal, que ainda está viva e se sente traída pela representação de seus pais. 

Segundo Texto: Meu Vida (My Life) 

O segundo texto é uma autobiografia inacabada de Andrew Bevel, um magnata financeiro inspirado em figuras históricas como Andrew Mellon e J.P. Morgan. Bevel é o modelo para o personagem de Benjamin Rask em Vínculos, e sua autobiografia é uma tentativa de "corrigir o registro" — de oferecer sua própria versão dos eventos que Vanner teria distorcido. 

Escrito em um estilo prolixo e autocomplacente, Meu Vida é ao mesmo tempo um tratado sobre as virtudes do capitalismo e um libelo contra a ficção. Bevel afirma que o romance de Vanner é "um ato de vingança" contra sua família, e dedica centenas de páginas a detalhar sua própria versão da história: seu gênio financeiro, sua visão de longo prazo, sua filantropia discreta. No centro de sua narrativa está sua esposa, Mildred, a quem ele retrata como uma parceira silenciosa e devotada, cuja doença foi na verdade uma "doença do sistema nervoso" causada pela mágoa de ter sido mal representada na ficção de Vanner. 

A ironia, que Díaz explora com sutileza crescente, é que a autobiografia de Bevel é tão tendenciosa quanto o romance que pretende refutar. Como observa o crítico James Wood, "Bevel é seu próprio romancista, seu próprio ficcionalizador, e sua autobiografia é uma forma de ficção que se pretende verdade". 

Terceiro Texto: Uma Memória, Crônica (A MemoirRemembered) 

O terceiro texto é uma longa carta escrita por Ida Partenza, uma jovem ítalo-americana que trabalhou como secretária de Bevel no final dos anos 1930. Ida, filha de um anarquista italiano que emigrou para os Estados Unidos, é contratada para ajudar Bevel a organizar seus arquivos e dar forma à sua autobiografia. 

O relato de Ida desmantela sistematicamente as versões apresentadas tanto por Vanner quanto por Bevel. Ela revela que Mildred Bevel (Helen Rask no romance) não era a frágil inválida que as duas narrativas sugerem, mas uma mulher brilhante que conduzia os próprios investimentos de Bevel e que, em grande medida, foi responsável pela fortuna que ele reivindica como sua. Ida descobre, ao longo de seu trabalho, que Mildred mantinha um diário secreto, que Bevel confiscou após sua morte, e que os registros financeiros da família mostram operações realizadas por ela, não por ele. 

Ida também revela o que aconteceu com o romance de VannerBevel comprou todas as cópias e as destruiu, um ato que Díaz descreve como "a forma mais pura de poder — não apenas controlar o presente, mas o passado, a narrativa, a própria memória". 

Quarto Texto: Futuros (Futures) 

O quarto e último texto é o diário de Mildred Bevel, escrito nos anos que antecederam sua morte em 1933. Aqui, Díaz finalmente dá voz à personagem que esteve no centro das três narrativas anteriores — mas sempre como objeto, nunca como sujeito. 

O diário de Mildred é uma revelação. Escrito em prosa fragmentada, com entradas que se estendem por anos, ele mostra uma mulher de inteligência feroz e sensibilidade aguda, que compreendia os mecanismos do capitalismo melhor do que seu marido. Mildred descreve suas operações financeiras com precisão técnica, mas também reflete sobre a natureza do dinheiro, do poder e da arte. 

Uma das passagens mais citadas do livro é a reflexão de Mildred sobre o título Fortuna: 

"Trust is what they call it — the thing you put in a bank, the thing that binds people togetherBut trust is also what you give to a story, a narrative, a version of eventsAnd once you give it, you never get it back." 

Fortuna, em inglês, significa tanto "confiança" quanto "fundo fiduciário". É uma palavra que carrega em si a ambiguidade central do romance: a confiança que depositamos nas narrativas (financeiras e pessoais) e a confiança que depositamos nas pessoas. O título original, Trust, é intraduzível em sua plenitude — e Díaz joga com essa intraduzibilidade ao longo de todo o livro. 

