Em Segu, as migrações raramente são uma escolha. Elas são impostas por forças históricas, políticas e econômicas que fragmentam o reino bambara e dispersam seus filhos pelo mundo. Maryse Condé mostra como o indivíduo é arrastado por correntes maiores que ele mesmo.
1. O Tráfico de Pessoas Escravizadas: A Violência da Diáspora
A forma mais brutal de migração forçada no romance é o comércio transatlântico de escravizados. Personagens são arrancados de suas famílias e comunidades, transformados em mercadoria e lançados em um mundo de sofrimento e trabalho forçado nas Américas. A experiência de Naba, filho de Dousika, é paradigmática.
Trecho (sobre a captura e a travessia):
"Naba não teve tempo de ver o rosto de seus agressores. Uma dor terrível explodiu em sua nuca e ele perdeu a consciência. Quando acordou, estava deitado em um espaço escuro e fétido, ouvindo o gemido da madeira e o barulho das correntes. O navio balançava. Ele estava a caminho de um lugar cujo nome desconhecia, para um destino que não podia imaginar." Foram vocês Portugueses, Espanhóis, Franceses, Ingleses, Holandeses...
Aqui, a migração não é apenas forçada, mas apaga a identidade. O nome, a língua, a família — tudo é substituído por um número e uma corrente. O recomeço não existe; há apenas a sobrevivência em um estado de não-pertencimento absoluto.
2. A Expansão do Islã e as Guerras Santas: O Refugiado Político e Religioso
A guerra religiosa entre o animismo bambara e o Islã em expansão também gera ondas de refugiados. Personagens como Tiekoro, o primogênito que se converte ao Islã, acabam por criar um cisma na família. Seus descendentes, como Omar, se envolvem nas guerras de expansão islâmica de El Hadj Omar, que forçam populações inteiras a fugir ou se converter.
Trecho (sobre a guerra e a fuga):
"Os djihads se sucediam, implacáveis, varrendo as aldeias animistas como fogo na savana. Os sobreviventes, com os pés sangrando e os filhos amarrados às costas, fugiam para o sul, carregando apenas a memória de seus deuses destruídos e o gosto amargo da derrota."
A migração aqui é a fuga para preservar a fé e a vida, mas o "novo começo" é feito sobre as cinzas de um mundo destruído.
3. A Exploração e a Busca por Oportunidades: O Migrante Econômico
Mesmo dentro da África, personagens como Malobali, filho de Naba, são capturados pelas rotas do tráfico interno e forçados a servir em exércitos ou a trabalhar para senhores da guerra. A migração também é uma consequência do comércio de escravos dentro do continente, movido pela ganância e pela busca de poder.
Trecho (sobre o deslocamento interno):
"Ele [Malobali] tinha aprendido que a vida de um homem nada valia. Trocava-se por um punhado de conchas, por um cavalo, por um punhado de pó de ouro. Era uma mercadoria que viajava de mão em mão, de reino em reino, sem nunca ter um lar."
A experiência de recomeçar, para esses personagens, é a de uma reinvenção forçada, onde a identidade original precisa ser ocultada ou adaptada para a sobrevivência em um novo e hostil ambiente.
A Experiência de Começar de Novo em "Atrás fica a terra": O Exílio Íntimo
Enquanto Segu é um mural das forças externas que causam a migração, Atrás fica a terra de Arianna de Sousa-García é um microscópio focado na experiência interna do deslocamento. O romance, escrito como uma carta da narradora para o seu filho, explora o que significa "começar de novo" no nível mais pessoal: o corpo, a língua e a memória.
1. O Corpo e a Língua como Territórios em Conflito
A migração não é apenas uma mudança geográfica; é uma fratura que se manifesta no corpo e na forma de se expressar. A narradora vive a estranheza de habitar um novo idioma e um novo espaço físico. O ato de escrever para o filho é uma tentativa de traduzir essa experiência e de transmitir uma herança que agora se fragmentou.
