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sábado, 21 de fevereiro de 2026

Terras Desiguais: Um Retrato da Desigualdade no Brasil, Índia e México




A economia globalizada do século XXI criou ilhas de prosperidade e oceanos de carência. Em nenhum lugar essa dualidade é mais visível do que no chamado "Sul Global", onde países como Brasil, Índia e México emergem como potências econômicas regionais, mas carregam o fardo de serem campeões mundiais em um ranking menos nobre: o da desigualdade. Atravessar as "terras desiguais" desses três países é compreender que o crescimento econômico, quando não acompanhado de distribuição de renda e reformas estruturais, pode conviver pacificamente com a pobreza extrema, criando o que o prêmio Nobel Amartya Sen, em Glória Incerta: A Índia e suas contradições, define como um desenvolvimento que ostenta vitrines, mas esquece os alicerces. 

O Retrato da Desigualdade: Números que Escancaram a Realidade 

Os dados mais recentes pintam um quadro de contrastes violentos. Segundo o Relatório Global de Riqueza 5 do banco suíço UBS, o Brasil é o país com o maior número de milionários da América Latina, com cerca de 433 mil pessoas. Paradoxalmente, é também um dos mais desiguais do mundo. No Índice de Gini, que mede a desigualdade, o Brasil atingiu 0,82 em 2024, um dos piores índices globais quando considerada a posse de patrimônio . Isso significa que a ilha de prosperidade dos 433 mil convive com um continente de exclusão. 

O México, vizinho latino-americano, segue uma lógica semelhante, com 399 mil milionários e um coeficiente de Gini de 0,72 . Já a Índia, com seus 917 mil milionários, apresenta um índice de 0,74 . Apesar de numericamente inferiores aos gigantes asiáticos em população total de ricos, Brasil e México possuem um tecido social mais rompido pela desigualdade. Mas o que explica essa persistência? A resposta, como apontam autores como Marcelo Medeiros em Ricos e pobres, não está na falta de crescimento, mas na forma como a renda e, sobretudo, a riqueza (patrimônio, terras, heranças) estão concentradas no topo. 

Herança Colonial e a Concentração de Terras: A Raiz do Problema 

Se a renda é mal distribuída, a riqueza é um abismo. Um dos pilares dessa desigualdade crônica está na terra. O relatório da OXFAM e da International Land Coalition (ILC) de 2020 é cirúrgico ao apontar que a concentração fundiária global aumentou desde 1980, e a América Latina, onde Brasil e México se inserem, é a região mais desigual do planeta nesse quesito . 

Os números são estarrecedores: os 10% mais ricos da população rural controlam 60% do valor das terras agrícolas, enquanto a metade mais pobre da população amarga apenas 3% . No campo, a desigualdade não é apenas econômica; ela é uma sentença de vida. A OXFAM alerta que essa concentração expulsa pequenos agricultores, indígenas e comunidades tradicionais de suas terras, aprofundando a pobreza e gerando conflitos. Em 2019, pelo menos 212 pessoas foram mortas globalmente por defenderem seus territórios . Essa violência estrutural, frequentemente invisibilizada nos relatórios de crescimento do PIB, é a face mais cruel da "mão invisível" do mercado quando desregulada. 

A concentração de terras no México e no Brasil não é um acidente, mas uma continuidade histórica. No México, apesar da retórica da Revolução Mexicana e do "ejido" (terra comunal), as reformas neoliberais das últimas décadas reabriram a porteira para a compra de terras por grandes corporações. No Brasil, a lógica da capitania hereditária ainda ecoa nos latifúndios modernos. Como bem documenta Thomas Piketty em O Capital no Século XXI, a taxa de retorno do capital (herdado) tende a ser superior à taxa de crescimento da economia (fruto do trabalho), perpetuando dinâmicas de renda vitalícias que transcendem o mérito individual. 

O Mito da Meritocracia em Terras Desiguais 

É nesse contexto que a obra do economista mexicano Máximo Ernesto Jaramillo Molina, Pobres Porque Quieren. Mitos de la desigualdad y la meritocracia, se torna essencial. Jaramillo desconstrói a narrativa conservadora de que a pobreza é fruto da preguiça ou da falta de esforço. Em países com altíssima desigualdade de oportunidades, o "mérito" é um privilégio de berço. Se uma criança nasce em uma família sem terra no sertão nordestino, em uma vila rural de Oaxaca ou em um bairro de lata em Mumbai, sua trajetória de vida já está, em grande parte, traçada antes mesmo de seu primeiro passo. A falta de acesso à educação de qualidade, saúde e saneamento básico cria gerações de trabalhadores precarizados. 