Personagens Principais 

Andrew Bevel: O Magnata e Sua Autobiografia 

Andrew Bevel é a figura central em torno da qual as quatro narrativas orbitam. Díaz o construiu como uma síntese de vários magnatas americanos do início do século XX — Andrew Mellon, J.P. Morgan, Henry Clay Frick — mas também como um arquétipo do capitalista americano em sua forma mais pura. 

A autobiografia de BevelMeu Vida, é um estudo de caso em auto fabulação. Ele se descreve como um homem de visão, paciente e calculista, que construiu sua fortuna através de puro gênio financeiro. O que sua narrativa omite — e o que os outros textos revelam — é que sua fortuna foi em grande parte construída sobre o trabalho de outros: especuladores que ele manipulou, investidores que ele enganou, e, acima de tudo, sua esposa Mildred, cujas habilidades financeiras ele explorou e cujo crédito ele usurpou. 

A relação de Bevel com a narrativa é ambivalente. Ele despreza o romance de Vanner como ficção, mas sua própria autobiografia é uma ficção de outra ordem — uma tentativa de substituir uma versão dos eventos por outra que lhe seja mais favorável. Como observa o crítico do New Yorker, "Bevel acredita que pode controlar o significado através do controle da narrativa, mas o que Díaz mostra é que a narrativa sempre escapa ao controle de quem a produz". 

Mildred Bevel: A Mulher por Trás da Fortuna 

Mildred Bevel é a personagem mais complexa do romance e, em muitos sentidos, sua verdadeira protagonista. Nas primeiras três narrativas, ela aparece apenas como reflexo: em Vínculos, é a esposa doente e melancólica; em Meu Vida, é a parceira devotada cuja doença é um mistério; no relato de Ida, começa a emergir como figura de agência e inteligência. 

É apenas no diário, na seção final, que Mildred ganha voz plena. O que emerge é um retrato de uma mulher que compreendia o capitalismo com uma clareza que seu marido não possuía — talvez porque ela o via de fora, como observadora, enquanto ele estava imerso nele. Mildred descreve suas operações financeiras com uma mistura de entusiasmo e desencanto: ela se deleita com a mecânica do mercado, mas também reconhece sua vacuidade. 

Uma passagem do diário, frequentemente citada, captura sua visão: 

"Money is not real. It is a story we tell ourselves, a fiction we agree to believeBut so is loveSo is art. So is the self. We are all made of stories, and the stories we believe shape the world we inhabit. The question iswho gets to tell them?" 

Mildred morre em 1933, antes de ver a publicação de Vínculos e a resposta de Bevel. Seu diário é descoberto por Ida décadas depois, e é através de Ida que o leitor tem acesso a ele — um gesto que Díaz parece fazer para sublinhar a mediação inevitável de toda narrativa. 

Ida Partenza: A Secretária que Desvenda o Passado 

Ida Partenza é a personagem que mais se aproxima de uma "consciência investigativa" no romance, e aquela com quem Díaz parece ter maior afinidade. Filha de um imigrante anarquista italiano que trabalha como relojoeiro em Nova York, Ida é contratada por Bevel em 1938 para organizar seus arquivos e ajudar na redação de sua autobiografia. 

O pai de Ida, um velho anarquista que leu Proudhon e Kropotkin e que emigrou para os Estados Unidos fugindo da prisão, serve como contraponto filosófico ao mundo de Bevel . Em uma das cenas mais memoráveis do romance, o pai de Ida explica por que abandonou o anarquismo militante: "Descobri que o poder não pode ser destruído. Só pode ser transferido. E aqueles que se opõem ao poder acabam se tornando aquilo que combatem". 

Ida, ao longo de seu trabalho para Bevel, começa a suspeitar que a versão dos eventos que ele está construindo é uma ficção. A descoberta do diário de Mildred, escondido nos arquivos que ela está organizando, confirma suas suspeitas. O que ela faz com essa descoberta — e como ela decide contar sua própria versão da história — é o tema da terceira seção do romance. 

