SABERES TRANSDISCIPLINARES E ORGÂNICOS.

terça-feira, 30 de setembro de 2025

O abismo que separa o salto do Primário para o Ensino médio é a desigualdade

 









Em pleno período de adaptação à escola em tenra idade, há uma adaptação do ninguém fala, mas talvez o mais transcendente no sistema educacional. O abismo que separa o salto do Primário para o ESO.


✍ Escrevo em EL PAÍS Educación sobre este assunto, retomando a recente iniciativa da Comunidade de Madrid de transferir os primeiros anos do ESO para as escolas primárias.

Na Espanha, a transição do 6º ano do Primário para o 1º ano do ESO representa um duplo desequilíbrio. Por um lado, um salto acadêmico repentino, onde a demanda dispara. Por outro, uma ruptura social e emocional: os alunos passam de um ambiente próximo e com um tutor de referência para um sistema fragmentado com múltiplos professores e um acompanhamento mais impessoal.

As consequências são muito importantes. Dois exemplos:

1️⃣ O gosto pela escola despenca: de 41% aos 11-12 anos para 18% aos 13-14.
2️⃣ O 1º ano do ESO concentra a maior taxa de repetência da escolaridade obrigatória (7,3%), apesar de as evidências científicas mostrarem que não melhora a aprendizagem e acelera a evasão.

👨 🏫 A raiz do problema é uma divisão histórica que afeta até mesmo os professores: professores com uma base pedagógica sólida no Ensino Primário versus graduados especialistas com menos formação pedagógica no Ensino Médio. Soluções como a transferência de salas de aula são insuficientes se não forem acompanhadas de investimentos reais, equipes coordenadas e, acima de tudo, uma reforma ambiciosa do corpo docente para construir verdadeiras pontes sobre esse abismo. Sem isso, continuaremos a condenar milhares de estudantes ao fracasso escolar todos os anos.

Artigo aqui: https://lnkd.in/en5YgXhk

segunda-feira, 29 de setembro de 2025

Esse gráfico mostra a redução das matrículas presenciais nas faculdades privadas no Brasil.

 


Esse gráfico mostra a redução das matrículas presenciais nas faculdades privadas no Brasil. Notem como vem caindo ano a ano, impactando todo o sistema.


Olhando do ponto de vista empresarial, isso é um banho de água fria. Temos que considerar que várias faculdades foram criadas no período, com aumento ainda maior da concorrência.

A migração para o EAD exige menos professores, infraestrutura e pessoal em geral. E as mensalidades são bem menores. Resultado: demissões de professores e funcionários e queda de receita para as instituições.

Faço uma consulta aos colegas: o marco regulatório do MEC vai conseguir reverter essa queda livre?

O Portal Game e a Décima Sinfonia da Terra da Sabedoria : A Sociedade em Concerto por Egidio Guerra

 

Hoje a música mudará para sempre. Imaginemos a sociedade como uma grande orquestra. Não uma orquestra perfeitamente afinada e estática, mas um organismo vivo, em constante ensaio e performance, cujo palco é o mundo. Nesta analogia, os diversos setores da sociedade – o Estado, o mercado, a ciência, a arte, a educação – são os instrumentos. Cada um com seu timbre único, sua tessitura e sua função harmônica. E a vida das pessoas, em sua complexidade e beleza, é a música a ser ouvida e tocada: a melodia do cotidiano, a sinfonia da existência coletiva.




Para que a música não se degrade em ruído, é necessária uma partitura, um conjunto de regras que rege a execução. Em A Letra da Lei, Linda Colley nos mostra como as constituições modernas nasceram precisamente para ser essa partitura mestra, tentando orquestrar os poderes e harmonizar os direitos, evitando o cacofonia do arbítrio e o silêncio opressor da tirania. É a lei que dita o compasso e estabelece a clave, mas não pode sufocar a improvisação e a expressão individual.


No século XVIII, a orquestra do Ocidente começou a afinar-se para uma nova sinfonia: a da Razão. Denis Diderot, como um maestro do Iluminismo, regia a criação da Enciclopédia, uma partitura monumental que buscava catalogar e harmonizar todo o conhecimento humano. Em A Prosa do Mundo, Gumbrecht poderia ver nesse projeto uma tentativa de dar espessura e materialidade às ideias, transformando-as em notas precisas para que a sociedade as executasse.


