SABERES TRANSDISCIPLINARES E ORGÂNICOS.

sábado, 21 de fevereiro de 2026

A Sociogenia de Fanon: O Sofrimento como Produto Social e Colonial



Se a sociogenia explica o como o corpo e a mente adoecem, a obra de Fanon também explica o para quê. A produção do sofrimento não é um acidente de percurso, mas um mecanismo funcional à manutenção da ordem exploradora. 

Em Os Condenados da Terra, Fanon descreve como o mundo colonial é um mundo maniqueísta, dividido entre a cidade do colono (rica, segura, humana) e a cidade do colonizado (pobre, insegura, animalizada). Essa divisão não é apenas geográfica, mas subjetiva. O colonizado é forçado a ocupar o lugar do "não-ser", daquele cuja vida tem pouco valor. É nessa fenda que se inserem a prostituição e a exclusão. 

  • Prostituição e Sobrevivência: Em contextos de extrema pobreza e desemprego estrutural — como vimos nas periferias das megacidades indianas, nos cinturões de miséria das metrópoles mexicanas e brasileiras —, a prostituição frequentemente se apresenta como a única moeda de sobrevivência para corpos descartáveis. Não se trata de escolha individual, mas de uma violência econômica que empurra mulheres, jovens e populações LGBTQIA+ para a exploração sexual. É a face mais crua da "produção pelo sofrimento": o corpo é a última mercadoria que resta a quem foi expulso do mercado de trabalho formal e negado pelo Estado. 

  • Exclusão e Morte Social: A exclusão vai além da falta de renda. É a exclusão da cidadania, do acesso à saúde, à educação e à justiça. O estudo sobre violência armada na América Latina mostra que as populações de territórios vulnerabilizados vivem sob uma "atmosfera de insegurança" que impede o acesso a serviços básicos de saúde . Escolas e unidades de saúde são interrompidas, moradores são impedidos de circular — é a própria vida sendo suspensa. Essa exclusão produz o que o psicanalista Deivison Faustino, baseado em Fanon, chama de "dupla destituição": destituição dos direitos de cidadania e das possibilidades modernas de individuação, o que gera um profundo mal-estar . 

A Psicopatia no Poder: O Reverso da Moeda 

Se de um lado a sociogenia produz multidões de sofredores, de outro, ela produz, ou pelo menos viabiliza, a ascensão de personalidades psicopáticas ao poder. Não por acaso, os países com maior desigualdade e com passados coloniais violentos são frequentemente palco de líderes autoritários, brutais e sem empatia. 

A psicanálise e a psicologia social oferecem pistas cruciais para entender esse fenômeno: 

  1. O Sistema Seleciona Psicopatas: O cientista político George Monbiot argumenta que personalidades tóxicas prosperam em ambientes tóxicos. Um sistema político-econômico baseado na competição predatória, na disputa feroz e na acumulação a qualquer custo — características do capitalismo neoliberal — naturalmente seleciona indivíduos com traços de psicopatia: falta de remorso, manipulação, narcisismo e indiferença ao sofrimento alheio . Se para vencer é preciso ser brutal, os brutais chegam ao poder. 

  1. A Mentira como Ferramenta de Poder: A psicanalista Christina Montenegro aponta que a mentira do psicopata não é uma "burrice" ou um erro, mas uma arma a serviço da manutenção do poder . O psicanalista Jeremias Ferraz Lima complementa que, na política brasileira, a mentira está sempre a serviço da manutenção do poder, constituindo uma "psicopatia clara" . Esses líderes não buscam o bem comum, mas a satisfação de seus próprios déficits e feridas. Como observa Monbiot, as tragédias privadas dos poderosos (traumas, inseguranças profundas) tornam-se as tragédias públicas daqueles que eles dominam . A necessidade insaciável de poder, prestígio e atenção projeta-se na política, resultando em decisões que levam nações à catástrofe. 

  1. A Ausência de Controles: Apesar de ser uma ameaça à humanidade, não há qualquer filtro ético ou psicológico para o exercício do poder . Enquanto um piloto de avião ou um motorista de ônibus precisa passar por rigorosos exames psicológicos, qualquer pessoa com carisma, recursos financeiros ou alianças oportunistas pode aspirar a governar um país, sem que se questione sua empatia ou sua capacidade de priorizar o bem comum sobre o ego pessoal . 

Como Isso Afeta a Democracia? O Círculo Vicioso da Adoecimento Político 

A relação entre a produção de sofrimento nas maiorias e a ascensão de psicopatas ao poder cria um círculo vicioso que corrói a democracia por dentro. 

  • A Massa Deseducada e o Herói Mentirosos: Christina Montenegro alerta que a massa, preocupada em sobreviver, está disponível para ser tocada por um "berrante que toque bem" . A precarização da educação e da cultura, fruto das políticas de exclusão, facilita a manipulação. O líder psicopata surge como o "herói" que promete soluções mágicas para o sofrimento real, mas sua gestão só aprofunda a desigualdade e a violência. 

  • O Trauma como Base do Autoritarismo: Uma população traumatizada — pela pobreza, pela violência, pelo racismo — tem sua capacidade de resistência política diminuída. O medo e o sofrimento psíquico paralisam. É nesse terreno fértil que o autoritarismo floresce. Como vimos na América Latina, o peso histórico das colonizações reifica as vulnerabilidades, criando um ciclo interminável de violência e adoecimento . 

  • A Democracia como Fachada: Quando psicopatas ocupam o poder, as instituições democráticas se tornam fachadas. Os parlamentos são comprados ou ameaçados, a justiça é manipulada, os meios de comunicação são controlados . O poder é exercido para benefício próprio e de seus aliados, não para o povo. A democracia representativa, sozinha, é insuficiente para conter essa captura. 

Conclusão: A Clínica Implicada e a Reinvenção da Política 

A saída para esse labirinto, inspirada em Fanon e nos pensadores que o seguem, passa por uma dupla frente: 

  1. Uma Clínica Implicada: É preciso uma escuta psicológica que não isole o sujeito de sua história. Como alerta Faustino, a clínica que ignora o racismo e a colonialidade é "cúmplice do que adoece" . É necessário reconhecer o racismo e a desigualdade como determinantes sociais de sofrimento psíquico e construir dispositivos políticos, clínicos e pedagógicos antirracistas e emancipadores . 

  1. Uma Democracia Participativa: Para contrapor a ascensão de psicopatas, Monbiot sugere que é preciso fortalecer a democracia representativa com mecanismos de democracia participativa: assembleias de cidadãos, orçamento participativo e cocriação de políticas públicas . Esses mecanismos podem recompensar políticos mais sensíveis e colaborativos, em vez dos "líderes fortes" e brutais. Além disso, a proposta de avaliações psicológicas independentes para candidatos a cargos de alta responsabilidade, embora polêmica, surge como uma reflexão sobre a necessidade de proteger a sociedade de indivíduos que, carentes de empatia, podem transformar suas feridas particulares em catástrofes coletivas . 

Em suma, as "Terras Desiguais" do Sul Global são também terras do sofrimento psíquico e da política patológica. Superar essa herança exige não apenas reformas econômicas, como a taxação dos super-ricos e a distribuição de terras, mas também uma profunda reforma subjetiva e democrática, que devolva às maiorias a condição de sujeitos de sua própria história e que crie barreiras intransponíveis para que psicopatas não ditem os destinos da nação. 


 


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