O Ponto de Partida: O Zero e a Inércia
No princípio, era o zero. Não o número, mas o estado de não-pensamento descrito por Óscar de la Borbolla. É o conforto da inércia social, onde "toda a gente marcha na mesma direção" e as ações da maioria convergem para um objetivo comum, gerando uma ideologia que poucos questionam . Neste estágio, o indivíduo é como um algarismo sem valor absoluto, definido apenas pela posição que ocupa na multidão. A naturalização da realidade é completa: a crise climática, as guerras, a violência tornam-se paisagens aceitas, não problemas a serem dissecados . A massa vive na tranquilidade enganosa do que de la Borbolla chama de "certeza cega" — que, na verdade, é mera inércia .
Para a maioria, esta é a única direção possível. É o pensamento único, a estrada real onde o sentido da vida é dado pelo farol do sucesso, do dinheiro e da fama . Mas, como alerta o filósofo, "o êxito não é garantia de pensamento" . É possível acumular fortunas e poder, ser um "campeão da imbecilidade", sem jamais ter cruzado a fronteira que separa o zero do um .
O Despertar: O Salto Quântico para o Um
A rebeldia do pensar começa com um salto: a conquista do pensamento. De la Borbolla é enfático ao afirmar que não nascemos pensando; nascemos com a possibilidade de conquistar o pensamento . É um ato de vontade, um movimento que nos tira do zero e nos coloca no "um" — o primeiro número natural, a afirmação da individualidade.
Este passo inicial é a identificação, o primeiro nível do pensamento . É quando paramos de repetir e começamos a nomear o mundo. Como explica o autor, se não conhecemos o nome das árvores, nossa experiência do bosque é "tosca, grosseira e opaca" . Pensar é, antes de tudo, dar nome às coisas, distingui-las do fundo homogéneo da existência. É o ato de "relacionar palavras, relacionar conceitos, relacionar categorias" . Ao fazê-lo, o indivíduo opera um corte na uniformidade do rebanho. Ele deixa de ser um zero à esquerda e torna-se uma unidade consciente de si. Como bem expressou um dos comentadores da obra, o livro nos coloca "na entrada maldita que é pensar e rebelar-se" .
A Expansão do Infinito: A Crítica e a Dúvida
Se o "um" é a individualidade conquistada, o caminho até ao infinito é pavimentado pela crítica e pela dúvida — os níveis mais elevados do pensar . De la Borbolla define a crítica como uma comparação que não busca o comum, mas sim a diferença, o aspecto pelo qual uma coisa nos parece melhor ou pior que outra . É um juízo, um pronunciamento a favor ou contra. Neste movimento, a matemática do pensar torna-se fractal: cada problema resolvido, cada certeza estabelecida, é apenas um descanso, uma pausa para a próxima investida da dúvida .
O pensador rebelde é aquele que, como um matemático diante de um teorema, não se contenta com a primeira solução. Ele sabe que "as verdades são descansos no processo de pensar" . Se as abelhas encontraram uma solução para sobreviver e a repetem há milénios, os humanos são seres históricos exatamente porque não se conformam . A dúvida cartesiana, que de la Borbolla resgata, é a alavanca que nos move "do zero ao infinito", pois nos permite rebater as certezas para, em seguida, projetarmo-nos em direção a novas possibilidades .
É neste ponto que a filosofia se encontra com a transformação da realidade. Como lembra Louis Althusser, citado indiretamente, a filosofia é uma arma para revolucionar o existente . Pensar criticamente é pôr o mundo em crise, é estabelecer limites ao que parece eterno e imutável, é deixar de normalizar a realidade . O pensador, ao questionar as estruturas de poder e as ideologias dominantes, não apenas interpreta o mundo, mas prepara o terreno para a sua transformação, compreendendo que é preciso contemplar as leis da aerodinâmica antes de tentar voar .
A Solidão do Número Primo
Nesta jornada do zero em direção ao infinito, o pensador experimenta a solidão do número primo. "Pensar não é tranquilizador: provoca dúvidas, incerteza e, às vezes, inclusive, angústia", escreve de la Borbolla . O indivíduo que pensa afasta-se da massa, olha para os lados e não encontra facilmente um companheiro . A companhia da multidão, que marcha uníssona, é-lhe negada. Ele precisa, não de outros que "pensem como ele", mas de outros que também pensem . Precisa de outros números primos com quem possa dialogar, consciente de que a conexão verdadeira não está na repetição, mas na singularidade compartilhada.
A Beleza do Infinito: O Acaso da Existência
E, no entanto, este caminho solitário em direção ao infinito não conduz ao desespero. No último capítulo do seu livro, de la Borbolla reconcilia o pensamento com a felicidade . Pensar a nossa finitude, ter "consciência da morte", não nos torna necessariamente infelizes . Pelo contrário, ao pensarmos, damo-nos conta de que a nossa existência é fruto do acaso, um golpe de sorte na imensa lotaria cósmica .
Somos um número que surgiu do zero por puro acidente. E é essa constatação que nos permite alegrar-nos. "Descobres que ganhaste a lotaria da existência", afirma o filósofo . A rebeldia de pensar, que começa com o esforço de se destacar da inércia do zero e prossegue na jornada crítica em direção ao infinito, culmina na percepção de que não havia qualquer motivo para ter vindo à existência. E é exatamente por isso — por sermos um acidente maravilhoso num universo indiferente — que podemos ser completamente felizes .
Assim, a rebeldia do pensar, do zero ao infinito, não é uma fuga do mundo, mas um modo mais profundo de habitar nele. É a coragem de trocar a tranquilidade da certeza emprestada pela aventura da dúvida própria, e a sabedoria de descobrir que, na solidão do pensamento, encontramos a companhia mais autêntica: a de nós mesmos e a do universo infinito que, por um instante, podemos compreender.
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