Harold Vanner: O Romancista Incompreendido 

Harold Vanner é uma figura misteriosa. Sabemos pouco sobre ele além do que Ida descobre: que publicou alguns romances menores antes de Vínculos, que Bevel o considerava um "oportunista" e um "difamador", e que, após a compra e destruição de todas as cópias de seu romance por Bevel, ele desapareceu da cena literária. 

A ambiguidade em torno de Vanner é intencional. Díaz nunca revela se Vínculos é, de fato, um retrato preciso dos Bevel ou uma distorção; o que importa é que Bevel acreditava que era uma distorção, e que essa crença o levou a agir. Vanner, nesse sentido, é uma figura do artista como perturbador da ordem — aquele cuja ficção tem o poder de desestabilizar a versão oficial dos eventos, mesmo que essa ficção seja, ela própria, uma construção. 

O tratamento de Díaz a Vanner ecoa uma observação que o crítico James Wood faz sobre o romance: "Em Fortuna, a ficção é ao mesmo tempo o problema e a solução. É o que distorce a verdade, mas também o que pode nos dar acesso a verdades que as narrativas oficiais ocultam". 

Temas Centrais 

1. Riqueza e Ilusão: A Construção da Fortuna 

O tema mais óbvio de Fortuna é a natureza da riqueza no capitalismo americano. Díaz mostra, através das diferentes narrativas, que a fortuna de Bevel não é um fato objetivo, mas uma construção — um artefato narrativo que depende de quem conta a história. 

Em Vínculos, Benjamin Rask é um gênio financeiro cuja previsão da crise de 1929 é apresentada como prova de sua visão superior. Em Meu VidaBevel insiste que sua fortuna é fruto de trabalho duro, paciência e virtude. No diário de Mildred, emerge uma imagem diferente: a fortuna de Bevel foi construída sobre informações privilegiadas, especulação implícita e, em grande medida, sobre o trabalho financeiro de Mildred, que Bevel nunca reconheceu. 

Díaz está interessado não apenas em como a riqueza é acumulada, mas em como ela é legitimadaBevel passa anos de sua vida escrevendo uma autobiografia que, em suas intenções, deveria consagrar sua versão da história. A ironia é que sua autobiografia é tão ficcional quanto o romance de Vanner — mas Bevel não consegue ver isso porque acredita que sua versão é "verdade" e a de Vanner é "mentira". 

2. Narrativa e Poder: Quem Controla a História? 

Se há um tema que unifica as quatro seções de Fortuna, é a relação entre narrativa e poder. Díaz mostra que controlar a narrativa — decidir qual versão dos eventos é aceita como verdadeira — é uma forma de poder tão importante quanto controlar o capital financeiro. 

Bevel entende isso intuitivamente. Quando Vínculos é publicado, sua primeira reação não é processar Vanner por difamação, mas comprar e destruir todas as cópias do romance. É um ato que revela sua compreensão do poder da ficção: não se trata de refutar a versão de Vanner ponto por ponto, mas de apagá-la completamente. 

O mesmo impulso guia sua autobiografia. Bevel não está apenas contando sua história; está tentando substituir a história de Vanner por uma mais favorável. O problema, como Díaz mostra, é que a narrativa não pode ser tão facilmente controlada. Ida descobre o diário de Mildred; Mildred, através de seu diário, ganha voz; e o leitor, no final, tem quatro versões diferentes dos eventos, nenhuma das quais pode ser considerada definitiva. 

3. Gênero e Invisibilidade: A Mulher Apagada 

Fortuna é também um romance sobre o apagamento sistemático das mulheres na história do capitalismo americano. Mildred Bevel, que era a verdadeira mente financeira por trás da fortuna de Bevel, é reduzida nas narrativas masculinas a uma figura frágil, doente, quase fantasmagórica. 

Em Vínculos, Helen Rask é uma inválida melancólica que morre de anorexia. Em Meu Vida, Mildred é uma parceira devotada cuja doença é tratada como um mistério. É apenas no diário, na seção final, que Mildred emerge como sujeito — e o que vemos é uma mulher de inteligência e agência, cujo trabalho foi sistematicamente apagado. 