Mas toda orquestra precisa de seus críticos, aqueles que desafiam as melodias dominantes. A Escola de Frankfurt assumiu esse papel crucial. Em A Imaginação Dialética, Martin Jay descreve como esses pensadores, como Adorno e Horkheimer, foram os maestros da crítica, apontando como a "sinfonia" da modernidade – prometendo progresso e liberdade – podia degenerar em uma música mecânica e alienante. O ano de 1968 foi um momento em que a plateia, insatisfeita, gritou por um repertório completamente novo, forçando a orquestra a considerar melodias de libertação, igualdade e autenticidade, compondo outras músicas e imaginando outras sociedades.


A própria matéria-prima deste concerto – o som – precisa ser compreendida. Em A Afinação do Mundo, Murray Schafer introduz o conceito de "paisagem sonora", alertando-nos para a poluição sonora que nos cerca. Uma sociedade saudável precisa cuidar de sua paisagem sonora, eliminando os ruídos do preconceito, da desinformação e da intolerância, para que a música genuína da vida possa ser ouvida. A ciência, por sua vez, nos revela que a sinfonia começa no nível mais íntimo. Em A Canção da Célula, Siddhartha Mukherjee mostra como a biologia é uma orquestra microscópica, onde cada célula toca sua parte na complexa melodia da vida. A saúde do corpo social depende da harmonia desta sinfonia interior.



No entanto, o maestro que rege esta orquestra global hoje é, cada vez mais, a informação. Em Nexus, Yuval Noah Harari argumenta que os sistemas de dados e as narrativas compartilhadas são os grandes regentes da cooperação humana em larga escala. Eles podem orquestrar feitos magníficos, como a erradicação de doenças, ou podem conduzir a sociedade ao ruído ensurdecedor da polarização, da desunião e da destruição, a depender de quem os comanda.

E como saber se a música está soando bem? Como afinar os instrumentos das políticas públicas? A sociologia, com seu método, oferece o ouvido apurado. O trabalho de Howard Becker em Evidências nos lembra que o "bom ouvido" da pesquisa social, o uso rigoroso dos dados, é essencial para identificar dissonâncias e harmonias. São as evidências que nos permitem fazer os ajustes necessários, garantindo que as "notas" tocadas pelo Estado e pelas instituições realmente gerem bem-estar – uma autêntica sinfonia na vida das pessoas.



Esta metáfora nos permite imaginar outras sociedades possíveis. A grande obra do nosso tempo, a nossa "Décima Sinfonia" – uma obra que Beethoven, em 
seu gênio, apenas esboçou – seria aquela em que todos os instrumentos tocassem juntos em harmonia. A natureza não seria a plateia passiva, mas um instrumento solo a ser escutado e respeitado, contra o rugido das mudanças climáticas. Os animais, parte do coro biológico. A tecnologia, não um metrônomo impiedoso, mas um instrumento de precisão humanizada, ampliando nossa capacidade de compor um mundo melhor. O objetivo final é uma partitura de Sabedoria, onde a melodia da prosperidade não abafe o contrato da justiça, onde o ritmo do progresso não ignore o baixo contínuo da sustentabilidade.

É uma sinfonia inacabada, sempre em composição. Cabe a nós, instrumentistas e compositores ao mesmo tempo, pegar na partitura da história e, com ouvidos atentos aos dados, ao próximo e ao planeta, compor juntos a Décima Sinfonia da Terra.




domingo, 28 de setembro de 2025

O Espelho Partido: Como o Cinema Inspira a Realidade e a Realidade Invade a Tela por Egidio Guerra



A relação entre cinema e realidade nunca foi de representação, mas sim um diálogo intenso e, por vezes, profético. A sétima arte funciona como um espelho da sociedade – às vezes límpido, outras vezes distorcido, mas frequentemente capaz de capturar os ecos do futuro nas tensões do presente. E, em momentos de crise, a realidade não apenas se inspira no cinema, como parece seguir um roteiro distópico que artistas já haviam antevisto. 