Trecho (sobre a língua e o pertencimento):
"Queria que soubesses como é difícil viver entre línguas, como a nossa, a de casa, vai se tornando um fio tênue, enquanto a outra, a da rua, cresce, teimosa, ocupando espaços. E aos poucos, a tua própria voz parece vir de um lugar estrangeiro."
Começar de novo significa aceitar que a própria identidade se torna um território em disputa, onde a língua materna e a língua de adoção coexistem, muitas vezes em conflito.
2. A Maternidade no Exílio: Transmitir o que não tem Lugar
A experiência da maternidade intensifica a questão do pertencimento. Como criar um filho em um lugar que não é "seu"? Como transmitir a ele a memória de uma terra que ele talvez nunca conheça? O livro é um ato de resistência contra o esquecimento, um gesto de "cuidado" para que o filho saiba de onde veio, mesmo estando longe dali.
Trecho (sobre a memória e a transmissão):
"Não tenho uma casa para te deixar, nem um país que possas habitar sem perguntas. Mas tenho estas palavras, estas histórias que me contaram, o cheiro da terra molhada que guardo na memória. É esta a herança que te dou: o mapa do que ficou para trás."
O recomeço, aqui, é o ato de construir um lar na linguagem e na memória, já que o lar físico se perdeu. É um ato de criação contínua, um acerto de contas com o passado para que o futuro (o filho) possa existir em paz.
3. A Fragilidade e a Força de Reconstruir
Sousa-García não romantiza o exílio. Sua narrativa é contida e sensível, mostrando a fragilidade de quem precisa se reconstruir em solo estranho. A força não está em esquecer, mas em integrar a perda à própria existência.
Trecho (sobre a reconstrução):
"Atrás fica a terra, sim. Mas não fica o desejo dela. E é com esse desejo, com essa falta, que temos que aprender a viver, a construir muros de papel, a plantar jardins em vasos pequenos. Começar de novo é isto: aceitar que nunca mais seremos inteiros, mas aprender a viver com as nossas próprias ruínas."
Conclusão: Ecos entre Épocas
Ao justapor Segu e Atrás fica a terra, percebemos que a migração forçada, embora historicamente situada, carrega dilemas universais e intemporais.
Em Maryse Condé, o deslocamento é uma tragédia coletiva, fruto da história (colonialismo, guerras, escravidão). Os personagens são peças em um tabuleiro muito maior, e seus recomeços são, muitas vezes, tentativas desesperadas de sobrevivência em um mundo que lhes nega o direito à identidade. É a diáspora vista de fora, como um furacão que espalha sementes por territórios hostis.
Em Arianna de Sousa-García, o foco se volta para o íntimo. A migração pode ser fruto de escolhas contemporâneas, mas a vivência do deslocamento ecoa as mesmas perguntas: Quem sou eu longe da minha terra? Como honrar a memória dos que vieram antes? Como criar raízes em terreno movediço?
Juntas, as duas obras nos lembram que "começar de novo" é um ato de coragem que se repete através dos séculos. Seja no navio negreiro de Naba, seja no apartamento anônimo da narradora de Sousa-García, a humanidade que persiste em reconstruir-se diante da perda é o que une essas histórias. Ambas celebram, com profunda sensibilidade, a força silenciosa e a fragilidade exposta de quem um dia precisou deixar tudo para trás e, com as próprias mãos, tentar erguer um novo mundo.
A alma tem cor, sim. E quando o mundo insiste em te lembrar disso, não é para celebrar — é para ferir.
Há uma dor que não se vê nas câmeras. Uma dor que não aparece nos contratos milionários, nem nos flashes dos estádios lotados. É uma dor que mora no fundo da alma, lá onde a infância ainda ecoa, onde os sonhos começaram antes de saberem que o mundo os esperava com pedras nas mãos.
Vinicius Junior sabe. Kylian Mbappé sabe.