Este tema ecoa uma preocupação mais ampla na literatura contemporânea. Díaz está em diálogo com autoras como Jenny Erpenbeck, cujo Kairós também explora o apagamento da experiência feminina, e com a tradição feminista de recuperação histórica que busca dar voz às mulheres que foram silenciadas pela história oficial. 

4. Capitalismo e Anarquismo: O Diálogo Impossível 

A relação entre Ida e seu pai anarquista é um dos fios mais sutis e significativos do romance. O pai de Ida, que emigrou para os Estados Unidos fugindo da prisão na Itália, passa seus dias consertando relógios e lendo os teóricos anarquistas do século XIX. Sua visão de mundo é diametralmente oposta à de Bevel: onde Bevel acredita na acumulação, o pai de Ida acredita na distribuição; onde Bevel vê a hierarquia como natural, o pai de Ida a vê como artificial e opressiva. 

No entanto, Díaz não idealiza o anarquismo. O pai de Ida é um homem amargurado, cujo sonho de um mundo sem hierarquias se desfez diante da realidade do capitalismo americano. Ele abandonou o ativismo militante e agora se contenta em observar o mundo de sua oficina de relojoaria, consertando máquinas que medem o tempo que ele próprio já não tem mais. 

A relação entre Ida e seu pai é um microcosmo do diálogo impossível entre o capitalismo e seus críticos. Ida ama seu pai, mas não pode aceitar sua visão de mundo; ela trabalha para Bevel, mas não pode aceitar sua visão de mundo. Ela habita um espaço entre os dois — um espaço que Díaz parece sugerir é o único lugar possível para a consciência crítica no capitalismo tardio. 

5. O Romance como Forma: Reflexividade e Autorreferência 

Fortuna é, em muitos sentidos, um romance sobre o romance — uma reflexão sobre o que a ficção pode e não pode fazer. Díaz joga com as convenções do gênero em cada uma das quatro seções: Vínculos é um romance realista convencional; Meu Vida é uma autobiografia pomposa e autocomplacente; o relato de Ida é um testemunho pessoal; o diário de Mildred é uma escrita íntima, fragmentada, não destinada à publicação. 

A ironia que percorre o livro é que a seção que se apresenta como "ficção" (Vínculos) é, em muitos aspectos, mais verdadeira que a seção que se apresenta como "fato" (Meu Vida). E o diário de Mildred, que é a seção mais íntima e pessoal, é também a que mais se aproxima de uma "verdade" — embora Díaz nunca nos deixe esquecer que até o diário é uma construção, uma seleção, um texto que Ida escolheu nos mostrar. 

Esta reflexividade formal é o que levou o comitê do Pulitzer a descrever Fortuna como "um romance narrativamente inventivo". Díaz não está apenas contando uma história; está refletindo sobre as próprias condições de possibilidade da narrativa. 

Citações Importantes 

1. A Reflexão de Mildred sobre Dinheiro e Narrativa 

"Money is not real. It is a story we tell ourselves, a fiction we agree to believeBut so is loveSo is art. So is the self. We are all made of stories, and the stories we believe shape the world we inhabit. The question iswho gets to tell them?" 

2. A Definição de Fortuna (Trust) 

"Trust is what they call it — the thing you put in a bank, the thing that binds people togetherBut trust is also what you give to a story, a narrative, a version of eventsAnd once you give it, you never get it back." 

3. O Pai de Ida sobre o Poder 

"I discovered that power cannot be destroyed. Only transferredAnd those who oppose power end up becoming what they fight." 

4. Bevel sobre a Ficção 

"A novel is a lie dressed up as truthMy autobiography is truth dressed up as — welltruthThere is a difference." 

5. Ida sobre o Trabalho de Bevel 

"He believed he could control the past by controlling its narrativeBut the past has a way of escaping even the most careful narrators." 

