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terça-feira, 24 de fevereiro de 2026

A Precariedade do "Ser Conta Própria": Do Ceará ao Mundo, a Face da Informalidade e da Falta de Oportunidades

 



1. O Contexto Cearense: Distância, Pobreza e a Ausência do Estado 

A informação de que metade dos trabalhadores de algumas cidades cearenses atua por conta própria é um retrato da vulnerabilidade estrutural. Esse fenômeno pode ser explicado por três fatores interligados que você mencionou: 

  • Distância dos Grandes Centros: Cidades menores e mais afastadas das regiões metropolitanas (como Fortaleza) sofrem com a ausência de indústrias e grandes empresas. A economia local, muitas vezes baseada na agricultura de subsistência ou no comércio de bairro, não gera empregos formais em quantidade suficiente. 

  • Falta de Oportunidades e Pobreza: Sem vagas no mercado formal (com carteira assinada e direitos garantidos), a população não tem alternativa a não ser "criar" o próprio trabalho. Isso inclui desde o ambulante que vende doces até o diarista da construção civil. É o que os especialistas chamam de "informalidade por exclusão" . A pessoa não escolhe empreender por visão de negócio, mas sim por pura necessidade de sobrevivência diante da pobreza. 

2. O Panorama Nacional e Mundial: A "Lei da Selva" e a Precarização Estrutural 

Essa realidade cearense não é um caso isolado, mas sim um sintoma de um problema global. 

  • Brasil: Os dados nacionais mostram a magnitude dessa questão. De acordo com a Organização Internacional do Trabalho (OIT), o Brasil tem um contingente massivo de trabalhadores por conta própria (23,3 milhões) e sem carteira (11,2 milhões) . Isso reflete uma precarização das condições de trabalho, onde o "emprego" tradicional, com proteção social, dá lugar a ocupações instáveis. 

  • Mundo: Globalmente, a situação é igualmente preocupante. A OIT estima que 61% de toda a força de trabalho mundial (cerca de 2 bilhões de pessoas) atuam na informalidade, sendo que a maioria absoluta (85%) desses trabalhadores informais são justamente os que trabalham por conta própria . Isso demonstra que o modelo de trabalho sem proteção e com renda instável é a regra, não a exceção, no capitalismo contemporâneo. 

  • "Lei da Selva": Esse termo descreve perfeitamente o mercado de trabalho precarizado. Sem a mediação do Estado e de sindicatos, o trabalhador fica refém de sua própria capacidade de sobrevivência. A lógica é: "cada um por si". A ausência de direitos como férias, 13º salário, seguro-desemprego e aposentadoria transforma a vida profissional em uma luta diária e incerta. 

3. O Elo Final: Da Falta de Oportunidades ao Crime 

A conexão mais trágica dessa realidade é a vulnerabilidade que ela gera para o avanço da criminalidade. Quando o Estado não oferece alternativas dignas de trabalho e renda, o crime organizado se apresenta como uma "oportunidade" perversa. 

  • O Crime como "Empregador": Em regiões onde o trabalho formal é escasso e o "conta própria" mal garante o sustento, o narcotráfico e outras atividades ilícitas oferecem uma renda maior e mais estável (ainda que breve e arriscada) para jovens sem perspectiva. O crime preenche o vazio deixado pela ausência de políticas públicas e oportunidades . 

  • Dados da ONU sobre o Elo Vulnerabilidade-Crime: Essa relação não é uma simples impressão. Um relatório do Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime (UNODC) aponta que mais de 90% dos especialistas consultados concluíram que a pobreza e o desemprego são os principais fatores que tornam as pessoas vulneráveis ao aliciamento por redes criminosas, seja para o tráfico de drogas, para o trabalho forçado ou para o tráfico de pessoas . 

  • A Ausência de Perspectiva: A precarização do trabalho e o desemprego juvenil (que na América Latina atinge o triplo da taxa de adultos) corroem os custos de oportunidade de entrar para o crime . Se o futuro oferece apenas subempregos ou "bicos" incertos, a ilusão de ganho fácil e status oferecida pelo crime se torna uma alternativa "atraente" para muitos. 

Dimensão 

Contexto Específico (Ceará) 

Comparativo (Brasil & Mundo) 

Causa Principal 

Falta de oportunidades formais, pobreza e distância de polos econômicos. 

Informalidade por exclusão: falta de empregos de qualidade . 

O Fenômeno 

1 a cada 2 trabalhadores é "conta própria" em algumas cidades. 

Brasil: 23,3 mi por conta própria; Mundo: 61% da força de trabalho é informal . 

A "Lei da Selva" 

Ausência de direitos trabalhistas e proteção social para esses trabalhadores. 

Condições precárias, renda instável e nenhuma seguridade social . 

Consequência Final 

População vulnerável, sem perspectivas de futuro digno. 

O Crime cresce: Pobreza e desemprego são porta de entrada para o crime organizado, segundo a ONU . 

Conclusão 

O dado do Ceará é a ponta de um iceberg. Ele revela como a combinação de fatores locais (distância, pobreza) se conecta a um fenômeno nacional e global de precarização estrutural do trabalho. Nesse cenário de "lei da selva", onde o trabalho por conta própria é muitas vezes sinônimo de subvivência e não de empreendedorismo, a ausência de oportunidades formais e de proteção social cria o ambiente perfeito para que o crime organizado floresça, oferecendo a "oportunidade" que o Estado nega. 

 

 

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