Em pleno período de adaptação à escola em tenra idade, há uma adaptação do ninguém fala, mas talvez o mais transcendente no sistema educacional. O abismo que separa o salto do Primário para o ESO.
Em pleno período de adaptação à escola em tenra idade, há uma adaptação do ninguém fala, mas talvez o mais transcendente no sistema educacional. O abismo que separa o salto do Primário para o ESO.
A própria matéria-prima deste concerto – o som – precisa ser compreendida. Em A Afinação do Mundo, Murray Schafer introduz o conceito de "paisagem sonora", alertando-nos para a poluição sonora que nos cerca. Uma sociedade saudável precisa cuidar de sua paisagem sonora, eliminando os ruídos do preconceito, da desinformação e da intolerância, para que a música genuína da vida possa ser ouvida. A ciência, por sua vez, nos revela que a sinfonia começa no nível mais íntimo. Em A Canção da Célula, Siddhartha Mukherjee mostra como a biologia é uma orquestra microscópica, onde cada célula toca sua parte na complexa melodia da vida. A saúde do corpo social depende da harmonia desta sinfonia interior.
E como saber se a música está soando bem? Como afinar os instrumentos das políticas públicas? A sociologia, com seu método, oferece o ouvido apurado. O trabalho de Howard Becker em Evidências nos lembra que o "bom ouvido" da pesquisa social, o uso rigoroso dos dados, é essencial para identificar dissonâncias e harmonias. São as evidências que nos permitem fazer os ajustes necessários, garantindo que as "notas" tocadas pelo Estado e pelas instituições realmente gerem bem-estar – uma autêntica sinfonia na vida das pessoas.
É uma sinfonia inacabada, sempre em composição. Cabe a nós, instrumentistas e compositores ao mesmo tempo, pegar na partitura da história e, com ouvidos atentos aos dados, ao próximo e ao planeta, compor juntos a Décima Sinfonia da Terra.
Tomemos como exemplo hipotético o filme "Uma Batalha Após a Outra", um thriller político de alto escalão estrelado por Leonardo DiCaprio, Sean Penn e Benicio del Toro. No longa, DiCaprio interpreta um militante idealista revolucionário que, em uma América à beira do colapso civil, se vê envolvido numa trama pessoal e incômoda com um estrategista militar sombrio (Sean Penn) e um líder da comunidades de imigrantes (Benicio del Toro) numa guerra civil latente. A crítica especializada, ao analisar o filme, destacou sua "atmosfera de paranoia palpável" e a forma como o roteiro "não oferece heróis fáceis, apenas personagens tragicamente enredados na teia de um país que desaprendeu a dialogar". Os críticos apontaram a narrativa como um "alerta necessário", uma ficção que extrapolava os limites da para questionar os rumos da nação.
Entretanto, a fina linha entre o "exagero" ficcional e a realidade dissolveu-se em setembro de 2025, quando o então presidente Donald Trump anunciou o envio de tropas federais à cidade de Portland, sob a justificativa de " enfrentar o terrorismo doméstico". A cena – forças federais não identificadas prendendo cidadãos em viaturas não marcadas, os protestos nas ruas, a retórica inflamada – parecia ter sido extraída diretamente do roteiro de "Uma Batalha Após a Outra". A ficção havia servido como um roteiro-testamento, um ensaio geral para um capítulo sombrio da história americana. A arte não previu o futuro, mas diagnosticou as patologias sociais que, ignoradas, eclodiriam em conflito real. Assim como nas Escolas a violência explode e a culpa não é dos professores, mas dos Bilionários, Oligarquias e Ditadores. Se não salvar a educação, o sistema cai junto, é último bastião contra a barbárie!
Este engajamento não se limita às narrativas ficcionais. Os próprios artistas, conscientes de seu palco global, erguem suas vozes para amplificar lutas reais. Figuras como Robert De Niro, Bruce Springsteen e Javier Bardem transcenderam suas personagens para assumir um papel crucial na denúncia de atrocidades. De Niro, um crítico ferrenho de Trump, a quem chamou publicamente de "ditador em formação", e Bruce Springsteen, cuja obra sempre foi um poema sobre a América comum, usam sua influência para alertar sobre a erosão democrática. Já Javier Bardem, junto com sua esposa Penélope Cruz, tem sido uma voz incansável na denúncia do que qualificam como genocídio do povo palestino, pressionando governos e a comunidade internacional por um cessar-fogo e por direitos humanos. Eles, e muitos outros, entendem que a arte é um campo de batalha ideológico. Ao chamar Trump de "Ditador", não usam uma metáfora vazia; é um alerta baseado na observação de padrões autoritários que, não por acaso, são o tema central de tantos filmes.
Anos mais tarde, "Cidadão Kane" (1941), de Orson Welles, tornou-se um ícone eterno ao dissecar a corrupção do poder e a solidão dos tiranos, um retrato que ecoa em cada magnata que ambiciona o controle político. Já "Apocalypse Now" (1979) e "Nascido para Matar" (1987) não foram apenas filmes de guerra; foram diagnósticos cirúrgicos da loucura e da violência desmedida, tornando-se símbolos do protesto contra conflitos desumanizadores.
Mais recentemente, documentários como "13ª Emenda" de Ava DuVernay tornaram-se instrumentos didáticos essenciais, mudando a percepção pública sobre o complexo industrial prisional e o racismo estrutural nos EUA. E o que dizer de "Parasita", de Bong Joon-ho? Ao conquistar o mundo, ele cristalizou na cultura popular uma discussão intransigente sobre a luta de classes, tornando-se um ícone global da insatisfação com a desigualdade.
✍ Escrevo em EL PAÍS Educación sobre este assunto, retomando a recente iniciativa da Comunidade de Madrid de transferir os primeiros anos do ESO para as escolas primárias.
Na Espanha, a transição do 6º ano do Primário para o 1º ano do ESO representa um duplo desequilíbrio. Por um lado, um salto acadêmico repentino, onde a demanda dispara. Por outro, uma ruptura social e emocional: os alunos passam de um ambiente próximo e com um tutor de referência para um sistema fragmentado com múltiplos professores e um acompanhamento mais impessoal.
As consequências são muito importantes. Dois exemplos:
1️⃣ O gosto pela escola despenca: de 41% aos 11-12 anos para 18% aos 13-14.
2️⃣ O 1º ano do ESO concentra a maior taxa de repetência da escolaridade obrigatória (7,3%), apesar de as evidências científicas mostrarem que não melhora a aprendizagem e acelera a evasão.
👨 🏫 A raiz do problema é uma divisão histórica que afeta até mesmo os professores: professores com uma base pedagógica sólida no Ensino Primário versus graduados especialistas com menos formação pedagógica no Ensino Médio. Soluções como a transferência de salas de aula são insuficientes se não forem acompanhadas de investimentos reais, equipes coordenadas e, acima de tudo, uma reforma ambiciosa do corpo docente para construir verdadeiras pontes sobre esse abismo. Sem isso, continuaremos a condenar milhares de estudantes ao fracasso escolar todos os anos.
Artigo aqui: https://lnkd.in/en5YgXhk