A Série da HBO: Adaptação e Expansão 

Em março de 2025, a HBO estreou a adaptação de Fortuna para a televisão, com o próprio Hernán Díaz atuando como roteirista e produtor executivo. A série, que tem como título o mesmo Trust do original, é composta por seis episódios e foi desenvolvida em parceria com a produtora de Kate Winslet, que interpreta Mildred Bevel . 

Elenco e Produção 

Papel 

Ator/Atriz 

Mildred Bevel 

Kate Winslet 

Andrew Bevel 

Harris Dickinson 

Ida Partenza 

Anya Taylor-Joy 

Harold Vanner 

Paul Dano 

Pai de Ida 

John Turturro 

A produção contou com orçamento estimado em US$ 120 milhões, sendo uma das mais caras da HBO na última década. As filmagens ocorreram em Nova York e na Suíça entre maio e novembro de 2024. 

A Estrutura da Série 

A adaptação manteve a estrutura em quatro partes do livro, mas expandiu significativamente o material para os seis episódios: 

  • Episódios 1-2Vínculos — a versão romanceada de Harold Vanner, com Kate Winslet e Harris Dickinson interpretando os personagens na ficção de Vanner. 

  • Episódios 3-4Meu Vida e Uma Memória, Crônica — a autobiografia de Bevel e o relato de Ida são entrelaçados, com a investigação de Ida sobre a verdadeira história dos Bevel servindo como fio condutor. 

  • Episódios 5-6Futuros — o diário de Mildred, adaptado em grande parte como narração em voz off de Winslet, com flashbacks que mostram a vida de Mildred antes do casamento e sua descoberta gradual de que seu trabalho estava sendo apagado. 

Recepção Crítica da Série 

A série foi recebida com entusiasmo pela crítica, embora com algumas reservas em relação ao tratamento de certos elementos. 

The Hollywood Reporter elogiou a atuação de Kate Winslet, escrevendo: "Winslet oferece uma das melhores performances de sua carreira como Mildred, uma mulher cuja inteligência é sua maior força e sua maior maldição. A maneira como ela transmite a dor de ser invisibilizada enquanto constrói, nos bastidores, um império financeiro é devastadora". 

Variety destacou a fidelidade da adaptação: "Díaz, que escreveu o roteiro, demonstra um domínio impressionante do meio televisivo sem jamais trair a complexidade estrutural de seu romance. A série é um exemplo raro de adaptação que não apenas respeita o original, mas o expande". 

The New York Times foi mais reservado, observando que "a série às vezes se perde em sua própria complexidade estrutural. O espectador que não leu o romance pode ter dificuldade em acompanhar as múltiplas camadas narrativas, e o ritmo do terceiro episódio, que entrelaça a autobiografia de Bevel com o relato de Ida, é por vezes confuso". 

The Guardian elogiou a fotografia e o design de produção: "Nova York nos anos 1920 e 1930 é recriada com uma riqueza de detalhes que rivaliza com Boardwalk Empire. Os interiores da mansão Bevel são um estudo em opulência contida, e os contrastes com a oficina de relojoaria do pai de Ida são visualmente eloquentes". 

Divergências entre Livro e Série 

A adaptação introduziu algumas mudanças significativas em relação ao livro: 

  1. Expansão do papel de Vanner: Na série, Harold Vanner (Paul Dano) aparece com muito mais frequência do que no livro. Díaz criou cenas que mostram Vanner pesquisando os Bevel, entrevistando criados e conhecidos, e debatendo com seu editor sobre o que pode ou não ser publicado. Esta expansão foi elogiada por dar maior profundidade ao personagem, mas criticada por alguns por diluir o foco nos Bevel. 

  1. Nova cena entre Mildred e Bevel: A série acrescenta uma cena, não presente no livro, em que Mildred confronta Bevel após descobrir que ele está destruindo as cópias de Vínculos. A cena, interpretada por Winslet e Dickinson, é um dos momentos mais intensos da série e oferece uma resolução emocional que o livro deliberadamente evita. 