Eles correm com a bola nos pés como se dançassem sobre os escombros de uma história que tentaram apagar. Cada drible é um recomeço. Cada gol é um grito abafado de quem ouviu, desde cedo, que não pertencia. Que aquele palco, aquela glória, aquele país — tudo isso era "emprestado". Que a cor da pele ainda é, para alguns, a única coisa que realmente enxergam.
A solidão do centro das atenções
Imagina ser aplaudido por milhões e, num segundo, reduzido à cor da tua pele. Imagina ter o corpo jovem, forte, veloz — e ainda assim carregar o peso de séculos. Cada partida não é só um jogo. É um campo de batalha onde, antes da tática, antes do gol, é preciso vencer o olhar que te diminui.
Vini dança. Dança porque é alegria, porque é resistência, porque é a língua que a avó falava, o samba que o tio assobiava, o gingado que não te ensinaram na escola. Mas a dança incomoda. Porque o corpo negro em movimento livre, feliz, dono de si — ainda assusta. Querem que ele corra, que ele marque, que ele vença. Mas não querem que ele dance. Não querem que ele exista por inteiro.
"Danço porque se eu parar, a dor me alcança. Danço porque o grito que não dei vira passo. Danço porque me disseram que eu não podia."
Mbappé sabe. Ele ergue troféus, quebra recordes, é tratado como rei na França — até o momento em que deixa de ser Kylian e volta a ser "o jovem dos subúrbios", "o francês de origem", "o negro que precisa provar que ama o próprio país". Cada falta sofrida em campo carrega o eco de outras faltas. Cada olhar enviesado nos corredores dos estádios é a lembrança de que, para alguns, ele nunca será completamente francês. Será sempre o estrangeiro dentro da própria casa.
"Marcaram meu corpo com cores que não escolhi. Mas é com ele que atravesso defesas, que ultrapasso limites, que mostro que a minha história não cabe no que pensaram de mim."
O exemplo que sangra por dentro
E o mais cruel: eles sabem que são exemplo. Sabem que bilhões de crianças os observam. Crianças negras que acordam cedo para ver os jogos, que imitam os dribles no terreiro de casa, que sonham em ser como eles. E essas crianças também aprendem, cedo demais, que o mundo pode amá-las num dia e odiá-las no outro. Que o sucesso não é escudo. Que a fama não é armadura. Que o racismo não escolhe hora, não pede licença, não respeita currículo.
Então eles seguem. Jogam. Vencem. Calam?
Não. Eles falam. Eles denunciam. Eles usam a voz que o futebol lhes deu para dizer: isso dói. Não é vitimismo. Não é mimimi. É a alma exposta. É o menino que ouviu "volta pra tua terra" num país que é a sua terra. É o adolescente que foi parado na rua mesmo sem nada de errado. É o homem que, mesmo no topo, ainda precisa provar que merece estar onde está.
Começar de novo, toda noite
Como em Segu, eles são arrancados — não fisicamente, mas na alma. A cada insulto, a cada silêncio cúmplice, a cada punição branda para quem os agride, uma parte deles precisa recomeçar. Precisam reconstruir a confiança no outro, no mundo, no jogo. Precisam lembrar a si mesmos que a dança é deles, que a alegria é deles, que a vitória é deles.
"Atrás fica a terra. Mas a pele, essa levamos conosco. E é com ela que jogamos, que vivemos, que resistimos. Não apesar dela. Por causa dela. Por tudo o que ela significa. Por todos os que vieram antes. Por todas as crianças que ainda vão chegar."
Vini e Mbappé não jogam só por si. Jogam por cada criança negra que sonha em dançar um dia sem pedir licença. Jogam por cada alma que já sentiu o peso do olhar que diminui. Jogam para que, um dia, a cor da pele seja apenas cor — e não sentença.
Até lá, eles dançam. Correm. Marcam. Erguem taças.
E, quando a noite chega e o estádio se cala, carregam sozinhos a dor de quem sabe que, amanhã, vai precisar começar de novo.
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