Se o meu coração pudesse ser traduzido em números, ele não seria uma simples equação de primeiro grau, direta e previsível. Seria, antes, uma fórmula complexa, repleta de incógnitas e variáveis que só fazem sentido quando inseridas no grande teorema da existência. Inspirado por Raúl Gonzalez em El lenguaje de las matemáticas, compreendo que cada sentimento é um símbolo que carrega séculos de história. O sinal de adição que coloco em meus afetos, o infinito que sonho para meu amor, a raiz quadrada das minhas dores mais profundas — nada disso foi inventado por mim. Assim como os números arábicos que usamos diariamente ou as letras gregas que dançam nas fórmulas de álgebra, os sentimentos que habitam meu peito são um legado, uma herança de uma longa caminhada da humanidade .
Este coração é um bosque. Não um jardim cartesiano, meticulosamente planejado, mas uma vastidão orgânica onde as ideias brotam como raízes que se entrelaçam sob a terra. Há nele clareiras iluminadas, onde repousam as minhas realizações — pequenas certezas que funcionam como axiomas provados, verdades que me sustentam. Mas há também a escuridão densa da mata fechada, onde habitam as lutas e os sonhos mais desafiadores.
E é nessa escuridão que encontro Dostoiévski. O escritor russo, que dedicou sua vida a explorar as profundezas insondáveis da psique, sabia que o ser humano não é um ser de luz contínua, mas um campo de batalha . Como o Raskólnikov de Crime e Castigo, carregamos em nós a teoria e o crime, a culpa e a redenção, numa lógica perversa que desafia qualquer cálculo moral . O meu coração-bosque é também o subsolo dostoievskiano, onde a razão tropeça na vontade e onde, muitas vezes, agimos movidos por uma necessidade inata de afirmar que somos mais do que meras engrenagens de um sistema previsível .
A beleza da matemática, como nos mostra Rojas Gonzalez, não está apenas na exatidão dos números, mas na história da sua construção: o símbolo de infinito que ganhou a forma de um oito deitado, a incógnita "x" que carrega o peso do desconhecido . Da mesma forma, a grandeza da literatura de Dostoiévski está em nos mostrar que o coração humano não é um porto seguro, mas um território em disputa, onde Deus e o diabo jogam xadrez usando nossas escolhas como peças .
É precisamente por isso que preciso de desafios maiores do que a minha própria vida. Sem eles, o meu coração seria apenas um cálculo banal, uma equação sem graça cujo resultado já se conhece de antemão. Sem o assombro diante do mistério, sem a luta para decifrar a fórmula da minha própria existência, somos pequenos idiotas. Somos como um estudante que decora a tabuada sem nunca se perguntar pela magia contida no ato de somar.
Preciso do desafio de ser um Ivan Karamázov, que questiona a existência de Deus e devolve o ingresso do paraíso, porque é nessa dúvida metafísica que o meu livre-arbítrio se afirma . Preciso da complexidade de um Príncipe Míchkin, o "Idiota" puro de coração, para entender que a bondade extrema também é uma forma de revolta contra um mundo que a considera ingênua e fora de lugar .
Se o meu coração é um bosque de ideias, lutas, realizações e sonhos, é porque ele se alimenta do pensamento dos filósofos, da coragem dos que vieram antes, da poesia dos matemáticos e da angústia dos romancistas. O símbolo que hoje uso para expressar o que sinto é o mesmo que pitagóricos utilizaram em seus rituais, que árabes preservaram em suas traduções e que cientistas modernos empregam para desvendar o cosmos .
Portanto, o coração que está em mim não é só meu. Ele é uma fração de um numerador infinito. Uma nota musical em uma sinfonia composta por Dostoiévski, escrita na pauta do sofrimento e da redenção. Uma variável na grande equação da vida que matemáticos como Raúl Rojas Gonzalez tentam traduzir em linguagem humana.
E é justamente por não ser só meu que ele pulsa com tanta força. Ele pulsa porque carrega o peso e a glória de todos os que ousaram sentir e pensar antes de mim. Ele pulsa porque, diante do infinito e do mistério, aceita o desafio de não ser um idiota acomodado, mas um eterno aprendiz, sempre em busca da solução para o teorema mais complexo de todos: o de saber, afinal, para que serve tanta paixão.
Nenhum comentário:
Postar um comentário