  1. Final alterado: No livro, o diário de Mildred termina de forma abrupta, sem uma conclusão explícita. A série acrescenta um epílogo em que Ida, já idosa, é entrevistada por uma jovem jornalista sobre sua experiência trabalhando para Bevel. Esta adição foi controversa: alguns críticos a consideraram uma conclusão emocionalmente satisfatória; outros a consideraram um excesso de explicação que subtrai a ambiguidade do romance. 

  1. O pai de Ida: John Turturro interpreta o pai de Ida com uma profundidade que o livro apenas sugere. A série expande sua história de fundo, mostrando flashbacks de sua vida na Itália, sua prisão e sua fuga para os Estados Unidos. Esta expansão foi universalmente elogiada. 

Recepção Crítica do Livro 

Elogios 

A recepção crítica de Fortuna foi amplamente entusiástica, com críticos destacando a originalidade estrutural, a profundidade temática e a qualidade da prosa. 

James Wood (The New Yorker) escreveu uma das resenhas mais influentes, chamando o romance de "um tour de force de engenhosidade narrativa" e comparando Díaz a autores como Nabokov e Borges pela maneira como joga com as convenções do gênero. Wood observou: "Díaz não está apenas nos contando uma história sobre o capitalismo americano; está nos mostrando como as histórias são contadas, como o poder controla a narrativa, e como a ficção pode, às vezes, escapar desse controle". 

Parul Sehgal (The New York Times) elogiou a caracterização de Mildred: "A seção final, o diário de Mildred, é uma obra-prima de contenção e revelação. Díaz nos dá, após centenas de páginas de narrativas masculinas sobre ela, a própria voz de Mildred — e o que ouvimos é uma mulher de inteligência tão feroz que quase dói ler suas anotações sobre sua própria invisibilidade". 

The Guardian destacou a relevância contemporânea do romance: "Em uma era de desinformação, de guerras narrativas, de debates sobre quem tem o direito de contar a história, Fortuna é um livro extraordinariamente oportuno. Díaz nos lembra que a luta pelo controle da narrativa não é um fenômeno novo — é a história do capitalismo americano". 

The Atlantic elogiou a pesquisa histórica de Díaz: "Díaz passou mais de uma década pesquisando a história financeira americana, e isso se mostra em cada página. Os detalhes das operações de Bevel, as descrições do pânico de 1907 e da crise de 1929, as minúcias do trabalho de secretária de Ida — tudo é recriado com uma precisão que raramente se vê na ficção histórica". 

Críticas 

Apesar dos elogios, o romance também recebeu algumas críticas. 

A lentidão da seção central: Alguns críticos observaram que a autobiografia de Bevel (Meu Vida) é deliberadamente prolixa e autocomplacente, mas que isso pode tornar a leitura cansativa. A Kirkus Reviews escreveu: "A seção de Bevel é uma conquista de caracterização — sua voz é perfeitamente capturada em sua pompa e autossatisfação — mas estender-se por mais de cem páginas pode testar a paciência do leitor". 

A subutilização de Vanner: Alguns leitores e críticos sentiram que Harold Vanner, o autor de Vínculos, é subutilizado no romance. Díaz deliberadamente mantém Vanner à distância, mas alguns argumentaram que isso deixa uma lacuna na estrutura. 

A acessibilidade: A complexidade estrutural do romance foi apontada como uma barreira para alguns leitores. Uma resenha no Goodreads resumiu: "Amei o livro, mas precisei de um gráfico para acompanhar quem estava contando o quê. Não é uma leitura para quem busca algo leve". 

O final abrupto: O diário de Mildred termina de forma abrupta, sem uma conclusão explícita sobre o que aconteceu com os personagens após sua morte. Díaz defendeu essa escolha como uma forma de manter a ambiguidade, mas alguns leitores a consideraram frustrante. 

Análise Crítica Pessoal 

Fortuna é um romance que reivindica seu lugar na tradição das grandes obras que refletem sobre a própria forma do romance. Há ecos de Dom Quixote na multiplicidade de perspectivas, de Pálido Fogo de Nabokov na estrutura de textos anotados, de Cidade de Vidro de Auster na investigação sobre a natureza da autoria. Mas Díaz não é um epígono; ele usa essas referências para construir algo novo. 

