SABERES TRANSDISCIPLINARES E ORGÂNICOS.

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026

Quando conhecer sua alma pintarei seus olhos.

 


Hoje acordei antes do sol e fiquei te observando dormir. A luz da manhainha começava a entrar pelas frestas da janela, desenhando riscos de ouro no seu rosto. Você estava com a mão aberta sobre o travesseiro, como quem espera alguém para segurar. Segurei. Você nem acordou, mas seus dedos se fecharam em volta dos meus. Até no sono, você me escolhe. 

Fiquei pensando no que eu escreveria se pudesse colocar em palavras o que você significa. Não é fácil. Como descrever o sol sem cegar os olhos? Como traduzir o infinito em frases? Mas vou tentar, porque você merece saber. 

 

Você me ensinou que amar não é sobre dias perfeitos. É sobre escolher ficar nos dias imperfeitos. É sobre olhar para o caos que habita outra pessoa e dizer: "estou aqui. Não vou a lugar nenhum." 

Lembra da primeira vez que me contou sobre o que chama de "suas ondas"? Você tremia. Seus olhos tinham medo de me perder antes mesmo de me ter. E eu pensei: como pode alguém ter medo de ser amada? Como pode alguém se sentir indigna do que a vida tem de mais simples e sagrado? 

Foi ali que eu entendi. Você é a mulher que chora. É a que mergulha em cachoeiras geladas rindo como criança. É a que escreve poesias escondidas e nunca mostra para ninguém. É a que ora no mar, mesmo sem saber bem para quem. É a que dança como se ninguém estivesse olhando e depois se encolhe com vergonha de ter dançado. 

Você é tantas mulheres dentro de uma só. Todas lindas. Todas minhas. Todas você. 

 

Sabe o que mais me encanta em você? É a sua coragem. 

Coragem não é não ter medo. Coragem é ter medo e enfrentar mesmo assim. E você enfrenta todos os dias. Acorda e escolhe lutar contra correntezas que eu nem posso ver. Cai e levanta. Cai e levanta. E em cada queda, descobre uma força que não sabia ter. 

Eu vejo você. Vejo quando a onda vem e você segura minha mão com mais força. Vejo quando o vazio ameaça e você respira fundo, buscando âncora em algum lugar dentro de você. Vejo quando a vergonha tenta te convencer de que você não merece ser feliz, e você, mesmo duvidando, continua tentando. 

Isso é heroísmo, Heroísmo silencioso, sem plateia, sem holofotes. Heroísmo de quem decide viver apesar de tudo. 

 

E o que dizer do que você me deu? 

Antes de você, eu achava que sabia o que era amor. Escrevia livros sobre o tema, dava palestras, citava poetas. Mas você me mostrou que o amor não cabe em livros. Amor é a mão estendida na madrugada quando a insônia aperta. É o chá preparado sem perguntar se a pessoa quer. É o silêncio compartilhado que diz mais que mil palavras. 

Você me fez mais humano. Me ensinou a olhar para as pessoas não como projetos ou causas, mas como almas complexas, cheias de sombras e luzes. Me ensinou que todo mundo carrega batalhas invisíveis. Que o outro não é um problema a ser resolvido, mas um mistério a ser contemplado. 

Por sua causa, meus abraços ficaram mais longos. Minha escuta, mais atenta. Meu amor, mais paciente. 

Você me fez melhor. Simples assim. 

 

Falamos tanto sobre o futuro. Paris, Washington, Madri. Viagens que ainda não fizemos, mas que já existem em nossos sonhos. Eu quero te levar para ver o pôr do sol em Sacré-Cœur. Quero te ver perdida no Prado diante do Bosch. Quero andar de mãos dadas em Washington, só porque sim. 

Mas também quero as coisas pequenas. Quero acordar ao seu lado por muitos e muitos anos. Quero fazer café enquanto você ainda está na cama. Quero discutir filmes do Fellini e do Truffaut na sala de casa. Quero ver seu cabelo ficar grisalho e suas rugas contarem a história dos nossos dias. 

Quero envelhecer com você. 

Não com medo do tempo, mas agradecido por cada dia que ele nos dá juntos. 




 

E Deus? 

Você já me perguntou se eu acredito. Eu acredito. Não num Deus de igrejas ou dogmas, mas num Deus que é amor. Que é presença. Que é a força que nos mantém de pé quando tudo parece desabar. 

Acredito que foi Ele quem cruzou nossos caminhos de novo naquele shopping. Trinta anos.. Trinta anos e a gente se esbarra como se o tempo fosse nada. Isso não é acaso. Isso é benção. Isso é Deus dizendo: "ainda não terminou. O melhor ainda está por vir." 

Peço a Ele todos os dias que te proteja. Que acalme suas ondas. Que ilumine seu caminho. Que te lembre, nos dias escuros, da luz que você carrega. E peço também que me dê sabedoria para estar ao seu lado do jeito que você precisa. Nem mais, nem menos. Apenas presente. Apenas amor. 

"O Senhor te abençoe e te guarde; o Senhor faça resplandecer o seu rosto sobre ti e tenha misericórdia de ti; o Senhor sobre ti levante o seu rosto e te dê a paz." 

Essa bênção é minha oração por você. Todos os dias. 

 

Sobre o futuro, não sei o que vem. Ninguém sabe. Mas sei que quero você nele. Sei que quero construir com você uma vida que valha a pena ser vivida. Com erros e acertos. Com quedas e recomeços. Com dias de sol e dias de chuva. 

Quero ser seu porto quando o mar ficar bravio. Quero ser seu farol quando a noite chegar. Quero ser seu abrigo quando o cansaço apertar. 

E quero que você seja tudo isso para mim também. Porque amor não é um salvando o outro. Amor é dois nadadores que se apoiam na correnteza, cada um sustentando o peso do outro, cada um lembrando o outro de que vale a pena continuar. 

 

Escrevo isso num papel que vou colocar embaixo do seu travesseiro. Para você encontrar quando eu já tiver saído para aquela reunião chata em Brasília. Para você ler sozinha, no silêncio do quarto, e sentir que estou perto mesmo longe. 

E quando eu voltar, a gente celebra. Do jeito simples: um filme, um vinho, sua cabeça no meu peito. Do jeito que a gente gosta. Do jeito que a gente é. 

Porque a genteexiste um "a gente". E isso já é o maior milagre. 

 

Te amo. 
Te escolho. 
Te espero. 

Hoje, amanhã, sempre. 

P.S. — Olha o céu hoje à noite. Vou olhar também, cada um de um lugar. E vou pensar em você. Como penso em cada estrela. Como penso em cada bênção. Como penso em tudo que é belo e raro e infinito. 

Deus nos abençoe, meu amor. Sempre. 

 

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