SABERES TRANSDISCIPLINARES E ORGÂNICOS.

domingo, 22 de fevereiro de 2026

Argentina: Greve geral, Milei e o Relatório sobre Cegos.



O governo de Javier Milei na Argentina apresenta um panorama de contrastes agudos, que parece ter saído das páginas existenciais de Ernesto Sabato. De um lado, números econômicos que mostram queda da inflação e redução da pobreza; de outro, uma sociedade sitiada por uma reforma trabalhista que retrocede direitos e empurra o país para uma greve geral com 90% de adesão . É nesse cenário de "cegueira" política e social que a Argentina contemporânea reencena seus dramas históricos. 




O "Relatório sobre Cegos" Econômico e Social 
Se Sabato buscou desvendar as trevas da alma humana em sua obra-prima, os dados atuais da Argentina revelam uma realidade igualmente perturbadora. O governo Milei comemora a queda da inflação para abaixo de 2% nos últimos três meses  e uma redução da pobreza para 31,6% no primeiro semestre de 2025 , o menor índice desde 2018. No entanto, como em um conto sabatiano, esses números escondem uma verdade mais sombria. 

A contrapartida desse ajuste fiscal de 5% do PIB  é a destruição do tecido social. A Confederação Geral do Trabalho (CGT) denuncia que, nos últimos dois anos, 400 trabalhadores perderam seu emprego formal diariamente, com 300 mil postos de trabalho empurrados para a informalidade . As pequenas e médias empresas, a espinha dorsal da economia argentina, estão fechando às centenas . 

A Reforma Trabalhista e a Greve Geral 

Em fevereiro de 2026, Buenos Aires vive um capítulo digno do "Relatório sobre Cegos" em sua versão política. Enquanto o presidente Milei estava nos Estados Unidos recebendo abraços de Donald Trump , a Câmara dos Deputados debatia uma reforma trabalhista que os sindicatos classificam como um retrocesso de "cem anos em direitos individuais e coletivos" . 

A resposta foi a quarta greve geral contra o governo Milei e a mais massiva, com 90% de paralisação . Os manifestantes protestavam contra uma lei que: 

  • Recorta indenizações trabalhista  

  • Limita o direito de greve, classificando atividades essenciais de forma mais ampla  

  • Cria um banco de horas que permite compensar horas extras com folgas, retirando o caráter extraordinário do trabalho excedente  

  • Reduz salários em caso de afastamento por saúde, limitando o pagamento a 50% ou 75% dependendo da origem do problema  

A ministra da Segurança, Alejandra Monteverde, respondeu com uma cidade militarizada, canhões de água e gases lacrimogêneos, reprimindo até mesmo jornalistas e aposentados . O cenário de confronto nas portas do Congresso evocava as visões apocalípticas de Sabato, onde a civilização e a barbárie se confundem. 

A Educação e a Saúde como Campo de Batalha 

Curiosamente, em um gesto que pegou a todos de surpresa, Milei apresentou o orçamento de 2026 com um tom incomumente moderado, prometendo destinar 85% dos recursos para educação, saúde e previdência — com aumentos de 17% para saúde e 8% para educação . A mídia local classificou como "um outro Milei" , sugerindo que a dura derrota nas eleições provinciais de Buenos Aires em setembro de 2025 (onde seu partido ficou 13 pontos atrás do peronismo) forçou uma inflexão política . 

No entanto, a população permanece cética. Pesquisas recentes mostravam que 53,7% dos argentinos desaprovavam o governo em setembro de 2025 , e os protestos nas faculdades de Direito da UBA e em Corrientes sugerem que o discurso conciliatório chega tarde para muitos . 

Entre Heróis e Tumbas: A Identidade Argentina em Jogo 

A trajetória de Martín e Alejandra no romance de Sabato é uma busca por identidade em meio à decadência. Hoje, a Argentina vive busca semelhante. O governo Milei representa uma ruptura total com o peronismo histórico, mas a sua "modernização" é vista pelos críticos como uma entrega do país aos interesses estrangeiros. As denúncias de que a irmã do presidente, Karina Milei, estaria envolvida em esquemas de propina na compra de medicamentos , adicionam uma camada de tragicomédia a um governo que se elegeu prometendo combater a "casta" política. 

Como na canção popular citada pelo analista Santiago Leiras, "a vida te dá surpresas" . A grande surpresa argentina pode ser descobrir que, após tanto sofrimento e ajuste, o país ainda não encontrou a saída para o labirinto em que se meteu. Milei, o outsider que prometia "viver la libertadcarajo", agora negocia com o FMI, aceita socorro de Trump  e governa sob estado de sítio político. 

Conclusão 

A Argentina de 2026 é um país dividido entre a estabilização macroeconômica e o caos social. Os dados oficiais apontam para uma recuperação, mas as ruas de Buenos Aires contam outra história — uma história de resistência, repressão e medo. Enquanto o Congresso aprova leis que flexibilizam direitos e o governo celebra apoios internacionais, o trabalhador argentino, como os personagens de Sabato, segue tateando no escuro, à espera de um dia em que a "cegueira" política finalmente dê lugar à lucidez. 



 

 

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