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segunda-feira, 23 de fevereiro de 2026

13 de abril: Sobre o cálculo do volume da vida e do amor. Por Egidio Guerra




Há dias que se repetem. Não como na literatura, onde a ficção nos permite habitar o mesmo 18 de novembro durante milhares de manhãs, mas na vida real, onde certas datas adquirem a estranha propriedade de voltarem sempre — aniversários, efemérides, o 13 de abril que insiste em retornar no calendário como um lembrete de que o tempo, afinal, é uma espiral e não uma linha reta. 

Solvej Balle, na sua septologia Sobre o cálculo do volume, criou Tara Selter, uma mulher presa no mesmo dia, condenada a viver e reviver um único 18 de novembro enquanto o mundo à sua volta insiste em recomeçar sem memória . O que parece, num primeiro olhar, um artifício de ficção científica, revela-se uma poderosa metáfora para a condição humana: todos nós, de certa forma, habitamos dias que se repetem, relações que pedem reinvenção, dores que retornam com a mesma fatia de pão a cair ao pequeno-almoço . A pergunta que Balle nos coloca, nas entrelinhas da sua prosa hipnótica, é simples e devastadora: como se calcula o volume de um dia? E, por extensão, como se calcula o volume de uma vida? 

O volume, na geometria, é o espaço que um corpo ocupa. Trata-se de uma medição tridimensional — altura, largura, profundidade. Mas como medir a densidade de um afeto? Como calcular a área ocupada pela ausência de alguém? Como determinar o peso específico de uma memória que insiste em não se dissolver no esquecimento coletivo? 

A protagonista de Balle descobre que alguns objetos permanecem consigo quando o dia recomeça, enquanto outros simplesmente desaparecem. As compras que faz no supermercado esvaziam as prateleiras, mas o dinheiro volta à conta bancária . Há coisas que se acumulam, outras que se perdem no reinício forçado. Talvez seja essa a matemática secreta da existência: vamos acumulando pequenos saldos invisíveis — gestos, palavras, silêncios — enquanto o mundo gira, alheio à nossa insistência em permanecer. 

Num 13 de abril qualquer, olhamos para trás e tentamos fazer o nosso próprio cálculo do volume. O volume do amor não se mede em meses ou anos, mas na profundidade das marcas que deixa. Há amores que ocupam um espaço imenso na nossa geografia íntima mesmo tendo durado apenas alguns dias — como um corpo denso que pesa muito mais do que o seu tamanho sugere. Outros, longos e estáveis, ocupam um volume modesto, como quem aprendeu a existir sem fazer barulho. 

Tara Selter, nos seus intermináveis 18 de novembro, observa o marido repetir os mesmos gestos, alheio à sua presença fantasmática . "Thomas não sabe, mas eu escuto e encontro caminhos no dia dele, e à noite me visto para as estrelas" . É uma imagem comovente da solidão a dois, do amor que continua mesmo quando deixamos de ser vistos. O volume do amor, afinal, também se mede por essa capacidade de habitar o invisível, de permanecer mesmo quando o outro já não nos reconhece. 

A crítica literária apontou que a obra de Balle é "uma meditação sobre as formas solitárias e intraduzíveis como cada um de nós habita o tempo" . Talvez seja essa a grande aprendizagem que podemos extrair tanto da literatura como da vida: somos todos habitantes solitários do nosso próprio fuso horário emocional. Amamos no nosso tempo, sofremos no nosso ritmo, e raramente os ponteiros do outro coincidem exatamente com os nossos. 

O 13 de abril pode ser apenas mais um dia no calendário. Mas se o olharmos com a atenção que Tara Selter dedica a cada repetição do seu 18 de novembro — se repararmos no momento exato em que o melro começa a cantar, no instante preciso em que a chuva começa a cair  — talvez descubramos que cada dia contém um volume infinito de possibilidades. A questão não é quantos dias vivemos, mas quanta vida cabe em cada dia. 

Calcular o volume da vida é, no fundo, um exercício de atenção. É perceber que alguns amores ocupam mais espaço do que aparentam, que algumas dores são mais densas do que outras, que a memória tem a estranha propriedade de comprimir anos num instante ou esticar segundos em décadas. 

Balle escreveu uma obra em sete volumes para explorar um único dia . Talvez seja essa a medida exata da existência: precisamos de uma vida inteira para calcular o volume de um só instante. E mesmo assim, como Tara, continuaremos sem saber ao certo quantos dias vivemos, quantas vezes amámos, quanta tinta gastámos a tentar fixar o que nunca deixou de escorrer entre os dedos. 

Num 13 de abril, o que fica não é a data. É o volume do que nela coube — todo o amor que ali aconteceu, toda a esperança que ali nasceu, toda a despedida que ali se consumou. O resto é apenas matemática. E, como toda a matemática, apenas nos serve se nos ajudar a sonhar. 

 

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