Tomemos como exemplo hipotético o filme "Uma Batalha Após a Outra", um thriller político de alto escalão estrelado por Leonardo DiCaprio, Sean Penn e Benicio del Toro. No longa, DiCaprio interpreta um militante idealista revolucionário que, em uma América à beira do colapso civil, se vê envolvido numa trama pessoal e incômoda com um estrategista militar sombrio (Sean Penn) e um líder da comunidades de imigrantes (Benicio del Toro) numa guerra civil latente. A crítica especializada, ao analisar o filme, destacou sua "atmosfera de paranoia palpável" e a forma como o roteiro "não oferece heróis fáceis, apenas personagens tragicamente enredados na teia de um país que desaprendeu a dialogar". Os críticos apontaram a narrativa como um "alerta necessário", uma ficção que extrapolava os limites da para questionar os rumos da nação. 

Entretanto, a fina linha entre o "exagero" ficcional e a realidade dissolveu-se em setembro de 2025, quando o então presidente Donald Trump anunciou o envio de tropas federais à cidade de Portland, sob a justificativa de " enfrentar o terrorismo doméstico". A cena – forças federais não identificadas prendendo cidadãos em viaturas não marcadas, os protestos nas ruas, a retórica inflamada – parecia ter sido extraída diretamente do roteiro de "Uma Batalha Após a Outra". A ficção havia servido como um roteiro-testamento, um ensaio geral para um capítulo sombrio da história americana. A arte não previu o futuro, mas diagnosticou as patologias sociais que, ignoradas, eclodiriam em conflito real. Assim como nas Escolas a violência explode e a culpa não é dos professores, mas dos Bilionários, Oligarquias e Ditadores. Se não salvar a educação, o sistema cai junto, é último bastião contra a barbárie! 

Este engajamento não se limita às narrativas ficcionais. Os próprios artistas, conscientes de seu palco global, erguem suas vozes para amplificar lutas reais. Figuras como Robert De NiroBruce Springsteen e Javier Bardem transcenderam suas personagens para assumir um papel crucial na denúncia de atrocidades. De Niro, um crítico ferrenho de Trump, a quem chamou publicamente de "ditador em formação", e Bruce Springsteen, cuja obra sempre foi um poema sobre a América comum, usam sua influência para alertar sobre a erosão democrática. Já Javier Bardem, junto com sua esposa Penélope Cruz, tem sido uma voz incansável na denúncia do que qualificam como genocídio do povo palestino, pressionando governos e a comunidade internacional por um cessar-fogo e por direitos humanos. Eles, e muitos outros, entendem que a arte é um campo de batalha ideológico. Ao chamar Trump de "Ditador", não usam uma metáfora vazia; é um alerta baseado na observação de padrões autoritários que, não por acaso, são o tema central de tantos filmes. 


A história do cinema está repleta de exemplos de filmes e artistas que se tornaram faróis – "luas" que iluminam caminhos ou denunciam abismos. 
Charles Chaplin, em "O Grande Ditador" (1940), não apenas satirizou Hitler quando o mundo ainda hesitava em enfrentá-lo, mas proferiu um dos discursos humanistas mais poderosos da história, um farol de lucidez contra a escuridão do fascismo.
 APOCALIPSE NOW EM GAZA!


Anos mais tarde, "Cidadão Kane" (1941), de Orson Welles, tornou-se um ícone eterno ao dissecar a corrupção do poder e a solidão dos tiranos, um retrato que ecoa em cada magnata que ambiciona o controle político. Já "Apocalypse Now" (1979) e "Nascido para Matar" (1987) não foram apenas filmes de guerra; foram diagnósticos cirúrgicos da loucura e da violência desmedida, tornando-se símbolos do protesto contra conflitos desumanizadores. 

Mais recentemente, documentários como "13ª Emenda" de Ava DuVernay tornaram-se instrumentos didáticos essenciais, mudando a percepção pública sobre o complexo industrial prisional e o racismo estrutural nos EUA. E o que dizer de "Parasita", de Bong Joon-ho? Ao conquistar o mundo, ele cristalizou na cultura popular uma discussão intransigente sobre a luta de classes, tornando-se um ícone global da insatisfação com a desigualdade. 


Portanto, o fenômeno é claro: de Chaplin a Bardem, de "O Grande Ditador" a "Uma Batalha Após a Outra", o cinema e seus criadores são agentes ativos da história. Eles não apenas refletem o mundo, mas o interrogam, o desafiam e, quando necessário, o denunciam. São as "luas" que, em sua órbita de luz e sombra, iluminam os caminhos para um futuro mais justo ou, pelo menos, nos alertam sobre os abismos que devemos evitar a todo custo. A batalha pelas narrativas, afinal, é a primeira e talvez a mais crucial de todas as batalhas.