Jean Drèze e Amartya Sen, em Glória Incerta, demonstram como a Índia, apesar do boom tecnológico em centros como Bangalore e Hyderabad, falhou miseravelmente em prover serviços públicos básicos. A fome, a desnutrição infantil e a mortalidade materna na Índia são comparáveis às da África Subsaariana, não às de um país emergente. Isso ocorre porque o crescimento indiano foi puxado pelo setor de serviços qualificados, deixando para trás a massa de trabalhadores rurais e informais. A "glória" econômica, portanto, é "incerta" porque não se traduz em liberdade real para a maioria. 

A Armadilha do Trabalho e a Ausência do Estado 

O mercado de trabalho nesses três países é marcado pela informalidade e pela precarização. O economista sérvio-americano Branko Milanović, em Visões da desigualdade, nos ajuda a entender que vivemos um novo momento do capitalismo, onde o capital globalizado negocia com governos locais em condições de superioridade. Isso gera o que ele chama de "cidadãos privilegiados" (os donos do capital) e uma massa de trabalhadores que competem em um mercado de trabalho global, com salários em queda. 

No México, as reformas trabalhistas e a abertura comercial (NAFTA/USMCA) integraram o país às cadeias globais de valor, mas criaram uma classe operária com salários deprimidos em cidades fabris (maquiladoras) na fronteira. No Brasil, a terceirização em massa e a informalidade atingem mais da metade da força de trabalho. No livro País sin techo, de Carla Escoffié, vemos outro reflexo dessa desigualdade: a crise habitacional e a impossibilidade de acesso à cidade. Sem emprego formal e com renda insuficiente, milhões são empurrados para periferias sem infraestrutura, vivendo em situação de vulnerabilidade constante. 

A obra No es normal, da socióloga mexicana Viri Rios, complementa essa visão ao mostrar como a violência e a insegurança no México são também produtos da desigualdade e da falta de oportunidades. Quando o Estado é capturado por interesses privados ou pelo crime organizado, são os jovens das periferias que pagam o preço mais alto, seja como vítimas ou como alvos fáceis do recrutamento criminal. 

Perspectivas e o Futuro da Desigualdade 

Pedro Fernando Nery, em Extremos: Um mapa para entender as desigualdades, oferece uma visão panorâmica de como diferentes tipos de desigualdade (de renda, raça, gênero, regional) se sobrepõem, criando "extremos" de privação. No Brasil, a desigualdade tem cor e gênero: a mulher negra e periférica é a base da pirâmide social. Na Índia, a desigualdade se cruza com o sistema de castas, que ainda dita o acesso a oportunidades. 

Há, contudo, saídas? As pesquisas compiladas por Carlos Gradín, Murray Leibbrandt e Finn Tarp em Inequality in the Developing World (publicado pela Oxford University Press) sugerem que políticas fiscais progressivas são fundamentais . É preciso taxar os super-ricos, tributar grandes heranças e fortunas, e investir pesadamente em serviços públicos universais. Sem uma reforma tributária que faça os ricos contribuírem proporcionalmente à sua renda e patrimônio, o círculo vicioso se mantém. 

Conclusão 

Brasil, Índia e México são "terras desiguais" porque suas modernizações econômicas foram incompletas e excludentes. Construíram arranha-céus sobre alicerces de areia. Enquanto a terra, o patrimônio e a herança forem os principais motores da economia, e não o trabalho digno e a educação de qualidade, o Índice de Gini continuará teimoso em cair lentamente. Desmentir o mito da meritocracia, como faz Jaramillo, e compreender a natureza política da desigualdade, como ensinam Piketty e Milanović, é o primeiro passo para, um dia, transformar essas terras desiguais em nações verdadeiramente justas. A alternativa, como alertam os relatórios da OXFAM e os estudos da ONU, é um futuro de conflitos, instabilidade social e subdesenvolvimento crônico. 

 




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