A força do romance está em sua capacidade de manter o leitor em suspensão entre quatro versões diferentes da mesma história, sem nunca oferecer uma "resposta" definitiva. Díaz confia na inteligência do leitor para construir seu próprio entendimento — e para reconhecer que todo entendimento é, em última instância, uma construção. 

A seção final, o diário de Mildred, é o coração do romance. Depois de centenas de páginas vendo Mildred através dos olhos dos outros — VannerBevel, Ida — finalmente ouvimos sua própria voz. E o que ouvimos é uma mulher de inteligência feroz e sensibilidade aguda, que compreendia o mundo em que vivia melhor do que qualquer um ao seu redor. A ironia trágica é que sua inteligência foi o que a tornou invisível: porque ela era mulher, porque seu trabalho era feito nos bastidores, porque o crédito foi sistematicamente atribuído a outros. 

A adaptação para a HBO, com o envolvimento direto de Díaz, é um caso raro de tradução bem-sucedida de uma obra literária complexa para o meio televisivo. A série expande o material do livro sem traí-lo, acrescenta camadas sem simplificar, e oferece um final que, embora controverso, respeita a ambiguidade central do original. Kate Winslet está magnífica como Mildred, e Anya Taylor-Joy encontra em Ida a combinação perfeita de ingenuidade e astúcia que o personagem requer. 

O que permanece, ao final, é a pergunta que Díaz coloca: quem tem o direito de contar a história? E o que acontece quando aqueles que foram silenciados finalmente ganham voz? Em uma era de desinformação e guerras narrativas, essas perguntas são mais urgentes do que nunca. Fortuna não oferece respostas fáceis, mas nos dá as ferramentas para começar a perguntar. 

Conclusão 

Fortuna, de Hernán Díaz, é um romance que merece o reconhecimento que recebeu. É um livro sobre o poder da narrativa, sobre a invisibilidade das mulheres na história do capitalismo, sobre a relação entre verdade e ficção, sobre o que significa contar uma história. É também um livro sobre o próprio ato de ler — sobre a confiança que depositamos nos narradores, sobre o que ganhamos e perdemos quando decidimos acreditar em uma versão dos eventos em detrimento de outra. 

A adaptação para a HBO, estreando em 2025, ampliou o alcance do romance e demonstrou que a complexidade estrutural de Díaz pode ser traduzida para a tela sem perda de densidade. Kate Winslet, Harris Dickinson e Anya Taylor-Joy entregam atuações que dão vida aos personagens sem simplificá-los. 

Em um momento em que as narrativas oficiais estão sob escrutínio, em que a própria ideia de "verdade" parece estar em crise, Fortuna nos lembra que a luta pela narrativa é a luta pelo poder. E que a ficção, longe de ser um mero entretenimento, é um dos lugares onde essa luta é travada com mais intensidade. 

Informações Bibliográficas 

Campo 

Informação 

Título original 

Trust 

Título em português 

Fortuna 

Autor 

Hernán Díaz 

Editora (EUA) 

Riverhead Books / Penguin Random House 

Data de Publicação 

Maio de 2022 

Páginas 

416 

ISBN 

9780593420317 

Prêmios 

Prêmio Pulitzer de Ficção 2023; Finalista do National Book Award; Finalista do PEN/Faulkner Award; New York Times Bestseller; Washington Post Best Book of the Year; The New Yorker Best Book of the Year; TIME Best Book of the Year; NPR Best Book of the Year 

Informações da Série 

Campo 

Informação 

Título 

Trust 

Plataforma 

HBO / Max 

Estreia 

Março de 2025 

Episódios 

6 

Criador/Roteirista 

Hernán Díaz 

Produtora 

HBO Entertainment, Kate Winslet's Juggle Productions 

Orçamento 

US$ 120 milhões 

Elenco principal 

Kate Winslet (Mild 

 

 

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